domingo, 6 de janeiro de 2013

vergílio ferreira (3)

 


 


 


 


 


"... Ser inteligente é ser desgraçado. O imbecil é feliz. Mas o animal também...



...Dar sentido à vida. Para lho darem aos domingos, quando não trabalham, os campónios da aldeia embebedam-se e dão-se facadas. A arte do nosso tempo sabe-o e faz o mesmo...

... Ser livre em relação a tudo é ter uma liberdade inútil, por que inteiramente disponível. Ser livre em relação a tudo é igual a ser determinado, por que num caso e noutro não há escolha nenhuma. A liberdade é então uma função sem destino e vira-se para si própria como um estômago vazio...

... Porque a eternidade não se mede pela sua duração mas pela intensidade com que a vivemos...

... Visitar uma terra que há muito deixámos. Não poderemos jamais reencontrá-la. Porque a vida é o presente e tudo o mais é ficção. Mas decerto uma ficção mais real que a realidade...

... Uma biblioteca é quase tão pessoal como as impressões digitais. Ela forma-se como os problemas que nos formaram a nós e outros virão a abandonar...

... Uma forma de o medíocre convencido imitar a grandeza é não dizer mal de ninguém...

... Pinta-se o galo mas não a galinha, o touro mas não a vaca. Porque o macho é que é testiculado. Mas à mesa o que se come é vaca ou galinha, mesmo que a carne seja do outro. Somente a mesa é o lugar da fraqueza e da necessidade. É por isso que é aí que se fazem os melhores negócios".

 








Vergílio Ferreira. Pensar.


Reedição.

5 comentários:

  1. Recordou-me B. Russell, n'A Conquista da Felicidade...

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  2. Acabei há dias de escrever um romance. Não sei se será sequer editável. Nunca li Vergílo Ferreira, o que de facto é uma grande falha. No entanto, congratulo-me por partilhar com ele pensamentos muito semelhantes na minha escrita, onde também comungamos de algumas das mesmas palavras.
    Talvez não seja nada bom pelo facto de já ter sido escrito. Ou será a serra a fazir convergir as considerações.

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  3. Não sei se será uma grande falha. Ou seja, há tantos autores para ler que se fosse uma falha não ler um deles estávamos uns falhados compulsivos. Foi Eduardo Lourenço quem disse que é o que preciso é escolher um autor e ler a obra toda.

    De Vergílio Ferreira, e assim de repente, li Pensar e Aparição e também o Manhã Submersa (vi primeiro a longa metragem de Lauro António). Aconselho, se me permite, os três. Manhã Submersa faz um arrepiante paralelismo com a premiada obra do tanzaniano Mark Behr, O Cheiro das Maçãs, sobre a génese da cultura boer. São surpreendentes as semelhanças, embora os portugueses estivessem na diáspora boer...

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  4. Também vi o Manhã Submersa. o Aparição, estive variadas vezes para lhe pegar. Agradeço sinceramente as recomendações.

    Ainda assim considero uma falha (uma entre muitas, obviamente) uma vez que há dez anos que estou radicado a poucos quilómetros de onde nasceu e por aqui há Vergílio no ar. Falta-me tê-lo nas pálpebras.

    Já agora, se se der o caso de não ter lido ainda o Labirinto da Saudade do Eduardo Lourenço, recomendo vivamente!

    Parabéns pelo blogue

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