Quando, em 2003, a Cimeira das Lajes decretou a Guerra no Iraque, o que se sabia do pensamento político de Durão Barroso é o que vai ler mais abaixo. Era primeiro-ministro de Portugal e tentava aplicar um modelo ultraliberal-thatcheriano assente na institucionalização do medo através do "país de tanga" e de mais uma série de "mensagens" proferidas numa inenarrável campanha eleitoral.
Os assinantes da invasão do Iraque foram engolidos pela tragédia. Bush, Blair e Aznar duraram pouco, mas o lusitano Barroso, que fugiu do seu país por impreparação, foi promovido a presidente da comissão europeia. Estranho, muito estranho mesmo. Os Chernes, e outros peixes de águas profundas a quem nunca se conhece um pensamento público, são figuras normalmente trágicas. Dez anos depois a Europa está como está e o balanço até arrepia.
Mas voltemos então ao tal pensamento político, que recebi por email, enquadrado numa organização onde também militava Nuno Crato. Apesar de tudo, também temos direito à diversão.
"O grande Estaline.
"As obras teóricas do grande Estaline são contribuições valiosas. Por elas estudaram e estudam o marxismo-leninismo milhões de operários em todo o Mundo. Com elas o Partido Comunista da China e o Partido do Trabalho da Albânia educaram os seus quadros, com elas formaram milhares de bolcheviques na União Soviética. (...)
O camarada Estaline está demasiado vivo nos corações de todos os explorados e oprimidos do mundo inteiro para que oportunista algum o possa fazer esquecer. A vida, a obra, a atividade do grande Estaline pertencem aos Comunistas de todo o mundo e não apenas aos soviéticos, pertencem à classe operária e não apenas ao povo da URSS.
Na pátria do Socialismo, a União Soviética, o Socialismo vencerá, uma nova revolução surgirá tarde ou cedo. Os autênticos comunistas soviéticos já se organizaram e, juntamente com a classe operária e o povo da URSS, erguerão bem alto a bandeira vermelha de Estaline, instaurando de novo o poder proletário.
Força alguma o poderá evitar. QUE VIVA ESTALINE!".
Este artigo foi assinado pelo camarada Abel, no "Luta Popular" de Setembro de 1975. O camarada Abel era, à época, o jovem José Manuel Durão Barroso, militante do MRPP. e agora militante do PSD, ex-primeiro-ministro e atual presidente da Comissão Europeia."
À época, o MRPP denunciava tanto o "fascismo" como o "social-fascismo" (=estalinismo). Não entendo por isso a loa a Estaline do camarada Abel. Independentemente deste mergulho na história do camarada, o mais interessante é o nome: "Abel" era o pastor béblico (cf. Génesis), benevolente - ofereceu a Deus a melhor ovelha do rebanho - e que depois, por inveja do irmão agricultor, Caim, foi morto por este.
ResponderEliminarEste ersatz soube apagar o nome, e a filiação doutrinária. Mas continua a ser o benevolente para o novo deus que rege os destinos de todos nós: o deus finança, que não é trino como o outro, mas múltiplo, com indiscerníveis tentáculos.
Enquanto este Abel ventriloquo pairar, a Europa continuará a ser aquela insignificância que se conhece.
À época, o MRPP denunciava tanto o "fascismo" como o "social-fascismo" (=estalinismo). Não entendo por isso a loa a Estaline do camarada Abel. Independentemente deste mergulho na história do camarada, o mais interessante é o nome: "Abel" era o pastor bíblico (cf. Génesis), benevolente - ofereceu a Deus a melhor ovelha do rebanho - e que depois, por inveja do irmão agricultor, Caim, foi morto por este.
ResponderEliminarEste ersatz soube apagar o nome, e a filiação doutrinária. Mas continua a ser o benevolente para o novo deus que rege os destinos de todos nós: o deus finança, que não é trino como o outro, mas múltiplo, com indiscerníveis tentáculos.
Enquanto este Abel ventriloquo pairar, a Europa continuará a ser aquela insignificância que se conhece.
Enfim Vasco.
ResponderEliminarEu, nessa altura, estava a começar a ler Marx e Engels, mas já considerava esse tipo de prosa, coisa de ordem religiosa, que eu perdoava da mesma maneira que alguns intelectuais católicos perdoam o culto de N. Senhora de Fátima. Não tinha nada a ver com o tipo de reflexão que aprendíamos a ler nA Ideologia Alemã ou, mesmo, nO Manifesto Comunista. O culto do grande líder era uma traição intelectual ao marxismo, uma subordinação da liberdade intelectual do militante ao arbítrio de um outro. Era o mesmo tipo de alienação que Marx denunciava a respeito do fetichismo da mercadoria. O grande líder torna-se a cabeça dos seus seguidores que assim ficam decepados, reduzidos a corpo, a rebanho, para ser conduzido e sacrificado.
ResponderEliminarEles eram estalinistas. O social-fascismo para eles era o Kruschev e, depois, o Brejnev.
ResponderEliminarUm dos símbolos deles eram as quatro figuras de perfil: Marx, Engels, Lenine e Estaline.
O homem tornou-se liberal. Isso é coisa dum passado juvenil bastante estúpido em que a ideologia política se confunde com religião, culto de seita e marca identitário de um grupo, de um bando.
A um passado juvenil como descreves parece corresponder uma entrada na terceira idade pela direita mais senil (com li algures).
ResponderEliminarTodos lemos essas coisas e acompanhámos esses tempos e não era difícil perceber o lado da liberdade.
Tendências, digamos assim.
Exacto. Era isso mesmo que queria dizer no comentário anterior.
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