1ª edição em 10 de Maio de 2012
A relação entre a qualidade das escolas e a ambição escolar dos alunos é directa e proporcional. Embora seja difícil encontrar estudos empíricos concludentes sobre o assunto, uma vez que as variáveis em causa requerem avaliações sistemáticas e modelos consolidados, podemos afirmar, com segurança, que o grupo de alunos é decisivo para os indicadores de qualidade de uma escola ou de um sistema escolar.
A ambição escolar parece ser mais determinante do que as condições socioeconómicas, apesar de serem igualmente decisivas. Num país como Portugal que, depois de quarenta anos de democracia, apresenta taxas elevadas de insucesso e abandono escolares, é natural que a desorientação, e a constante alteração de políticas, seja simultaneamente causa e consequência e se transforme numa espécie de autofagia.
Há um refúgio justificativo no longo prazo e com razão. Encontramos uma boa explicação se nos compararmos com países que eliminaram o analfabetismo no século XIX e mesmo que essas sociedades tenham registado oscilações nas condições socioeconómicas, a ambição escolar é assumida, intergeracional e constante. Contudo, esse aconchego da consciência não deve ignorar o curto prazo. Em meia dúzia de anos, numa escola ou no sistema escolar, é possível erguer algo de significativo ou destruir o que levou anos a construir.
A par da ambição escolar dos alunos, podemos situar a confiança nos professores. Se esse requisito relacional é um metabolismo basal nas sociedades em que se generalizou a ambição escolar, torna-se ainda mais decisivo nas sociedades como a nossa onde se exigem cuidados redobrados e não se pense que há aqui qualquer espécie de corporativismo.
A desconfiança nos professores é intuída pelos alunos (mais grave ainda em alunos muito novos e é também por isso que a gestão escolar é muito diferente numa universidade se comparada com um jardim de infância ou com outro ciclo do não superior), desautoriza as salas de aula, prejudica o ensino, afecta todos os alunos e origina a escolha das escolas pelos que têm ambição escolar.
A segregação social dificulta a eliminação do abandono escolar. A miscigenação dos diversos níveis de ambição escolar é tão determinante para a qualidade dos sistemas escolares como é em sentido lato para o crescimento da decisiva classe média que fortalece a democracia.
Em Portugal regrediu-se acentuadamente na confiança nos professores nos últimos seis a sete anos. Foi um choque de desconfiança. Se a avaliação de professores e o estatuto do aluno estão na memória colectiva e com efeitos que ninguém se atreverá a refutar, o modelo de gestão escolar segue o mesmo caminho apesar de menos mediatizado.
"Em meia dúzia de anos, numa escola ou no sistema escolar, é possível erguer algo de significativo ou destruir o que levou anos a construir."
ResponderEliminarO pior é que é muito mais fácil (e frequente?) a 2ª...
Excelente reflexão e excelente texto, todo ele.
ResponderEliminarIncontestável e irrepreensível.
O meu aplauso.
Concordo no geral com o que está escrito, embora gostasse de ver mais desenvolvidas algumas ideias. No fundo o que o Paulo pretende é sublinhar o binómio "ambição dos alunos" - "(des)confiança nos professores", certo?
ResponderEliminarSe bem percebi o 5º parágrafo, "a desconfiança nos professores ... origina a escolha das escolas pelos que têm ambição escolar" significa que os professores (ou escolas?) que não se deixam abalar por esta desconfiança têm mais hipóteses de "sucesso", é isso?
Este post pode dar pano para mangas ... pode até dar origem a outros sub-posts, não? Força!
Quem esquece as declarações da ex-ministra Mª de Lurdes Rodrigues e dos respectivos secretários de Estado, como a declaração do ex-secretário de Estado Valter Lemos:
ResponderEliminar"- Vocês [deputados] estão a dar ouvidos a esses professorzecos…"
Ou a célebre frase da ex-directora-geral da Educação do Norte, Margarida Moreira:
"[Os professores são] arruaceiros, cobardes, são como o esparguete (depois de esticados, partem), só são valentes quando estão em grupo!" ?
Terá sido o princípio do fim de um sistema escolar público de qualidade.
Daí em diante, “ a cada cavadela, sua minhoca”.
Excelente! Mais rigoroso é impossível! Contundente! Oxalá servisse de reflexão a quem se encontra nos gabinetes...E aos que por lá passaram recentemente!
ResponderEliminarOs dos gabinetes leem. Reflectir é que já não.
ResponderEliminarEu gosto, acima de tudo, quando o Paulo escreve e eu sei que esses tais dos gabinetes vão ler. Dá-me um certo gozo.
Excelente texto este.
Entendi que: “A desconfiança nos professores é intuída pelos alunos, […] desautoriza as salas de aula, prejudica o ensino pois os professores são humanos.”
ResponderEliminarE que: “A desconfiança nos professores […] afecta todos os alunos e origina a escolha das escolas pelos que têm ambição escolar.
Ou seja:
1 - Os professores sentem-se menos motivados em clima de desconfiança. (de facto!)
2 – Os alunos com menor ambição escolar tendem a potencializar climas de desconfiança e são menos bem-sucedidos, contaminando o contexto de aprendizagem.
3 – Os alunos intuídos a desconfiar dos professores têm menos sucesso.
4 – Os alunos com maior ambição escolar tendem a fugir dos ambientes em que predomine o exposto em 2, produzindo-se uma segregação social.
Logo, é fundamental estimular a ambição escolar de todos os alunos e desenvolver climas de confiança nas escolas, em simultâneo.
Compreendi mal?
Difícil é acrescentar algo ao post. Parabéns.
ResponderEliminarIsso Ana. Obrigado.
ResponderEliminarNão me interpretem mal, mal já levo uns bons anos :) a escrever sobre estes assuntos e tento ser sucinto para que os textos não se alonguem muito.
Há muitos posts sobre o tema e com os desenvolvimentos que refere a Maria José.
É Carlos VC. É exacto e concordo.
Parabéns!!!
ResponderEliminarGostaria de dar a minha opinião sobre a questão que coloca:
ResponderEliminarO elemento mais importante que carateriza uma escola parece-me que é o status socio-económico dos alunos onde se inclui a ambição escolar. Há maior probabilidade de haver maior exigência e valorização da formação escolar nos estratos de maior rendimento e de maior formação académica. Como já alguém demonstrou, as histórias de insucesso escolar passam de pais para filhos.
As escolas que encaminham os alunos para o esnsino superior continuam a ser em muitas cidades os antigos "liceus". Estas tendem a concentrar maior qualidade dos alunos que recebem.
Os rankings tendem a gerar um círculo vicioso: as escolas mais escolhidas por terem mais sucesso, podem escolher os seus alunos; as outras ficam com os restantes. Esse é um fator precioso para a manutenção dessa maior qualidade e um fator de degradação das outras. Já li estudos ingleses sobre este efeito.
Por outro lado, parece-me que é isso que as famílias mais exigentes em termos escolares querem: que os seus fiquem com os amigos e vizinhos que conhecem.
De fato, as escolas públicas, num regime de livre concorrência, tornam-se parecidas com os restaurantes: para uns, o restaurente fino, para outros, a casa de pasto.
Isto é o que se passa já, mas aprofundar-se-á com a liberalização da escolha da escola.
Atualmente, não há seleção de professores pelas escolas. Os professores estão colocados onde tiveram vaga, pois todas as escolas pagam o mesmo. Se juntarmos à livre escolha da escola a contratação direta do professor pela escola, aí, o fator professor começará a contar e aprofundará ainda mais o fosso entre escolas.
O post do Paulo era sobre o efeito da desvalorização do professor sobre a qualidade educativa. Pareceu-me que a Maria José Andrade quis diferenciar as escolas: as que se deixam abater e as que reagem contra essa desconfiança.
ResponderEliminarMudei de tópico só para mostrar que as escolas estão severamente limitadas pois elas serão também etiquetadas de acordo com o status que conseguiram grangear e com a clientela de alunos que lhes cabe.
Nós não nos deixamos abater pela "desconfiança", mas ela é um fator social objetivo que nos escapa. Lembro, para colorir um pouco o cenário, que houve estudos que provaram que a ministra perdeu essa batalha pois a classe dos professores ficou muito acima da classe dos político em termos de confiança social em inquéritos de opinião feitos pouco depois do reinado da Maria de Lurdes.
abrangente
ResponderEliminarObrigado Luís. Maria José: nos comentários mais abaixo tem umas sugestões
ResponderEliminarExcelente post. Parabéns!
ResponderEliminarObrigado.
ResponderEliminarAntes de mais quero realçar uma noção que já tinha, e que me faz vir tantas vezes a esta "casa": aqui há respeito pelas opiniões, ninguém fica sem resposta, e todos procuram encontrar "pontos de contacto" sem "ruído". Fica aqui o meu obrigada.
ResponderEliminarPercorri os 10 posts sugeridos , e não conhecia todos. O algoritmo é de facto um bom ponto de partida para uma discussão pública, que considero urgente na nossa sociedade. Dividir responsabilidades pelo estado a que isto chegou é urgente. Há famílias que nem têm consciência dos seus deveres. Para mim é pacífico este ponto.
Continuo é confusa quanto à questão da confiança nos professores. Tenho algumas dúvidas:
1º - confiança = autoridade? Se não, qual a relação?
2º - estamos nós, professores e escolas, até que ponto abalados pela desconfiança/desautorização imposta pela tutela, mas não sentida pela opinião pública (como refere Redes)?
A nossa experiência de vida profissional faz-nos ver a realidade de determinada maneira. Por isso vou contar o que se passou comigo este ano, que me parece estar relacionada com o tema. Comecei com uma turma no 10º ano, em Matemática A, com grandes expectativas
de sucesso académico, determinadas pelo sucesso no ano anterior. Como já não é a 1ª vez que isto acontece, no início do ano pedi à diretota de turma para estar presente na reunião com os pais, onde alertei para a provável descida no aproveitamento da turma, para como "dar a volta", e expliquei o melhor que sei as razões do meu alerta. É uma escola do Portugal profundo, numa das zonas mais deprimidas do país.
No início do 2º período a diretora de turma estava muito aflita com a reacção dos pais às notas dos filhos no 1º período. Mais uma vez pedi para reunir com eles, agora também com a presença dos alunos e de um dos elementos da Direcção. Como é fácil imaginar, não foi nada agradável, nem eu estava à espera disso. É espantosa a facilidade com que os pais acreditam nas histórias que os filhos contam, com que põem em causa os métodos de ensino e de avaliação do professor, e como acham que têm solução para o problema. Toda a gente acha que por ter andado na escola sabe o que deve ser feito.
Neste momento os ânimos acalmaram e as notas melhoraram um pouco.
Ora bem:
- os pais confiaram na professora?
- os pais cumpriram a sua obrigação?
- a professora (e a escola) sentiu-se desautorizada?
- será que os pais vão querer tirar os filhos desta escola para o próximo ano?
Não é para responder, apenas para pensar :))
Um bom fim de semana!
Obrigada.
ResponderEliminarDesta vez não vi todos os posts sugeridos, aqueles sob a tag estatuto do aluno. Os que vi focam sobretudo a questão da desconfiança e da (má) burocracia, que todos nós sentimos, talvez com menos intensidade no Secundário. Quanto à desconfiança dos pais vi menos escrito, mas pode ter sido problema meu.
De qualquer maneira, não deixe morrer esta questão. Todos agradecemos.
E mais uma vez, parabéns pelo blog!
Obrigado Maria José.
ResponderEliminarContinuarei e não me esquecerei das sugestões :)
Quem está de corpo e alma na profissão docente, certamente que não ensinará pior, nem prejudicará os seus alunos, apenas por razões de ordem laboral, como o aumento da carga lectiva ou o defraudar das aspirações salariais.
ResponderEliminarContinuo a pensar que as principais variáveis determinantes do sucesso escolar são as condições socio-económicas das familias e a gestão escolar, sendo que é nesta última variável que se deve considerar o melhor ou pior desempenho profissional dos docentes.
Bom 2013 Pedro.
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