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sexta-feira, 7 de novembro de 2025

O Oficial e o Espião (J’accuse) (3)



"O Oficial e o Espião (J’accuse)" é o último, e imperdível, filme de Roman Polanski. Como sou um leitor para a vida do "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust, e como o caso do judeu Alfred Dreyfus é abordado em parte significativa da obra, vi o filme com redobrado interesse. Mas é uma obra de primeiríssima qualidade. Leia a descrição que acompanha o trailer:



"Paris, final do século 19. O capitão francês Alfred Dreyfus é um dos poucos judeus que faz parte do exército. Em 1884, uns inimigos alcançam o seu objetivo: fazer com que Dreyfus seja acusado de alta traição. Pelo crime, julgado a portas fechadas, ele é sentenciado à prisão perpétua no exílio. Intrigado com a evolução do caso, o investigador Picquart decide seguir as pistas para desvendar o mistério por trás da condenação de Dreyfus. Prémio Especial do Júri no Festival de Veneza."



Na revista do Expresso começa assim:


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segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Por Proust e pelos espaços há muito imaginados

 


Quando regressei à cidade, hoje Maputo, onde nasci e cresci e pouco tempo depois da partida "definitiva", senti uma descida emocional; uma desilusão que inesquecivelmente se esbateu uns três dias depois. E a permanência por trinta dias provocou uma "dor de saudade", talvez por se tornar aguda a consciência da perda, ainda mais intensa do que no primeiro abandono. Ao ler "O essencial sobre Marcel Proust" (apenas digital do autor de uma das obras da minha vida), de Mega Ferreira, percebe-se, escrito como ninguém e com uma inigualável sensibilidade como era o caso de Marcel Proust, que isso não só acontece nos regressos como muitas vezes se repete nas deambulações pelos espaços há muito imaginados. A propósito, José Saramago tem um passagem muito boa na apresentação do seu "Viagem a Portugal": "Viaje segundo um seu projecto, dê mínimos ouvidos à facilidade dos itinerários cómodos e de rasto pisado, aceite enganar-se na estrada e voltar atrás, ou pelo contrário, persevere até inventar saídas desacostumadas para o mundo".


 


sábado, 3 de fevereiro de 2024

O Oficial e o Espião (J’accuse) (2)

"O Oficial e o Espião (J’accuse)" é o último, e imperdível, filme de Roman Polanski. Como sou um leitor para a vida do "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust, e como o caso do judeu Alfred Dreyfus é abordado em parte significativa da obra, vi o filme com redobrado interesse. Mas é uma obra de primeiríssima qualidade. Leia a descrição que acompanha o trailer:



"Paris, final do século 19. O capitão francês Alfred Dreyfus é um dos poucos judeus que faz parte do exército. Em 1884, uns inimigos alcançam o seu objetivo: fazer com que Dreyfus seja acusado de alta traição. Pelo crime, julgado a portas fechadas, ele é sentenciado à prisão perpétua no exílio. Intrigado com a evolução do caso, o investigador Picquart decide seguir as pistas para desvendar o mistério por trás da condenação de Dreyfus. Prémio Especial do Júri no Festival de Veneza."



Na revista do Expresso começa assim:


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sábado, 5 de agosto de 2023

Realidades Transcendentes

 



"parece que certas realidades transcendentes emitem em torno de si radiações a que a multidão é sensível. É assim que, por exemplo, quando se dá um acontecimento, quando na fronteira está um exército em perigo ou derrotado, ou vitorioso, as notícias bastante nebulosas que dele chegam e de que o homem culto não sabe retirar grande coisa, provocam na multidão uma emoção que o surpreende e na qual, depois de os especialistas o terem posto ao corrente de verdadeira situação militar, ele reconhece a percepção pelo povo daquela aura que rodeia os grande acontecimentos e que pode ser visível a centenas de quilómetros".



 



Marcel Proust



 



Em busca do tempo perdido



 


 



(1ª edição em 20 de Outubro de 2010)


sexta-feira, 4 de agosto de 2023

O Oficial e o Espião

 


"O Oficial e o Espião (J’accuse)" é o último, e imperdível, filme de Roman Polanski. Como sou um leitor para a vida do "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust, e como o caso do judeu Alfred Dreyfus é abordado em parte significativa da obra, vi o filme com redobrado interesse. Mas é uma obra de primeiríssima qualidade. Leia a descrição que acompanha o trailer que escolhi:



"Paris, final do século 19. O capitão francês Alfred Dreyfus é um dos poucos judeus que faz parte do exército. Em 1884, uns inimigos alcançam o seu objetivo: fazer com que Dreyfus seja acusado de alta traição. Pelo crime, julgado a portas fechadas, ele é sentenciado à prisão perpétua no exílio. Intrigado com a evolução do caso, o investigador Picquart decide seguir as pistas para desvendar o mistério por trás da condenação de Dreyfus. Prémio Especial do Júri no Festival de Veneza."



Na revista do Expresso começa assim:


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domingo, 16 de outubro de 2022

Horas Escolares

 



(a intemporalidade das reedições)

 

 

Primeiro que tudo – e convém esclarecer – horas escolares é uma questão pessoal. Não consigo resumos para tão pouco tempo. Sou pouco dado a coisas rápidas. Sonhei viver uma eternidade acompanhado das pessoas que mais amo. A angústia da luta contra o tempo desgosta-me. Feitios. Acima de tudo, confesso, gosto da solidão do meu pensamento. Aprecio a elaboração de ideias. É um prazer indizível. É francamente o meu jogo predilecto.

Falar das horas escolares, engloba a minha, já confessada, sedução pelo tempo. Pela sua inexorável voracidade. Mais do que a impossibilidade do eterno retorno, as aulas escolares sempre me pareceram um saltitar de jaula em jaula. Ensinámos, ensinamos e ensinaremos de acordo com os tempos que correm. Com tanta pressa, pela superficialidade ficaremos. Escolarizados e condenados, mas não sages.

Todos querem ter um lugar ao sol na composição dos programas escolares. Tanto há para ensinar. Incontestável e legítima ambição. Da intuição à retórica, tudo justifica a necessidade de tempos escolares.


Desde as associações científicas de professores aos sindicatos de docentes, passando pelos membros dos governos ou das respectivas oposições, todos advogaram a favor da redução do número de aulas escolares. Fez escola e foi consensual. O resultado de todas essas consultas e discussões teve, quase sempre, como resultado a manutenção de quase tudo ou o regresso a fórmulas determinadas pelos picos económicos ou ideológicos. Os argumentos repetiram-se. Até podemos imaginar um lapidar diálogo. Diz o docente da disciplina x: “Têm que reduzir o número de aulas escolares, nem sei como é que os alunos aguentam isto”. Responde o docente da disciplina y: “Sim, sim. Mas nas aulas da disciplina z, pois nas minhas, ou nas tuas, seria o caos, não te esqueças”. Tarefa inumana para o decisor.

Por tudo isto, ser criança em tempo escolar implicará uma percepção alargada e cheia de inúmeras imagens. A sua relação com os mestres será efémera. Curtos – muitos e intermitentes - períodos de concentração serão os segredos de uma boa aprendizagem: entretanto, pouco ou nada se sabe sobre a forma como cada um aprende. A figura do mestre perder-se-á na razão da sua multiplicidade.
A criança necessitará de recorrer a fontes mais velozes, associará ao desperdício de tempo a ideia do pecado original. Terá saudades do futuro?

Na ânsia do minimalismo economicista, projectado desde as nanoteconologias à magreza corporal, nada escapa a esse círculo estonteante. O “zapismo” da vida leva-nos a esta angústia. Andamos tanto para não sairmos do mesmo sítio (e, no entanto, a ciência avança, todos os dias).

É tudo curto, rápido e impreciso. Devorar o “Em busca do tempo perdido” de Marcel Proust, sete volumes, cerca de 4000 páginas em “times new roman” 09, ficará fora de qualquer programa escolar. É pena. A eternidade toda, paradoxalmente, em sete volumosos volumes.

Volta a ser, novamente, uma questão do universo pessoal. A única revisão curricular – e com as mais variadas posições horárias - está dentro de cada um de nós: um postulado para a eternidade, digo eu.

 

 


(Este texto não é inédito.

Publiquei-o numa revista da especialidade,

algures na mudança do milénio)

domingo, 5 de junho de 2022

Horas Escolares



 



(a intemporalidade das reedições)



 

 

Primeiro que tudo – e convém esclarecer – horas escolares é uma questão pessoal. Não consigo resumos para tão pouco tempo. Sou pouco dado a coisas rápidas. Sonhei viver uma eternidade acompanhado das pessoas que mais amo. A angústia da luta contra o tempo desgosta-me. Feitios. Acima de tudo, confesso, gosto da solidão do meu pensamento. Aprecio a elaboração de ideias. É um prazer indizível. É francamente o meu jogo predilecto.

Falar das horas escolares, engloba a minha, já confessada, sedução pelo tempo. Pela sua inexorável voracidade. Mais do que a impossibilidade do eterno retorno, as aulas escolares sempre me pareceram um saltitar de jaula em jaula. Ensinámos, ensinamos e ensinaremos de acordo com os tempos que correm. Com tanta pressa, pela superficialidade ficaremos. Escolarizados e condenados, mas não sages.

Todos querem ter um lugar ao sol na composição dos programas escolares. Tanto há para ensinar. Incontestável e legítima ambição. Da intuição à retórica, tudo justifica a necessidade de tempos escolares.


Desde as associações científicas de professores aos sindicatos de docentes, passando pelos membros dos governos ou das respectivas oposições, todos advogaram a favor da redução do número de aulas escolares. Fez escola e foi consensual. O resultado de todas essas consultas e discussões teve, quase sempre, como resultado a manutenção de quase tudo ou o regresso a fórmulas determinadas pelos picos económicos ou ideológicos. Os argumentos repetiram-se. Até podemos imaginar um lapidar diálogo. Diz o docente da disciplina x: “Têm que reduzir o número de aulas escolares, nem sei como é que os alunos aguentam isto”. Responde o docente da disciplina y: “Sim, sim. Mas nas aulas da disciplina z, pois nas minhas, ou nas tuas, seria o caos, não te esqueças”. Tarefa inumana para o decisor.

Por tudo isto, ser criança em tempo escolar implicará uma percepção alargada e cheia de inúmeras imagens. A sua relação com os mestres será efémera. Curtos – muitos e intermitentes - períodos de concentração serão os segredos de uma boa aprendizagem: entretanto, pouco ou nada se sabe sobre a forma como cada um aprende. A figura do mestre perder-se-á na razão da sua multiplicidade.
A criança necessitará de recorrer a fontes mais velozes, associará ao desperdício de tempo a ideia do pecado original. Terá saudades do futuro?

Na ânsia do minimalismo economicista, projectado desde as nanoteconologias à magreza corporal, nada escapa a esse círculo estonteante. O “zapismo” da vida leva-nos a esta angústia. Andamos tanto para não sairmos do mesmo sítio (e, no entanto, a ciência avança, todos os dias).

É tudo curto, rápido e impreciso. Devorar o “Em busca do tempo perdido” de Marcel Proust, sete volumes, cerca de 4000 páginas em “times new roman” 09, ficará fora de qualquer programa escolar. É pena. A eternidade toda, paradoxalmente, em sete volumosos volumes.

Volta a ser, novamente, uma questão do universo pessoal. A única revisão curricular – e com as mais variadas posições horárias - está dentro de cada um de nós: um postulado para a eternidade, digo eu.

 

 

 



(Este texto não é inédito.

Publiquei-o numa revista da especialidade,

algures em 2000, 2001 ou 2002)


domingo, 2 de fevereiro de 2020

O Oficial e o Espião (J’accuse)

"O Oficial e o Espião (J’accuse)" é o último, e imperdível, filme de Roman Polanski. Como sou um leitor para a vida do "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust, e como o caso do judeu Alfred Dreyfus é abordado em parte significativa da obra, vi o filme com redobrado interesse. Mas é uma obra de primeiríssima qualidade. Leia a descrição que acompanha o trailer que escolhi:



"Paris, final do século 19. O capitão francês Alfred Dreyfus é um dos poucos judeus que faz parte do exército. Em 1884, uns inimigos alcançam o seu objetivo: fazer com que Dreyfus seja acusado de alta traição. Pelo crime, julgado a portas fechadas, ele é sentenciado à prisão perpétua no exílio. Intrigado com a evolução do caso, o investigador Picquart decide seguir as pistas para desvendar o mistério por trás da condenação de Dreyfus. Prémio Especial do Júri no Festival de Veneza."



Na revista do Expresso começa assim:


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quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Currículo sem busca do tempo perdido

 


 


 


A disciplina imposta pelo euro norteia o Governo. Apesar do positivo ímpeto inicial, as políticas da educação mantêm o essencial dos governos anteriores. Digamos que é explicado, como na imagem, por uma lei da física (força da gravidade): nem um salto inspirado na obra maior de Gaudi resiste à queda para o lugar comum. Apenas mais um ponto: nas mudanças curriculares, percebe-se a intenção, mesmo que ténue, de contrariar o "fim da história"; contudo, a escolha da imagem deveu-se à introdução de mais disciplinas na mesma carga horária e quase sem tocar no "coração" do que vem de trás. E lembrei-me de um texto que escrevi, algures em 2000 ou 2001, para uma revista sobre educação a propósito de uma mudança curricular. Para também respeitar o espartilho do euro, da dívida bancária e das ideias de escola, carreiras e currículos, ajustei-o.


 



Horas escolares.

 

Primeiro que tudo – e convém esclarecer – horas escolares é uma questão pessoal. Não consigo resumos para tão pouco tempo. Sou pouco dado a coisas rápidas. Sonhei viver uma eternidade acompanhado das pessoas que mais amo. A angústia da luta contra o tempo desgosta-me. Feitios. Acima de tudo, confesso, gosto da solidão do meu pensamento. Aprecio a elaboração de ideias. É um prazer indizível. É francamente o meu jogo predilecto.

Falar das horas escolares, engloba a minha, já confessada, sedução pelo tempo. Pela sua inexorável voracidade. Mais do que a impossibilidade do eterno retorno, as aulas escolares sempre me pareceram um saltitar de jaula em jaula. Ensinámos, ensinamos e ensinaremos de acordo com os tempos que correm. Com tanta pressa, pela superficialidade ficaremos. Escolarizados e condenados, mas não sages.

Todos querem ter um lugar ao sol na composição dos programas escolares. Tanto há para ensinar. Incontestável e legítima ambição. Da intuição à retórica, tudo justifica a necessidade de tempos escolares.


Das associações científicas de professores aos sindicatos, e passando pelos membros dos governos ou das oposições, todos advogaram a favor da redução do número de aulas escolares. Fez escola e foi consensual. O resultado de todas essas consultas e discussões teve, quase sempre, como resultado a manutenção de quase tudo ou o regresso a fórmulas determinadas pelos picos económicos ou ideológicos. Os argumentos repetiram-se.(...)

Por tudo isto, ser criança em tempo escolar implicará uma percepção alargada e cheia de inúmeras imagens. A sua relação com os mestres será efémera. Curtos – muitos e intermitentes - períodos de concentração serão os segredos de uma boa aprendizagem: entretanto, pouco ou nada se sabe sobre a forma como cada um aprende. A figura do mestre perder-se-á na razão da sua multiplicidade.
A criança necessitará de recorrer a fontes mais velozes, associará ao desperdício de tempo a ideia do pecado original. Terá saudades do futuro?

Na ânsia do minimalismo economicista, projectado desde as nanoteconologias à magreza corporal, nada escapa a esse círculo estonteante. O “zapismo” da vida leva-nos a esta angústia. Andamos tanto para não sairmos do mesmo sítio (e, no entanto, a ciência avança, todos os dias).

É tudo curto, rápido e impreciso. Devorar o “Em busca do tempo perdido” de Marcel Proust, sete volumes, cerca de 4000 páginas em “times new roman” 09, ficará fora de qualquer programa escolar. É pena. A eternidade toda, paradoxalmente, em sete volumosos volumes.

Volta a ser, novamente, uma questão do universo pessoal. A única revisão curricular – e com as mais variadas posições horárias - está dentro de cada um de nós: um postulado para a eternidade, digo eu.


 


O texto original, não ajustado, está aqui. 


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Imagem:


William Snyder


Barcelona; 1992;


Jogos Olímpicos.

sábado, 2 de junho de 2018

mudanças curriculares sem busca do tempo perdido

 


 


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Imagem:


William Snyder


Barcelona; 1992;


Jogos Olímpicos.


 


A disciplina imposta pelo euro norteia o Governo. Apesar do positivo ímpeto inicial, as políticas da educação mantêm o essencial dos governos anteriores; mesmo o não financeiro. Digamos que é explicado, como na imagem, por uma lei da física (força da gravidade): nem um salto inspirado na obra maior de Gaudi resiste à queda para o lugar comum àqueles saltadores.


Apenas mais um ponto prévio: nas mudanças curriculares que se aproximam, percebe-se a intenção, mesmo que ténue, de contrariar o "fim da história". Contudo, a escolha da imagem deveu-se à introdução de mais disciplinas na mesma carga horária e sem tocar no "coração" do que vem de trás. E lembrei-me de um texto que escrevi, algures em 2000 ou 2001, para uma revista sobre educação a propósito de uma mudança curricular. Para também respeitar o espartilho do euro, da dívida bancária e das ideias de escola, carreiras e currículos, ajustei-o.


 



Horas escolares.

 

Primeiro que tudo – e convém esclarecer – horas escolares é uma questão pessoal. Não consigo resumos para tão pouco tempo. Sou pouco dado a coisas rápidas. Sonhei viver uma eternidade acompanhado das pessoas que mais amo. A angústia da luta contra o tempo desgosta-me. Feitios. Acima de tudo, confesso, gosto da solidão do meu pensamento. Aprecio a elaboração de ideias. É um prazer indizível. É francamente o meu jogo predilecto.

Falar das horas escolares, engloba a minha, já confessada, sedução pelo tempo. Pela sua inexorável voracidade. Mais do que a impossibilidade do eterno retorno, as aulas escolares sempre me pareceram um saltitar de jaula em jaula. Ensinámos, ensinamos e ensinaremos de acordo com os tempos que correm. Com tanta pressa, pela superficialidade ficaremos. Escolarizados e condenados, mas não sages.

Todos querem ter um lugar ao sol na composição dos programas escolares. Tanto há para ensinar. Incontestável e legítima ambição. Da intuição à retórica, tudo justifica a necessidade de tempos escolares.


Das associações científicas de professores aos sindicatos, e passando pelos membros dos governos ou das oposições, todos advogaram a favor da redução do número de aulas escolares. Fez escola e foi consensual. O resultado de todas essas consultas e discussões teve, quase sempre, como resultado a manutenção de quase tudo ou o regresso a fórmulas determinadas pelos picos económicos ou ideológicos. Os argumentos repetiram-se.(...)

Por tudo isto, ser criança em tempo escolar implicará uma percepção alargada e cheia de inúmeras imagens. A sua relação com os mestres será efémera. Curtos – muitos e intermitentes - períodos de concentração serão os segredos de uma boa aprendizagem: entretanto, pouco ou nada se sabe sobre a forma como cada um aprende. A figura do mestre perder-se-á na razão da sua multiplicidade.
A criança necessitará de recorrer a fontes mais velozes, associará ao desperdício de tempo a ideia do pecado original. Terá saudades do futuro?

Na ânsia do minimalismo economicista, projectado desde as nanoteconologias à magreza corporal, nada escapa a esse círculo estonteante. O “zapismo” da vida leva-nos a esta angústia. Andamos tanto para não sairmos do mesmo sítio (e, no entanto, a ciência avança, todos os dias).

É tudo curto, rápido e impreciso. Devorar o “Em busca do tempo perdido” de Marcel Proust, sete volumes, cerca de 4000 páginas em “times new roman” 09, ficará fora de qualquer programa escolar. É pena. A eternidade toda, paradoxalmente, em sete volumosos volumes.

Volta a ser, novamente, uma questão do universo pessoal. A única revisão curricular – e com as mais variadas posições horárias - está dentro de cada um de nós: um postulado para a eternidade, digo eu.


 


O texto original, não ajustado, está aqui. 

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

horas escolares


 

 

 

 



(a intemporalidade das reedições)



 

 

 

Primeiro que tudo – e convém esclarecer – horas escolares é uma questão pessoal. Não consigo resumos para tão pouco tempo. Sou pouco dado a coisas rápidas. Sonhei viver uma eternidade acompanhado das pessoas que mais amo. A angústia da luta contra o tempo desgosta-me. Feitios. Acima de tudo, confesso, gosto da solidão do meu pensamento. Aprecio a elaboração de ideias. É um prazer indizível. É francamente o meu jogo predilecto.

Falar das horas escolares, engloba a minha, já confessada, sedução pelo tempo. Pela sua inexorável voracidade. Mais do que a impossibilidade do eterno retorno, as aulas escolares sempre me pareceram um saltitar de jaula em jaula. Ensinámos, ensinamos e ensinaremos de acordo com os tempos que correm. Com tanta pressa, pela superficialidade ficaremos. Escolarizados e condenados, mas não sages.

Todos querem ter um lugar ao sol na composição dos programas escolares. Tanto há para ensinar. Incontestável e legítima ambição. Da intuição à retórica, tudo justifica a necessidade de tempos escolares.


Desde as associações científicas de professores aos sindicatos de docentes, passando pelos membros dos governos ou das respectivas oposições, todos advogaram a favor da redução do número de aulas escolares. Fez escola e foi consensual. O resultado de todas essas consultas e discussões teve, quase sempre, como resultado a manutenção de quase tudo ou o regresso a fórmulas determinadas pelos picos económicos ou ideológicos. Os argumentos repetiram-se. Até podemos imaginar um lapidar diálogo. Diz o docente da disciplina x: “Têm que reduzir o número de aulas escolares, nem sei como é que os alunos aguentam isto”. Responde o docente da disciplina y: “Sim, sim. Mas nas aulas da disciplina z, pois nas minhas, ou nas tuas, seria o caos, não te esqueças”. Tarefa inumana para o decisor.

Por tudo isto, ser criança em tempo escolar implicará uma percepção alargada e cheia de inúmeras imagens. A sua relação com os mestres será efémera. Curtos – muitos e intermitentes - períodos de concentração serão os segredos de uma boa aprendizagem: entretanto, pouco ou nada se sabe sobre a forma como cada um aprende. A figura do mestre perder-se-á na razão da sua multiplicidade.
A criança necessitará de recorrer a fontes mais velozes, associará ao desperdício de tempo a ideia do pecado original. Terá saudades do futuro?

Na ânsia do minimalismo economicista, projectado desde as nanoteconologias à magreza corporal, nada escapa a esse círculo estonteante. O “zapismo” da vida leva-nos a esta angústia. Andamos tanto para não sairmos do mesmo sítio (e, no entanto, a ciência avança, todos os dias).

É tudo curto, rápido e impreciso. Devorar o “Em busca do tempo perdido” de Marcel Proust, sete volumes, cerca de 4000 páginas em “times new roman” 09, ficará fora de qualquer programa escolar. É pena. A eternidade toda, paradoxalmente, em sete volumosos volumes.

Volta a ser, novamente, uma questão do universo pessoal. A única revisão curricular – e com as mais variadas posições horárias - está dentro de cada um de nós: um postulado para a eternidade, digo eu.

 

 

 




(Este texto não é inédito.

Publiquei-o numa revista da especialidade,

algures em 2000, 2001 ou 2002)

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Johannes Vermeer (2)

 


 


 


 


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Johannes Vermeer.


"A Leiteira" representa uma leiteira, de facto, uma empregada de cozinha.


É uma das mais importantes obras de Veermer.


Museu Rijksmuseum, Amsterdão, Agosto de 2017


 


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terça-feira, 22 de agosto de 2017

Johannes Vermeer (1)

 


 


 


 


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Johannes Vermeer, "Rapariga com Brinco de Pérola" (holandês: Het Meisje met de Parel).


É várias vezes classficado como "Mona Lisa holandesa" ou "Mona Lisa do Norte".


Foi um pintor "eleito" por Marcel Proust.


Museu Mauritshuis, Haia, Agosto de 2017


 


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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

certas realidades

 


 



 



"parece que certas realidades transcendentes emitem em torno de si radiações a que a multidão é sensível. É assim que, por exemplo, quando se dá um acontecimento, quando na fronteira está um exército em perigo ou derrotado, ou vitorioso, as notícias bastante nebulosas que dele chegam e de que o homem culto não sabe retirar grande coisa, provocam na multidão uma emoção que o surpreende e na qual, depois de os especialistas o terem posto ao corrente de verdadeira situação militar, ele reconhece a percepção pelo povo daquela aura que rodeia os grande acontecimentos e que pode ser visível a centenas de quilómetros".



 



Marcel Proust



 



Em busca do tempo perdido



 


 



(1ª edição em 20 de Outubro de 2010)



 


segunda-feira, 30 de novembro de 2015

a transbordar de emoções

 


 


 


 


Impressionou-me o clima de autenticidade no almoço de ontem, em Leiria, da candidatura de Sampaio da Nóvoa. Foi um sinal muito positivo e transbordante de emoções. Era bonito se se confirmasse Proust:



"parece que certas realidades transcendentes emitem em torno de si radiações a que a multidão é sensível. É assim que, por exemplo, quando se dá um acontecimento, quando na fronteira está um exército em perigo ou derrotado, ou vitorioso, as notícias bastante nebulosas que dele chegam e de que o homem culto não sabe retirar grande coisa, provocam na multidão uma emoção que o surpreende e na qual, depois de os especialistas o terem posto ao corrente de verdadeira situação militar, ele reconhece a percepção pelo povo daquela “aura” que rodeia os grande acontecimentos e que pode ser visível a centenas de quilómetros".



 


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sábado, 7 de fevereiro de 2015

não há um proust, um joyce, um pessoa ou um kafka?

 


 


 


Ouço muitas vezes a expressão em título sem ser na interrogativa e surpreendo-me. É necessário um distanciamento temporal para uma qualquer conclusão do género. Contudo, e num exercício exorbitante, penso que Gonçalo M. Tavares entrará no cânone.


 


Os seus dois últimos livros chegaram hoje e prometem.


 


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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Cratu sucurreu-se di Prust

 


 


 


Nonu Cratu dis qeu à porfeçores cum binte eros hortográficos núma mêsma frasi. U omem tava poceço cando dize u fonómeno. U inda mistro sucurreu-se di Prust i elebou u ezame. U gineal fransses fasia frazes cum oma uo daus pajinas i Cratu iscolheu u mudelo fransses há cassa dus eros (Cratu fio tamvem influciado pêlus Elénicos reçentes, u inbejoso).


  


 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

era bom que da Grécia eleitoral

 


 


 


 


Para os que há muito defendem o fim da hegemonia eleitoral do arco do poder, era bom que o efeito Syriza tivesse sensações como as descritas pelo genial Marcel Proust:


 



"parece que certas realidades transcendentes emitem em torno de si radiações a que a multidão é sensível. É assim que, por exemplo, quando se dá um acontecimento, quando na fronteira está um exército em perigo ou derrotado, ou vitorioso, as notícias bastante nebulosas que dele chegam e de que o homem culto não sabe retirar grande coisa, provocam na multidão uma emoção que o surpreende e na qual, depois de os especialistas o terem posto ao corrente de verdadeira situação militar, ele reconhece a percepção pelo povo daquela “aura” que rodeia os grande acontecimentos e que pode ser visível a centenas de quilómetros".


 


Marcel Proust


 


Em busca do tempo perdido



 


 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

dos regressos

 


 


 


Regressei à cidade onde nasci poucos anos depois da partida "definitiva" e senti uma descida emocional que se esbateu três dias depois. A permanência por trinta dias provocou uma "dor de saudade", por se tornar aguda a consciência da perda, ainda mais intensa do que no primeiro abandono.


 


Ao ler "O essencial sobre Marcel Proust", de Mega Ferreira (obra apenas digital), percebe-se, escrito como ninguém e com uma inigualável sensibilidade como era o caso de Marcel Proust, que isso não só acontece nos regressos como se repete nas deambulações pelos espaços há muito imaginados.


 


 


 


 



 


 

 2ª edição do post. Reescrito.