terça-feira, 26 de dezembro de 2017

horas escolares


 

 

 

 



(a intemporalidade das reedições)



 

 

 

Primeiro que tudo – e convém esclarecer – horas escolares é uma questão pessoal. Não consigo resumos para tão pouco tempo. Sou pouco dado a coisas rápidas. Sonhei viver uma eternidade acompanhado das pessoas que mais amo. A angústia da luta contra o tempo desgosta-me. Feitios. Acima de tudo, confesso, gosto da solidão do meu pensamento. Aprecio a elaboração de ideias. É um prazer indizível. É francamente o meu jogo predilecto.

Falar das horas escolares, engloba a minha, já confessada, sedução pelo tempo. Pela sua inexorável voracidade. Mais do que a impossibilidade do eterno retorno, as aulas escolares sempre me pareceram um saltitar de jaula em jaula. Ensinámos, ensinamos e ensinaremos de acordo com os tempos que correm. Com tanta pressa, pela superficialidade ficaremos. Escolarizados e condenados, mas não sages.

Todos querem ter um lugar ao sol na composição dos programas escolares. Tanto há para ensinar. Incontestável e legítima ambição. Da intuição à retórica, tudo justifica a necessidade de tempos escolares.


Desde as associações científicas de professores aos sindicatos de docentes, passando pelos membros dos governos ou das respectivas oposições, todos advogaram a favor da redução do número de aulas escolares. Fez escola e foi consensual. O resultado de todas essas consultas e discussões teve, quase sempre, como resultado a manutenção de quase tudo ou o regresso a fórmulas determinadas pelos picos económicos ou ideológicos. Os argumentos repetiram-se. Até podemos imaginar um lapidar diálogo. Diz o docente da disciplina x: “Têm que reduzir o número de aulas escolares, nem sei como é que os alunos aguentam isto”. Responde o docente da disciplina y: “Sim, sim. Mas nas aulas da disciplina z, pois nas minhas, ou nas tuas, seria o caos, não te esqueças”. Tarefa inumana para o decisor.

Por tudo isto, ser criança em tempo escolar implicará uma percepção alargada e cheia de inúmeras imagens. A sua relação com os mestres será efémera. Curtos – muitos e intermitentes - períodos de concentração serão os segredos de uma boa aprendizagem: entretanto, pouco ou nada se sabe sobre a forma como cada um aprende. A figura do mestre perder-se-á na razão da sua multiplicidade.
A criança necessitará de recorrer a fontes mais velozes, associará ao desperdício de tempo a ideia do pecado original. Terá saudades do futuro?

Na ânsia do minimalismo economicista, projectado desde as nanoteconologias à magreza corporal, nada escapa a esse círculo estonteante. O “zapismo” da vida leva-nos a esta angústia. Andamos tanto para não sairmos do mesmo sítio (e, no entanto, a ciência avança, todos os dias).

É tudo curto, rápido e impreciso. Devorar o “Em busca do tempo perdido” de Marcel Proust, sete volumes, cerca de 4000 páginas em “times new roman” 09, ficará fora de qualquer programa escolar. É pena. A eternidade toda, paradoxalmente, em sete volumosos volumes.

Volta a ser, novamente, uma questão do universo pessoal. A única revisão curricular – e com as mais variadas posições horárias - está dentro de cada um de nós: um postulado para a eternidade, digo eu.

 

 

 




(Este texto não é inédito.

Publiquei-o numa revista da especialidade,

algures em 2000, 2001 ou 2002)

23 comentários:

  1. oiieee
    pois intao..legal neh

    bjusss

    ResponderEliminar

  2. Um texto sobre o tempo. Um tempo subjectivo marcado pelas suas memórias e ideias. É, reflectindo sobre temas assim que o homem sabe que está só, e só ele pode escolher.
    O que é o tempo? A consciência que temos dele? Li algo sobre este tema em O NASCIMENTO DO TEMPO, DE ILYA PRIGOGINE.


    ResponderEliminar

  3. Interessante reflexão.

    ResponderEliminar
  4. paulo guilherme trilho prudêncio24 de março de 2010 às 19:46

    Viva aos dois.

    Obrigado

    ResponderEliminar
  5. Parabéns pelo texto que acabo de ler. nele me revejo plenamente.

    ResponderEliminar
  6. Fosse escrito em 2000, ou em 2002, ou ontem, ou há quinze dias, o texto está muito bem escrito, é uma reflexão muito inteligente e cheia de verdade.
    Agora que (finalmente) vão tirar a Área de Projecto porque não aproveitam para não ser substituída por nada?

    ResponderEliminar
  7. Paulo, o uso do tempo escolar deveria ser pensado de outra forma.
    Os tempos diários, semanais, anuais, de ciclo.
    Acho que três ciclos seriam ideais, distendendo os actuais 2º e 3ª para cada área disciplinar ter o seu tempo para ser trabalhada.
    Como estamos, andamos em círculos, sempre à pressa, para chegar a metas a curto prazo.

    ResponderEliminar
  8. Paulo G. Trilho Prudencio17 de outubro de 2010 às 21:16

    Viva Paulo.

    Não posso estar mais de acordo contigo. Tanta pressa, tanta mudança e sempre no mesmo sítio. Não temos mesmo remédio?

    ResponderEliminar
  9. excelente mesmo

    ResponderEliminar
  10. Subscrevo plenamente25 de junho de 2011 às 16:45

    e mesmo " "

    ResponderEliminar
  11. Paulo,

    É um prazer ler-te.
    Se houvesse dúvidas de que a inteligência é emocional, elas terminariam depois de lermos o que nos escreves...

    Um abraço.

    ResponderEliminar
  12. Paulo G. Trilho Prudencio25 de junho de 2011 às 19:32

    Viva Mário.

    Muito obrigado mesmo.

    Aquele abraço.

    ResponderEliminar
  13. Sonhei viver uma eternidade acompanhado das pessoas que mais amo. BELO!

    ResponderEliminar
  14. Paulo,

    Depois de me sentir corar com a dedicatória deste teu post, que muito me lisonjeia e agradeço, e apesar de ter a felicidade de não ser asmática, como o era Proust, confesso que reler esta tua reflexão foi mais um momentozito de cortar a respiração.

    Ainda bem que relembrar Proust foi o pretexto para reeditares este texto, que continua a impor-se pela sua profundidade e intemporalidade.

    Cada vez é mais inegável que: “A única revisão curricular [...] está dentro de cada um de nós: um postulado para a eternidade...”

    Entretanto, no mundo real, parecemos condenados a entreter e a entreter-nos com trava-línguas:

    «O tempo pergunta ao tempo quanto tempo o tempo tem e o tempo responde ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto o tempo tempo tem.»

    HÉLAS!

    ResponderEliminar
  15. Excelente!
    Dizes uma grande verdade: olhamos muito para o nosso umbigo ("Ai deles que mexam na minha disciplina" ou "a disciplina que eu ensino é que é nuclear") e esquecemo-nos que se somos professores é em prol dos alunos.
    Tenho dois filhos em idade escolar e enquanto estiverem no 1ºciclo não sinto que se sintam "engolidos" pela voracidade dos tempos escolares. Mas quando forem para o 2º ciclo e sobretudo no 3º ciclo a pressa dos professores em quererem dar todo o programa torná-los-á também stressados.
    E, pensando bem, o que se passa no 3º ciclo é, de facto, um disparate. Tantas disciplinas, com matérias dadas à pressa e alunos no "decoranço" para os testes, em vez de os ensinarmos a pensar e servirmos apenas de orientadores. Sim, mais do que debitar matéria, hoje em dia, com tanta informação disponível interessa que o professor oriente os alunos no caminho do saber.
    Todos os dias tento fazer isso, mas não é fácil. Tanta matéria para dar e tão pouco tempo disponível e que passa a correr. Resta-nos a satisfação daqueles alunos que ainda ficam deslumbrados com a forma como lhes damos as ferramentas para ser eles a ir à procura do saber. Felizmente que a Geografia, a disciplina que ensino, é dada a estas descobertas. Mas, em todas as disciplinas há algo para descobrir de novo. O segredo está em captar a atenção (genuína)dos alunos por aquilo que ensinamos!!! Esse é o grande desafio das aulas de hoje.
    Um abraço

    ResponderEliminar
  16. Quando reli o texto lembrei-me de como os tempos mudaram nunca década.

    Abraço Ana.

    ResponderEliminar
  17. Engana-se, PGTP; este texto é inédito porque sempre actual. (Chapéu ainda na mão).

    ResponderEliminar