Partindo da lógica Hegeliana e da inerente concepção dialéctica da categoria "contradição", em que o desenvolvimento se faz pelo reconhecimento e ultrapassagem dos diversos conflitos, Hubert Hannoun construiu um conjunto de teses no âmbito das correntes pedagógicas que me ajudaram a nortear o ensino por volta da década de oitenta numa fase em que a proliferação de propostas atingia um auge significativo.
Afinal, Hubert Hannoun, considerado um pedagogo marxista e arrumado por muitos na gaveta dos ultrapassados, apenas propôs o óbvio: ao mestre competia escolher a grande maioria dos conteúdos, seleccionar os objectivos e assumir a responsabilidade pelo ensino e pela avaliação dos alunos; nada de dramático, portanto. Mas para chegar aí, Hubert Hannoun desmontou e arrumou em grupos as teses conhecidas.
Considerando o vasto elenco dos conflitos da Educação, o autor centrou os seus estudos na relação contraditória professor versus aluno (CPA) estabelecendo "os conteúdos de ensino" como elemento mediador da relação.
Pegou na história e considerou três grupos de teses:
- um que negou a contradição CPA - a tese da harmonia - com o lugar cimeiro atribuído ao psicoterapeuta Carl Rogers e às suas relações empáticas (as propostas rogerianas foram bem sucedidas nas relações individualizadas, mas mostraram-se desastrosas quando aplicadas aos grandes grupos de alunos na organização tradicional das escolas);
- e outros dois grupos, que aceitaram a existência da CPA - as teses do desequilíbrio - mas que sobrevalorizaram à partida um dos elementos do conflito: as do magistercentrismo (professor rei, digamos assim), com expoentes como Alain, Dewey e Durkheim, e as do pedocentrismo (aluno rei, digamos assim), com expoentes como Freinet, Montessori e Summerhill.
Hubert Hannoun propôs a tese da ultrapassagem com os conteúdos de ensino como intermediadores do conflito. Só se ensina o que se sabe e a garantia dessa autoridade é o oxigénio da democracia: no presente e no futuro e tanto ontem como hoje.
Parece-me que este é o debate que mais importa fazer em Portugal. Num tempo sobreaquecido e de crise das instituições (da escola também), o lugar da hierarquia de soluções é de novo imperativo; é curial encontrar o fio condutor de que falava Confúncio:
( - Pensas que sou um homem culto e instruído?
- Com certeza - respondeu Zi-gong. - Não é?
- De modo nenhum - disse Confúcio.
- Simplesmente descubro o fio da meada.
Sima Quian, "Confúcio")
"Os conflitos da educação" de Hubert Hannoun, foi traduzido por Maria Antónia Morais Miranda e publicado em 1980 pela Socicultur na colecção Biblioteca de Pedagogia.
(1ª edição em 12 de Outubro de 2009. Reescrito.)
ResponderEliminarMuito interessante.
Subscrevo.
ResponderEliminarSim, é um facto que os conflitos são eternos na Educação. Não sendo assim não era educação.
ResponderEliminarLapidar.
ResponderEliminarEm Pedagogia o "equilíbrio", a não dicotomia, a consciência de que não há verdades absolutas, a reflexão sobre a diversidade antes da tomada de decisão.... ingredientes fundamentais ao sucesso do aluno/professor.
ResponderEliminarQuem é que educa um filho a ler diariamente um capítulo de um livro e a colocar essas ideias na prática no dia seguinte?
Lembraste-me as nossas conversas de final de dia de aulas, entre o pavilhão e o polivalente...
ResponderEliminarAdmiro a tua coragem... e paciência para continuares a lutar.
Bem hajas.
Um abração.
Agostinho
Olá Paulo,
ResponderEliminareste pode ser "o outro" fio da meada: «as propostas rogerianas foram bem sucedidas nas relações individualizadas mas mostraram-se desastrosas quando aplicadas aos grandes grupos de alunos na organização tradicional das escolas»
Mexer na relação professor/aluno, sem tocar na organização tradicional da escola é capaz de ser um trabalho de Hércules :)
ResponderEliminarÉ neste caminhar que se faz o ensino e a aprendizagem: saber, não saber, novo saber. Isto é ser professor, aquele que procura incessantemente o significado dos conteúdos que lecciona, e o sentido de si mesmo.
Cada vez mais me parece que o conflito na Educação, pesem embora as suas especificidades, não é mais que uma frente de batalha num conflito cultural em que estão em causa as definições que queremos dar, enquanto sociedade globalizada, a conceitos como economia, política, trabalho, cultura, cidadania, justiça, liberdade, etc.
ResponderEliminarÉ claro que cada um luta na sua frente de combate, e não na no vizinho; mas é bom que tenhamos consciência do contexto..
Por mim, apercebi-me há muito tempo da existência deste conflito, mas só agora começo a vislumbrar com alguma nitidez os seus contornos. Para isto contribuiu muito o livro que mais recentemente mencionei no meu blogue, porque me mostrou a espantosa semelhança entre o "eduquês" e o jargão dos gurus da "Nova Economia".
Talvez tenha sido isto que mudou a minha atitude ao ouvir justificar certos modelos propostos para as escolas com o argumento que nas empresas também é assim. A minha atitude anterior era defensiva, e consistia em tentar convencer o meu interlocutor que as escolas são diferentes das empresas. Hoje, à medida que me vou apercebendo que o mundo das empresas está longe de ser o modelo de racionalidade que querem fazer dele, tendo cada vez mais a pôr em causa porque é que mesmo nas empresas "tem que ser assim".
É primeira vez neste blogue, li de enfiada os primeiros vinte, excelente mesmo, voltarei.
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ResponderEliminarUma criança não pode participar da escolha de objectivos, ou pode? Sejamos claros e não digamos que os discursos (contraditórios) valem o mesmo. O professor é, e será sempre (?), e tendo em conta "a tese da ultrapassagem", o mediador através dos conteúdos. O fio da meada sairá deverá ser descoberto por aí...
ResponderEliminarViva.
Jamais
para os dois.
Viva.
ResponderEliminarClaro que sim. Mas quem disse que o belo não é difícil? Platão não foi
Isso vai?
ResponderEliminarViva JL Sarmento.
Absolutamente de acordo. Estou mesmo em crer que é por aí que vamos também.
Obrigado.
ResponderEliminarViva Francisco.
ResponderEliminarPercebo bem quem discorda da pela autoridade do professor e até partilho a pertinência, naturalmente. Todavia, a questão está na ideia que fez com que se generalizasse esse "desacordo"; e isso foi tão trágico como a generalização da pedagogia rogeriana na fábrica-escola. O gradualismo e a adequação são princípios fundamentais.
Bem diz Matias Alves no terrear: este texto foi escrito para pensar. Obrigado Paulo.
ResponderEliminarBelo e oportuno texto a propósito deste autor, que desconhecia.
ResponderEliminarDo que dele vi na Internet, concluí que o conflito (ex.s: inovação pedagógica vs. resistência à inovação; ensino ao serviço da rentabilidade vs. ensino ao serviço da formação integral; poder do professor vs. poder dos alunos, etc) é inerente a toda a situação educativa, e, neste sentido, "intemporal", como afirmas no título.
Contudo, parece-me discutível o papel atribuível aos conteúdos enquanto mediadores da instância conflitual.
Hannoun considera que o acto educativo é "uma aposta sobre o futuro", não sendo "nem hipótese verificável" nem "busca do melhor interesse", mas uma prescrição voluntarista de "uma concepção-produção de um ser que me pertence fazer nascer." (cf. Hubert Hannoun, Eduquer, c'est faire un pari sur l'avenir).
Deste centralidade do professor, resulta o facto de que deve ser a partir dela que se contrói a função da mediação do conflito, e não da reificação dos próprios conteúdos
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Viva Vasco.
ResponderEliminarObrigado.
Nos "conflitos da educação", a proposta de Hannoun é a tese da ultrapassagem (literal) no sentido da intertransformação na relação conflitual professor-aluno através da mediação dos conteúdos de ensino. Sem desequilíbrios, portanto, mas também sem a negação da contradição como na empatia rogeriana. Parece-me bastante sensato e intemporal.
É da escola francesa e também nega o conceito de alteridade proveniente da revolução francesa - o outro como igual - para evoluir para a ideia de desigual como se discute tanto hoje.
Polémicas muito interessantes.
ResponderEliminar"O oficial nazi que esmaga a cabeça de um recém-nascido contra uma parede e o soldado ss que escarnece a miserabilidade de um velho, são imagens suficientemente conhecidas do pesadelo hitleriano. contudo, elas implicam uma questão fundamental: o que fez aquele oficial nazi e o soldado ss, já que provavelmente foram bebés e adolescentes iguais a todos os outros? o que os tornou em monstros? uma transformação que pode ser explicada por diversos factores, mas hubert hannoun debruça-se, aqui, sobre um muito especial: o da educação. e, assim, surge outra questão: quais são os princípios de educação que podem fabricar tais monstros? uma terceira, também: a expressão de educação nazi não será contraditória em si mesma, já que educar é elevar o homem para o seu melhor-ser? no sentido de dar resposta, o autor analisa numerosos textos de ideólogos pré-nazis e nazis, incluindo autores franceses, e conclui que não há nenhuma afirmação dos teorizadores da formação nazi da época hitleriana que não tenha sido anteriormente formulada por outros ideólogos. o edifício teórico nazi fundamenta-se rigorosamente sobre três princípios (o naturalismo racista; a hierarquização dos seres e o providencialismo) sem qualquer fundamento, como hubert hannoun demonstra à luz das conquistas das ciências contemporâneas (história, biologia, etnologia, sociologia...). argumentação que leva o autor a concluir que a formação nazi não pode mais que revestir o aspecto de um adestramento infra-educativo. um livro fascinante e imprescindível, muito mais numa época em que o holocausto não pode ser esquecido. hubert hannoun é filósofo e doutor em ciências humanas. após ter ensinado nos diferentes níveis de educação nacional francesa, foi inspector de educação nacional e director da École normale. actualmente é professor universitário e assegura, essencialmente, o ensino da filosofia da educação, em frança, na universidade de aix-marseille"
"
ResponderEliminarPaulo: não li já este excelente texto noutra altura?
ResponderEliminarDesculpa. Está em rodapé passou.me...
ResponderEliminarAdmiro o rigor e a clareza: «tendo cada vez mais a pôr em causa porque é que mesmo nas empresas "tem que ser assim"».
ResponderEliminarAcho que é um caminho para pensarmos o dever ser da educação. As empresas não vão mudar, a não ser que percam no mercado por serem assim.
A crítica da racionalidade económica liberal começou com Marx, especialmente com O Capital. Mesmo assim, a ideia de que os serviços de Estado têm que se pôr de acordo com os critérios do mercado era estranha ao século XIX. No que respeito à educação, é interessante ler as páginas de O Capital onde Marx analisa e critica o serviço escolar das empresas onde trabalhavam crianças, que era uma imposição do Estado.
O paradigma que se tenta impor actualmente de considerar os alunos como clientes e a escola como prestadora de serviços limita a autoridade da instituição e esquece os contornos ideológicos da sua missão que eu gostaria de ver criticados, explicitados e assumidos.
Esclarecido este problema, que por si só não é fácil, colocar-se-á sempre a questão de como controlar os custos e a qualidade dos serviços prestados pela escola.
Uma vez que desconheço Hannoun, o que retiro do teu post é essencialmente a importância dos conteúdos que têm sido esquecidos na pedagogia moderna com a conversa do "aprender a aprender" e da "relação pedagógica". Não sei se Hannoun concordaria com a constatação elementar de que onde há pessoas há contradições. As teses que conduziram a Freinet, a Summerhill e a Rogers são diversas e dificilmente agrupáveis sob um mesmo paradigma. Em Freinet, é o mestre que conduz os alunos ao contacto com a natureza, ao fazer coisas em detrimento do aprender teórico, discursivo, é a escola do trabalho, onde os miúdos aprendem a ler produzindo textos impressos, por exemplo.
ResponderEliminarSummerhill é a curiosidade juvenil a dirigir o processo educativo, a seleccionar conteúdos de aprendizagem e a despir o mestre das suas vestes majestáticas.
A ideia de que os conteúdos são um meio e não um fim, o essencial é tornar-se capaz de aprender, talvez seja a constante que coincide também com a ideia da aprendizagem sincrética, holística e global, como ponto de partida.
Eu acredito que há uma herança cultural que tem que ser transmitida às novas gerações. Penso que essa é a primeira das missões da escola. Cultura envolve ciência, técnicas, arte, língua, literatura, desporto e história. Saber e saber-fazer.
A contradição entre jovem e adulto é parte inerente da contradição entre professor e aluno. É algo com que temos que viver. O jovem rejeita o valor da escolhas culturais que o professor faz ou representa. As dificuldades de aprendizagem conduzem também a isso. Aquilo é difícil, logo não interessa, desvaloriza-se.
Se o jovem valoriza os conteúdos escolares, pode rejeitar o professor como seu intérprete. O professor além de saber, tem que o saber mostrar, pois é testado pelos alunos que sabem um pouco mais que os outros. Se cria uma boa empatia, pode ser desculpado nas suas falhas.
O problema não está no que é a contradição que faz a vida avançar, as novas gerações ultrapassarem as anteriores, mas sim nas ideologias libertárias, que associaram à crítica do capitalismo, a crítica da família e da escola, numa mescla ideológica que junta marxismo e psicanálise pós-freudiana como a de Wilhelm Reich e de Marcuse. Althusser chegou a considerar não só a escola, mas também a família como um aparelho de estado. A isso, associou-se o construtivismo, num pano de fundo que põe o aluno no centro (sujeito de aprendizagem). Teorias contraditórias, por exemplo, psicologia genética versus psicanálise, juntaram-se num meta-discurso que podemos considerar como "espírito do tempo", em que tudo o que é moderno é válido e conciliável.
Era preciso então libertar o aluno da opressão do mestre, o coitado, que, sem o saber, é um veículo da ideologia capitalista, que conduz uns para a classe capitalista outros para o proletariado, transmite as ciências burguesas, reprime a expressão sexual juvenil e infantil.
Além disso, a escola, dirigida pelo Estado, ficou como último reduto, de sociólogos marxistas ou marxizantes que pensam fazer aí a sua revoluçãozinha social, já que a que pretendiam fazer a nível global falhou.
Viva Luís.
ResponderEliminarNo pensamento do autor, as teses rogerianas não estão no mesmo bloco que as de freinet e de summerhill, por exemplo. As primeiras não admitem a contradição (relações empáticas) e as segundas sobrevalorizam um dos termos da contradição (alunos/rei) (neste caso, ao contrário das do magistercentrismo que sobrevalorizavam o professor). A tese da ultrapassagem remete para os conteúdos e não sobrevaloriza qualquer dos componentes: intertransformam-se.
Dar valor ao saber, como dizes, é o que temos de fazer.
Excelente post e originou não menos excelentes comentários.
ResponderEliminarTexto com muito interesse. Fiquei mais um bocado e não vou arrependido.
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ResponderEliminarExcelente texto. Obrigado.
ResponderEliminarSubscrevo, não sou professor e percebi muito bem.
ResponderEliminarMuito bom, mas muito bom mesmo.
ResponderEliminarMuito bom. Obrigado.
ResponderEliminarNão exerço a docência mas este texto também me deixou maravilhado. Felicidades.
ResponderEliminarObrigado Pedro.
ResponderEliminarMuito interessante e obrigado pela indicação.
ResponderEliminarPost brilhante. Obrigado!!
ResponderEliminarEste tipo de conversa agrada-me.
ResponderEliminarUrge discutir, debater e reflectir uma série de pressupostos e por haver tão pouca "sabedoria", facilmente se poderá cair no erro de esquecer este tipo de análise.
Reconheço que os alunos e a escola precisa mudar, que os alunos precisam saber mas de facto,
"Só se ensina o que se sabe" e temos que saber e debater a melhor forma de ensinar, as melhores formas de,depois de se ter conhecimento científico na área respectiva.
Receio muito que continue a escassear, nos próximos anos, nas escolas, conhecimento científico, conhecimento, afinal.Assustei-me quando me defrontei, noutro dia, com fracos interesses por parte de colegas, pouca atenção ao mundo!
Quando não se sabe, o que é que se ensina?
Muito bom num blog de qualidade. Parabéns!!
ResponderEliminarExcelente. Obrigado. Carlos Sousa.
ResponderEliminarActivistas do movimento Es.Col.A reocuparam a Escola da Fontinha, no Porto, cerca das 17h45 desta quarta-feira. Sem qualquer oposição das forças policiais, que até escoltaram os manifestantes.
ResponderEliminarActivistas do movimento Es.Col.A reocuparam a Escola da Fontinha, no Porto, cerca das 17h45 desta quarta-feira. Sem qualquer oposição das forças policiais, que até escoltaram os manifestantes.
ResponderEliminarDesculpe a repetição.
ResponderEliminarExcelente.
ResponderEliminarObrigado Vanda.
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