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quinta-feira, 15 de abril de 2021
quinta-feira, 14 de novembro de 2019
Mas É Isto Que As Escolas Fazem Há Décadas

Afinal, o fim das reprovações no ensino básico não significa a "eliminação dos chumbos, mas um trabalho de acompanhamento mais próximo dos estudantes que revelam mais dificuldades.", disse Tiago B. Rodrigues ao Público. Mas é Isto que as escolas fazem há décadas. É saturante este discurso circular que instala ruído comunicacional. Quem não acompanha estes assuntos pensará que um professor que é crítico destas ideias não é progressista nem a favor da igualdade de oportunidades. O que os professores sabem, e se cansam de prever, é que este discurso acaba sempre nos culpados do costume: os professores. O ministro podia dizer outra coisa: a sociedade tem de acompanhar mais as pessoas e gerir melhor o território, para que as crianças sejam bem sucedidas na escola.
Há décadas que os estudos explicam o insucesso e abandono escolares, como também sublinham que não há escola na Europa com uma missão tão impossível como a nossa. A escola portuguesa é tudo. É como se não existisse sociedade. Não será por acaso que continuamos com os piores registos da OCDE no insucesso e abandono escolares (isto também se lê no PISA). Repito uma evidência que também tem "quase uma década".
As sociedades com mais ambição escolar, e com meios económicos que a sustentem, atingem taxas mais elevadas de sucesso escolar. É irrefutável. Podíamos atribuir a essa condição uma percentagem próxima dos 90%. Ou seja: se conseguíssemos sujeitar as mesmas 100 crianças a uma escolaridade em duas sociedades de sinal contrário, os resultados seriam reveladores. Deixemos esta responsabilidade nos 60% para que sobre espaço para os outros níveis.
Se testássemos os mesmos 100 alunos em escolas com organizações de níveis opostos mas na mesma sociedade, esperar-se-iam resultados diferentes. Todavia, essa diferença não seria tão acentuada como no primeiro caso. As condições de realização do ensino (clima escolar, disciplina, número de alunos por turma e na escola, autonomia da escola, desenho curricular, meios de ensino) influenciam em 30% e são mais significativas do que o conjunto dos professores.
Se os mesmos 100 alunos cumprissem duas escolaridades, na mesma sociedade e organização, com 100 professores diferentes, os resultados oscilariam muito pouco. É neste sentido, abrangente, histórico e generalista que se deve considerar os 10% atribuídos aos professores.
É por isso que é um logro que uma sociedade com baixos níveis de escolaridade consuma as suas energias à volta do desempenho dos 10% ou sequer se convença que tudo se resolve mudando o conteúdo físico dos 30%. Mas mais: por paradoxal que pareça, sem os 10% não há ensino. O que é fundamental concluir é que as componentes sociedade e pobreza são decisivas. E isso não significa que a escola portuguesa tenha (ou deva) cruzado os braços; bem pelo contrário.
Nota: numa rápida pesquisa sobre o tema na actualidade, encontra-se de imediato a concordância "programática" de David Justino (um dos percursores do "tudo está mal na escola pública").
segunda-feira, 4 de novembro de 2019
50.000 reprovações anuais não equivalem a 250 milhões de euros
Há muito que se combate o insucesso e abandono escolares. Há países que eliminaram esse flagelo com a evolução da sociedade e a redução da pobreza. É óbvio que para isso é essencial uma boa rede de escolas públicas. Qualquer democrata deseja este objectivo e sabe como é fundamental para a consolidação da democracia.
Hoje, noticia-se que as 50.000 reprovações anuais nos primeiros ciclos de escolaridade equivalem a 250 milhões de euros do orçamento do estado porque existem uns cálculos que dizem que cada aluno destes ciclos representa um investimento anual de 5.000 euros. Que 5.000 euros vezes 50.000 alunos é igual a 250 milhões é a falácia dos aritméticos. Para isso, era necessário que cada aluno reprovado exigisse a formação de mais uma turma no ano seguinte. Como se sabe, a maioria dos reprovados integra, no tal ano seguinte, turmas que existiriam sempre e nem adianta argumentar com despesas de funcionamento pelo uso das instalações escolares ou dos subsídios.
Nota: como há escolas que dizem que funcionam sem turmas, a questão do aumento da despesa nem se coloca.
sábado, 19 de janeiro de 2019
É experimentarmos
É cíclico. A agenda mediática evidencia o "insucesso escolar no 1º ciclo". É um facto generalizado e que nos deve envergonhar como país. É claro que aparecem de imediato os arremessos aos professores e às escolas (nem de propósito, no dia seguinte a esta notícia lá se "apela a mais uma" "reforma"; e bem sabemos dos devaneios curriculares de Nuno Crato até com os mais pequenos). Mas o que é que esperamos? Somos 10 milhões. Há 2 milhões de pobres, o que inclui 500 mil crianças. 20 % de pobres e números próximos dos 12% de alunos que reprovam logo no 1º ciclo. É experimentarmos reduzir a pobreza que os números baixarão significativamente e com as mesmas escolas.

Nota: O raciocínio, "se acha que educação é cara, experimente a ignorância”, atribuída a Derek Bok, que dirigiu a Faculdade de Direito da Universidade de Harvard, pode ter um paralelismo, de algum modo, obviamente, com qualquer coisa como: "se o insucesso escolar é elevado em crianças, experimente atenuar a pobreza".
domingo, 25 de novembro de 2018
Por que é que reprovam tantos alunos?
Quem lê o relatório "Estado da Educação 2017" do Conselho Nacional da Educação (da Educação, sublinhe-se) conclui que a culpa por reprovarem tantos alunos está na escola. E o debate à volta dos números elevados, e eternos, do insucesso e abandono escolares (3 crianças em cada 100, logo no 2º ano) apontou a causa que originou a perplexidade de muitos: organização do 2º ciclo. O CNE nunca debate a educação não centrada na escola e é uma pena. Portugal tem, e como alguém disse, uma "escola transbordante".
Se não se discute a educação por falta de temas modernos, podemos ajudar. Perceba-se porque é que especialistas das empresas de Silicon Valley escolhem escolas que não usam computadores e afins antes dos 13 anos e eliminam as tecnologias das funções de babysitter. Sublinham os efeitos negativos nas aprendizagens nucleares e duas supressões: tempo com as crianças e "brincadeiras de rua". Por outro lado, Paddy Cosgrave, da Web Summit, salientou as vantagens para a sua equipa (e surpreendeu os arautos da selva laboral) num contrato de dez anos com Lisboa: "construir uma carreira e estabilizar a vida". Ou seja: crianças viciadas em tecnologias e pais precários, com muita mobilidade ou sem tempo, comprometem dois factores educativos decisivos: aprendizagens essenciais e crianças-não-agendáveis com direito à lentidão. E depois há aquele flagelo, também eterno e indiscutível, de 2 milhões e meio de pobres em 10 milhões de habitantes.
Claro que continuam as turmas com três dezenas de alunos e o afunilamento dos currículos e dos ambientes organizacionais. Mas até isso é invisível para o CNE. Já agora, e tergiversando ligeiramente, o "novo" CNE identificou de entrada (2016) que "(...)entre as tarefas que desviam os professores da sua “missão essencial”, figuram “a sobrecarga de reuniões e de múltiplas tarefas de natureza burocrática”(...)que as condições dos docentes tornaram-se mais difíceis(...)registam-se mais processos de stress e burnout (exaustão)." Apesar da situação se ter agravado, a sensibilidade do CNE só se comove com a tal estrutura do 2º ciclo.
Só mais uma nota: flexibilizar o currículo - ou as ideias de "área-escola" e "área de projecto" -, é um desejo antigo anterior às "novas" tecnologias, inspirado na integração de saberes e na necessidade de ir além da escola-indústria e das ideias "back to basics". Catalogar a interdependência dessas categorias, flexibilização e uso de tecnologias, é desconhecer a história da pedagogia. É óbvio que o uso sensato das tecnologias as transforma em ferramentas muito interessantes.
Imagem (tratada) obtida na internet sem referência ao autor.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018
O CNE e o eterno retorno
Até parece que adivinhava a mediatização do relatório "Estado da Educação 2017" que o Conselho Nacional da Educação (CNE) deu hoje a conhecer. É que ainda ontem fiz um post sobre o silêncio do CNE. Há uma preocupação com o insucesso escolar elevado. Do que li, só detecto causas na escola. Ou seja, em Portugal não existe sociedade. A educação é a escola e ponto final. Discordo. Um CNE deve reflectir sobre a educação e não apenas sobre a escola. Voltarei ao assunto no fim-de-semana. O título da notícia diz assim:
"Chumbar um aluno custa 6000 euros, ensiná-lo a estudar só 87. A retenção é uma medida “cara e inútil”, diz a presidente do Conselho Nacional de Educação. Outras opções são mais baratas e eficazes.(...)"
sexta-feira, 9 de março de 2018
da dificuldade escolar
Os alunos que "querem aprender" nunca foram o problema escolar português. Quem beneficia da ambição escolar da família, e ainda de um bom estatuto sócio-económico, aprende em qualquer sistema. Nas últimas décadas, e como se comprova nos vários domínios profissionais, os portugueses que "querem aprender", e que percorreram o sistema português, integraram-se no denominado primeiro mundo.
O que é difícil é elevar os que "não querem aprender". Esse é o eterno problema português. Atenua-se quando diminui a pobreza.
E as escolas podem fazer algum coisa? Podem. Fazem, desde logo, as que são inclusivas (cabem todos) para alunos, professores e restantes profissionais: só se inclui em ambiente de inclusão e não de exclusão. Fazem, e também desde logo, aquelas que não nivelam os procedimentos pelos encarregados de educação dos que "não querem aprender" ou pelos "clientes" insensatos dos que "querem aprender"; e muito menos por "treinadores de bancada". O interesse dos alunos todos exige a supremacia dos princípios docimológicos e a aprendizagem de conhecimentos e atitudes, onde se inclui a autonomia e a responsabilidade. É um processo longo e com inúmeras variáveis. Exige tempo, requer uma atmosfera de confiança e é difícil; mas como alguém disse, o belo não é fácil.
sexta-feira, 10 de novembro de 2017
sábado, 1 de julho de 2017
Se temos 2 milhões e 500 mil pobres
"Portugal é o país europeu com uma maior associação entre chumbos e pobreza", diz o Público numa edição em que também se conclui que "em 16 anos nunca se chumbou tão pouco como no ano lectivo passado". Se também se sabe que temos 2 milhões e 500 mil pobres (500 mil crianças), será óbvia a conclusão que nos diz que as alterações administrativas para o sucesso escolar mudaram os números (os números) e ponto final.
Repito um algoritmo que já tem quase uma década.
A história dos sistemas escolares evidencia: sociedades com mais ambição escolar e com meios económicos que a sustentem atingem taxas mais elevadas de sucesso escolar. É irrefutável. Podíamos até atribuir a essa condição uma percentagem próxima dos 90%. Ou seja: se conseguíssemos sujeitar 100 crianças a uma escolaridade em duas sociedades de sinal contrário, os resultados seriam reveladores. Deixemos esta responsabilidade nos 60% para que sobre espaço para os outros níveis.
Se testássemos 100 alunos em escolas com organizações de níveis opostos mas na mesma sociedade, esperar-se-iam resultados diferentes. Todavia, essa diferença não seria tão acentuada como no primeiro caso. As condições de realização do ensino (clima escolar, disciplina, número de alunos por turma e na escola, autonomia da escola, desenho curricular, meios de ensino) devem influenciar em 30% e são mais significativas do que o conjunto dos professores.
Se 100 alunos cumprissem duas escolaridades, na mesma sociedade e organização, com 100 professores diferentes, os resultados oscilariam muito pouco. É neste sentido, abrangente, histórico e generalista que se deve considerar os 10% atribuídos aos professores.
É também por isso que é um logro que uma sociedade com baixos níveis de escolaridade consuma as suas energias à volta do desempenho dos 10% ou sequer se convença que tudo se resolve mudando o conteúdo físico dos 30%. A componente sociedade é decisiva e se fecharmos bem os olhos podemos até considerar que 60% é um número por defeito. Mas mais: por paradoxal que pareça, sem os 10% não há ensino.
domingo, 23 de abril de 2017
domingo, 2 de abril de 2017
do cliente escolar à escolaridade obrigatória
Há escolaridade obrigatória porque as taxas de abandono e insucesso escolares, e de analfabetismo, são elevadas. Se não fosse obrigatória, os números aumentariam: por falta de jeito dos miúdos, por só estarem a gastar dinheiro, porque é no trabalho desde cedo que se aprende ou por serem raparigas (parece que esta variável tende a desaparecer). Ou seja, não há escolha: é obrigatória e muito bem. É um direito, e um dever, constitucional conferido pela rede pública de escolas. Ainda há pouco passou para 12 anos para contrariarmos os números de população adulta sem sequer o ensino secundário.
E que relação tem a escolaridade obrigatória com a lógica do cliente escolar e da liberdade de escolha? Tem a relação mais inversamente proporcional possível. Os suecos, e até sem analfabetismo desde o século XIX, experimentaram, em 1995, a generalização da lógica do cliente escolar. Um falhanço, consubstanciado na segregação dos alunos. O cliente escolar desautorizou e baixou o nível do ensino, porque o negócio exigiu, para além de outras variáveis, uma organização com profissionais lowcost. Todos perderam, menos os proprietários das empresas. Haverá outra conclusão antiga, mas menos óbvia: fragilizará a democracia em poucas gerações.
Este post usa argumentos que são conhecidos há mais de cinco décadas por quem estuda a importância da escolaridade obrigatória na consolidação das democracias.
2ª edição.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
do sucesso escolar e da má burocracia
É preferível a coragem de eliminar as retenções dos alunos nos anos não terminais de ciclo (nos terminais ficaria para mais adiante), do que andar há mais de duas décadas a culpar, exclusivamente, os professores e as escolas pelo insucesso escolar instituindo um inferno de má burocracia que se evidencia em reuniões de agenda repetida e documentos de "copiar e colar". Aconselho a leitura deste post do Paulo Guinote.
domingo, 6 de novembro de 2016
O sucesso escolar e o curto prazo
A relação entre a qualidade das escolas e a ambição escolar dos alunos é directa e proporcional. Embora seja difícil encontrar estudos empíricos concludentes, uma vez que as variáveis em causa requerem avaliações sistemáticas e modelos consolidados, podemos afirmar que o grupo de alunos é decisivo para os indicadores de qualidade de uma escola ou de um sistema escolar.
A ambição escolar parece ser mais determinante do que as condições socioeconómicas, apesar de serem igualmente decisivas. Num país como Portugal, que, depois de quarenta anos de democracia, apresenta taxas elevadas de insucesso e abandono escolares, é natural que a desorientação, e a constante alteração de políticas, seja simultaneamente causa e consequência e se transforme numa espécie de autofagia.
Há um refúgio justificativo no longo prazo e com razão. Encontramos uma boa explicação se nos compararmos com países que eliminaram o analfabetismo no século XIX e mesmo que essas sociedades tenham registado oscilações nas condições socioeconómicas, a ambição escolar é assumida, intergeracional e constante. Contudo, esse aconchego da consciência não deve ignorar o curto prazo. Em meia dúzia de anos, numa escola ou no sistema escolar, é possível erguer algo de significativo ou destruir o que se construiu.
A par da ambição escolar dos alunos, podemos situar a confiança nos professores. Se esse requisito relacional é um metabolismo basal nas sociedades em que se generalizou a ambição escolar, torna-se ainda mais decisivo nas sociedades como a nossa onde se exigem cuidados redobrados. E não se pense que há aqui qualquer espécie de corporativismo.
A desconfiança nos professores é intuída pelos alunos (mais grave ainda em alunos muito novos e é também por isso que a gestão escolar é muito diferente numa universidade se comparada com um jardim de infância ou com outro ciclo do não superior), desautoriza as salas de aula, prejudica o ensino, afecta todos os alunos e origina a escolha das escolas pelos que têm ambição escolar.
A segregação social dificulta a eliminação do abandono escolar. A miscigenação dos diversos níveis de ambição escolar é tão determinante para a qualidade dos sistemas escolares como é em sentido lato para o crescimento da decisiva classe média que fortalece a democracia.
Em Portugal, regrediu-se acentuadamente na confiança nos professores. Foi um choque de desconfiança. Se a avaliação de professores e o estatuto do aluno estão na memória colectiva, e com efeitos que ninguém se atreverá a refutar, o modelo de gestão escolar seguiu o mesmo caminho.
1ª edição em 10 de Maio de 2012
terça-feira, 19 de julho de 2016
De Cabeça Erguida
"De cabeça erguida" tem como figura central uma juíza (Catherine Deneuve) de um tribunal de menores francês. Isso diz muito do argumento e tem uma relação poderosa com os actos terroristas a que temos assistido. O muito bom filme de Emmanuelle Bercot devia ser de visionamento obrigatório para as pessoas que opinam sobre o abandono escolar e a delinquência juvenil num tom crítico para os profissionais ou com ligeireza. A personagem interpretada por Catherine Deneuve dá uma lição de pedagogia, sensatez, firmeza e sabedoria. Imperdível mesmo.
Título original: La Tête Haute; De: Emmanuelle Bercot; Com: Catherine Deneuve, Rod Paradot, Benoît Magimel, Sara Forestier; 120 min.
"Vencedor de dois Césares, este filme da também actriz Emmanuelle Bercot passa-se num centro de reabilitação juvenil. Gira à volta de uma juíza e de um educador que tentam a todo custo ajudar um adolescente que está em conflito com tudo e todos, incluindo ele próprio, desde os seis anos. Isto mesmo que ele não queira ser salvo por eles. Bercot, cujo tio trabalhou em centros destes e passou por histórias muito parecidas, incluiu no elenco nomes como Catherine Deneuve ou Sara Forestier, além do estreante Rod Paradot e Benoît Magimel, conhecido por filmes como Pequenas Mentiras Entre Amigos, tendo sido ambos galardoados com Césares.
Foi o filme que abriu o Festival de Cannes em 2015, naquela que foi a segunda vez desde 1987 que tal aconteceu com um filme realizado por uma mulher."
terça-feira, 28 de junho de 2016
será ingovernável (2)?
"Na escola x, uma aluna do 7º ano passou com sete negativas. Na turma da minha filha, na escola y, reprovou um aluno com duas negativas, a português e a matemática, e outro com três". E é isto. Ciclicamente é isto. Uma regra administrativa nacional (RAN) nestes assuntos deixa tudo mais claro, mas a invenção da roda também se tornou cíclica. Havendo uma RAN, os conselhos de turma ponderam o que têm que ponderar; como sempre aconteceu e está mais do que comprovado. Ou será que os anti-RAN acham que o insucesso escolar é culpa absoluta de professores e escolas? Parece-me que sim. Aliás, dá ideia que pensam o mesmo das causas do flagelo do abandono escolar que também é histórico e "eterno".
domingo, 22 de maio de 2016
da escolaridade obrigatória ao cliente escolar
Por que é que há escolaridade obrigatória? Porque as taxas de abandono e insucesso escolares precoces, e de analfabetismo, são chocantes. Se não fosse obrigatória, os números aumentariam: por falta de jeito dos miúdos, por só estarem a gastar dinheiro, porque é no trabalho desde cedo que se aprende ou por serem raparigas. Ou seja, não há escolha: é obrigatória e muito bem. É um direito, e um dever, constitucional conferido pela rede pública de escolas. Ainda há pouco passou para 12 anos para contrariarmos os números de população adulta sem sequer o ensino secundário.
E que relação tem a escolaridade obrigatória com a lógica do cliente escolar e da liberdade de escolha? Tem a relação mais inversamente proporcional possível. Os suecos, e até sem analfabetismo desde o século XIX, experimentaram, em 1995, a generalização da lógica do cliente escolar. Um falhanço, consubstanciado na segregação dos alunos. O cliente escolar desautoriza e baixa o nível do ensino, porque o negócio exige, para além de outras variáveis, uma organização com profissionais lowcost. Todos perdem, menos os proprietários das empresas. Há outra conclusão óbvia: fragiliza a democracia em poucas gerações.
Este post usa argumentos que são conhecidos há mais de cinco décadas por quem estuda a importância da escolaridade obrigatória na consolidação das democracias.
sábado, 21 de maio de 2016
do abandono escolar e das repetições
Num momento em que se aplaude uma solução tutorial-exclusivamente-escola para uma pequena componente da praga do insucesso e abandono escolares, recupero um algoritmo que escrevi há uns seis anos.
A história dos sistemas escolares evidencia: sociedades com mais ambição escolar e com meios económicos que a sustentem atingem taxas mais elevadas de sucesso escolar. É irrefutável. Podíamos até atribuir a essa condição uma percentagem próxima dos 90%. Ou seja: se conseguíssemos sujeitar 100 crianças a uma escolaridade em duas sociedades de sinal contrário, os resultados seriam reveladores. Deixemos esta responsabilidade nos 60% para que sobre espaço para os outros níveis.
Se testássemos 100 alunos em escolas com organizações de níveis opostos mas na mesma sociedade, esperar-se-iam resultados diferentes. Todavia, essa diferença não seria tão acentuada como no primeiro caso. As condições de realização do ensino (clima escolar, disciplina, número de alunos por turma e na escola, autonomia da escola, desenho curricular, meios de ensino) devem influenciar em 30% e são mais significativas do que o conjunto dos professores.
Se 100 alunos cumprissem duas escolaridades com 100 professores diferentes, os resultados deveriam oscilar muito pouco. É neste sentido, abrangente, histórico e generalista que se deve considerar os 10% atribuídos aos professores.
É também por isso que pode ser um logro absoluto que uma sociedade com baixos níveis de escolaridade consuma as suas energias à volta do desempenho dos 10% ou sequer se convença que basta mudar o conteúdo físico ou contratual dos 30% para que tudo se resolva. A componente sociedade é decisiva e se fecharmos bem os olhos podemos até considerar que 60% é um número por defeito. Mas mais: por paradoxal que pareça, sem os 10% nada acontece e não há ensino.
domingo, 24 de abril de 2016
são 11x11 e no fim ganha a Alemanha
As elevadas taxas de insucesso escolar evergonham-nos e aumentaram nos últimos anos. O empobrecimento só podia dar nisto. Choca saber que, em 2014, 11 mil crianças reprovaram no 2º ano de escolaridade, o tal que o inferno da medição vai passar a aferir depois de inúmeros seminários, colóquios e horas mediáticas.
O director-geral de uma tal de EPIS (empresários pela inclusão) que se dedica há muito ao apoio social a estudantes, também se choca e escreveu para o Expresso. E não se indigna com a fuga aos impostos através dos Panamás Leaks nem sequer com o empobrecimento. Toca ao de leve nos problemas das famílias e das comunidades e conclui no género "são 11x11 e no fim ganha a Alemanha": "É, pois, urgente transformar a escola dos seis aos dez anos". Não defendo um qualquer modelo de escola como fim da história, mas já se torna sei lá o quê ler vezes sem fim as mesmas coreografadas, e circulares, conclusões.
Expresso, 1º caderno de 23 de Abril de 2016
quarta-feira, 16 de março de 2016
ainda a assustadora falta de autonomia dos nossos jovens
Esta passagem do Público evidencia uma hierarquia que os investigadores sublinham nos países com sérios problemas educativos e, por consequência, com um excessivo caderno de encargos da escola: seleccionam a sociedade como primeira componente crítica e não as famílias; e insistem muito neste detalhe, como refiro aqui. E basta pensarmos um bocado nos países que não fazem do bem comum e da organização valores preciosos: quantos decisores públicos, e privados, claro, e aos mais diversos níveis, apoiam a sua família como o descrito e são completamente negligentes na acção cívica ou política? Podíamos ficar agora a tarde toda a elencar o interminável rol de "erros graves de planeamento", ou até de "actos corruptos", que dificultam muito as tarefas educativas das famílias e as de ensino das escolas.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
da subida do insucesso escolar
"O insucesso escolar subiu em todos os anos de escolaridade em 2012, 2013 e 2014", conclui o relatório CNE 2015 e a tendência manter-se-á em 2015 e nos anos seguintes se nada de substancial acontecer.
São variados os ângulos por onde iniciar uma análise à regressão civilizacional enunciada pelo CNE. Mas olhemos pelo funil do neoliberalismo, que nos invadiu e que os suecos, por exemplo, desesperem por abandonar no domínio escolar.
Mesmo que se veja boa fé nas teses de Milton Friedman, a conclusão é óbvia: as ideologias totalitárias, de mercado total neste caso, "esquecem-se" da natureza humana e atingem objectivos contrários aos enunciados. É evidente que a escola devia estar fora dessa lógica. Para além da sua histórica natureza organizacional assentar na regra, na finalidade, na exigência e em processos de inovação e emancipação social, o confronto entre a pedagogia e o senso comum não deve ser mercantilizado. O risco de sobreposição do segundo é elevado e relega o efeito de elevador social ou de gerador de igualdade de oportunidades do primeiro para uma ordem muito secundária. Esse nivelamento por baixo invadiu o sistema escolar português e os números do insucesso escolar são elucidativos.
São muitos os que apontam os exemplos nórdicos. Na Finlândia, com cerca de um século de independência, os professores são independentes de qualquer tutela, mesmo que inspectiva ou avaliativa, uma vez que a acção pedagógica lhes foi conferida pela sociedade para uma espécie de "evangelização" dos ideais de unidade nacional depois de séculos de ocupação: sueca durante mais tempo e russa num exercício temporal muito inferior. Os finlandeses optaram pelo primeiro vector no confronto da pedagogia com o senso comum. Já os seus invasores suecos, e depois de conviverem mais de um século sem analfabetismo, acharam-se em condições de estabelecer um mercado total. O desastre já foi assumido e as causas do processo de "nacionalizações" em curso deviam ser muito divulgadas.
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