Das 28.000 pessoas que deixaram a função pública no ano de 2012, 15.500 estavam vinculadas ao MEC e os professores ocupam a quase totalidade do número. Tem sido sempre assim: os que evidenciam estes dados são considerados tremendistas, recebem o quase silêncio da opinião pública e publicada e quando os números se confirmam a normalidade não incomoda.
A escola pública foi, há anos, escolhida para que os governantes se pavoneiem com com o seus ímpetos reformistas e a sociedade, que está ausente da escola e que só lá aparece para uma espécie de jogo da partidocracia disfarçado do eufemístico "comunidade escolar", exerce um silêncio cúmplice que reafirma a estranha antipatia para com a escolaridade. Mais de metade dos despedidos foram professores.
O segundo lugar de mais um ranking (é uma febre, realmente) fica para a saúde com dois mil funcionários, incluindo 524 enfermeiros e 131 médicos.
Saíram da administração pública mais de 28000 trabalhadores em 2012
E a saga vai continuar, sem despedimentos, claro está, apenas com a não renovação de contratos de professores sem vínculo ao MEC.
ResponderEliminarSerão mais uns milhares no próximo ano lectivo, ou não estivessem previstos cortes de milhões de euros na Educação.
Resta saber como vai o MEC suprir essas necessidades de professores contratados, se através da mobilidade especial e da extensão geográfica das zonas pedagógicas, reduzindo drasticamente o seu número, se através de uma acção cosmética nos horários docentes, em que, não sendo dilatados no embrulho, como veio garantir Nuno Crato, sejam remaquilhados no recheio, alargando os tempos lectivos em detrimento dos não lectivos.
Quem quiser acreditar na honestidade de Nuno Crato, cruzando as suas declarações com as do chefe do Governo que põe a Educação no topo da lista de possibilidades para novos cortes, terá de se questionar sobre que outra fórmula mágica permitiria atingir os objectivos traçados, quando, inclusivamente, já procederam a mais uma enorme quantidade de agregações de escolas, cuja redução de horários docentes terá efeito apenas no próximo ano lectivo.
Na sequência da unidade orgânica formada entre a minha escola (ex-agrupamento) e uma escola secundária, no passado Verão, e apenas no meu grupo disciplinar (300), desapareceram quatro horários (que resultaram em horários zero), permanecendo outro muito incompleto e facilmente dissipável com um melhor amontoamento dos alunos nas turmas, que ainda não possuem 30 alunos. O número de professores contratados, nesta nova unidade orgânica a que, infelizmente, pertenço, é agora absolutamente residual.
Por estas razões todas, e mais umas quantas que não mencionei, é que fico boquiaberta quando vejo colegas de profissão porem em causa as reduções ao abrigo do artigo 79º, medindo os seus horários lectivos com os dos professores mais velhos na carreira, numa escalada de autodestruição completamente insana, para além de um ignóbil desrespeito pelos direitos e pelas condições físicas de outrem. E falo à vontade, pois, tendo 49 anos de idade e 28 de serviço, apenas beneficiei de duas horas de redução ao abrigo do artigo 79º, pertencendo-me actualmente 22 tempos lectivos de 45 minutos.
Durante anos e anos, nos tempos das vacas gordas (década de 1990), ninguém se queixou do regabofe em que se tornou o MEC, em que eram os sindicatos que mandavam no MEC, e tinhamos as exigências sindicalistas a tornarem-se em realidades.
ResponderEliminarPassados tantos anos, o MEC conseguiu alcançar aquilo que bem sabemos: o país com maior rácio professor/alunos dos países da OCDE. Uma realidade que nem os sindicatos conseguem contrariar.
Depois da festa temos a ressaca e serão os colegas contratados a serem os mais afectados. Os mais velhos, aqueles que durante anos e anos usufruíram de muitas benesses, desesperam pela reforma. Os que vão a meio da carreira jamais poderão almejar com os tempos das "vacas gordas". Os que estão no início da carreira só desesperam por ter uma escola para leccionar.
Infelizmente, a ressaca vai continuar...
Concordo Ana.
ResponderEliminarPedro: era bom estudar o que se passou mesmo na década de noventa. Foi também aí que começou o regabofe das PPP,s, do BPN, do betão e por aí fora.
ResponderEliminarResponsabilizar os professores é injusto e um tiro no pé.
Caro Paulo, não vale a pena confundirmos ou justificarmos um erro com outro erro. É verdade que o que se passou com o BPN e o BPP, assim como com as PPP`s é escandaloso e carece de decisões dos tribunais.
ResponderEliminarOutra questão (e é essa que nos interessa) é a que respeita ao que durante anos imperou na Educação: o completo desleixo e a desmultiplicação de benesses, regalias e outras situações que deixaram a nossa imagem no estado em que sabemos.
Depois de tantos anos de incúria, temos agora a paga. E, como sempre, por causa de uns pagam todos...
Já ontem me intriguei com as palavras do Pedro e estive para lhe perguntar em que grupo em que me engloba, dos vários que destacou no seu primeiro comentário, com os meus 49 anos de idade e 28 de serviço.
ResponderEliminarEm qual destes, Pedro:
«Os mais velhos, aqueles que durante anos e anos usufruíram de muitas benesses, desesperam pela reforma. Os que vão a meio da carreira jamais poderão almejar com os tempos das "vacas gordas"»???
É que a meio da carreira não estou, embora vá trabalhar 44 anos, se me reformar aos 65.
Mas entre os mais velhos também não estarei, pois, apesar de já desesperar pela reforma (em vão, bem sei) para não passar o resto dos anos da minha carreira a assistir ao aniquilamento da escola pública a que me dediquei por décadas, não consigo enumerar as muitas benesses de que beneficiei, como o Pedro invoca.
Aliás, posso dizer-lhe que, quando fui mãe pela primeira vez, não tive sequer direito a licença de amamentação nenhuma, tendo começado esse ano lectivo com um horário de 24 tempos lectivos, alguns nocturnos (com uns cursos chamados de GAC's), com duas direções de turma... e um bebé de 4 meses e meio em casa, sem direito a aleitamento materno, uma vez que a lei dizia que tal licença só era concedida se não houvesse prejuízo para o serviço, e o dito serviço (a Presidente do Conselho Directivo da escola) alegou que eu era imprescindível.
Reclamei para o Director Regional do Algarve, região onde isto se passou, e o mesmo deu razão à Presidente do Conselho Directivo, indeferindo o meu recurso.
Começo a achar que o Pedro, sendo um felizardo, devia poupar-se em alguns comentários.
Felizardo porquê? Porque, presumivelmente novo demais para conhecer com propriedade os anos a que se reporta, já não fará parte dos malogrados colegas contratados, no seu entender tramados pela herança de um passado de incúria.
Cara Ana, como se costuma dizer "cada caso é um caso".
ResponderEliminarAgora, claro que podemos destacar grandes tendências e parece-me claro que durante anos e anos a tendência dominante foi a da incúria e consequente degradação da imagem da nossa classe profissional.
Acredito que a sua situação tenha sido uma excepção à regra e relevante dos problemas da autonomia excessiva que é concedida a algumas direções de escola.
O que me parece é que apenas estamos a pagar (justa ou injustamente - cada uma lá terá a sua opinião) pelas irresponsabilidades cometidas durante muitos anos... Volto a dizer: por causa de uns, pagam todos!
Pedro: por vezes, nem sei bem do que é que está a falar; a sério.
ResponderEliminarNa década de noventa (e na anterior e na seguinte) existiram excessos? Sim. Como em todas as profissões em Portugal.
Maus profissionais, excessos nas acumulações (de serviço por "fora", de reduções da componente lectiva, nos destacamentos a torto e a direito, de alguns que nunca estiveram nas salas de aula, e por aí fora).
Só que também existiu uma legião de professores que deu tudo em nome da escola portuguesa e da sua democratização (fazendo de encarregados de educação, de médicos, de psicólogos, de assistentes sociais, de empreiteiros, de programadores, de engenheiros, de arquitectos, de polícias, e ficava aqui a noite toda a retratar a substituição de uma sociedade ausente, e também de professores mesmo ). Alguns andaram anos a fio com a casa às costas (e com filhos e sei bem do que falo) e sei lá.
É injusto que as progressões (comuns a outras profissões) ou as benesses que o Pedro parece querer referir-se sejam imputadas aos professores ou aos seus sindicatos. É revisionismo. Até nas discussões do estatuto, houve sempre algum pudor em misturar questões salariais (que me lembre).
Se existiram alturas (início e final da década de noventa) em que aumentou exponencialmente o número de professores dos quadros (em nome da massificação da rede e com os bons resultados que agora se conhecem com a tal geração mais qualificada de sempre) que culpa é que os professores têm nisso?
Tem de ser mais concreto Pedro. Se falamos da caixa geral de aposentações e das regras que vão sendo diferentes para uns e para outros, esse problema é comum a várias profissões e é um problema do Estado de direito, que raio.
Nos 28 anos de serviço que já levo, não conheci nenhum período em que a "degradação da imagem da nossa classe profissional" fosse tão intensa como aquele que se iniciou com Maria de Lurdes Rodrigues e, infelizmente, tem sido seguido por Nuno Crato.
ResponderEliminarMas pior do que isso é o facto de as variáveis introduzidas por Nuno Crato estarem a impor também uma tendência dominante para a degradação da imagem da escola pública, cuja factura será paga por muitos anos e, parafraseando o Pedro, fará com que, por causa de uns irresponsáveis, paguem diversas gerações de portugueses, em muitos quadrantes sócio-profissionais.
Concordo Ana.
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