domingo, 28 de junho de 2020

Afinal, Nuno Crato (e não só) tinha razão

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Esta semana, discutiu-se a redução de alunos por turma. E as decisões de Crato nesse domínio resistem a tudo: troika, geringonça, superavit e pandemia. Em 15 de Junho de 2013 declarou que "uma turma com 30 alunos pode trabalhar melhor do que uma com 15. Depende do professor e da sua qualidade". A epifania tornou-se irrefutável e não apenas por pragmatismo. É considerada madura e tem a tolerância dos gurus da inclusão (inclui mais alunos por metro quadrado). A educação tem esta sorte. São anos a fio com ministros com pensamento consolidado suportado por pares gurus. Aliás, Nuno Crato reconheceu esta semana "que o regime de ensino a distância pode ser positivo, mas apenas se servir como um complemento ao ensino presencial que é aquele que funciona melhor"; é, realmente, uma opinião incomum e com merecido destaque.


Mas não é caso único de solidez, intemporalidade e patrocínio de gurus. Os determinados e elogiados governos de Sócrates eliminaram 30 anos sem se avaliar professores e o inferno "reprovado" por todos continua vigente. Também impuseram um modelo de gestão das escolas para meter os professores na ordem iliberal. Para ajudar a isso, criaram duas câmaras de eco mediático: um órgão de dirigentes escolares (é um exercício temporário que representa 0,8% dos professores e que já vai em três espécies de associações) e um profissional para representar encarregados de educação. O trio, governantes, dirigente e profissional, disserta sobre tudo o que é didáctico e científico no ensino. Para se perceber melhor e pensando na actualidade, é como se na saúde, e quando se discutem actos médicos, infecções e epidemias, não se ouvissem ordens, especialistas e sindicatos, mas o dirigente hospitalar e o profissional dos utentes e amigos dos hospitais.


Mas na educação há associações científicas de professores nas mais diversas áreas. Só que nunca se uniram e a mediatização não as ouve. E há dezasseis sindicatos. Um é ostracizado por gurus, analistas e comentadores com argumentos (limitação de mandatos e exercício profissional diário) que não escrutinam nos restantes que, em regra, só opinam autorizados por quem governa.


Acima de tudo, e se o ensino tivesse verdadeira representação institucional, era mais difícil avançar no parlamento com uma proposta destinada ao insucesso, havendo soluções estruturais, exequíveis e sustentadas para o problema (para além disso, reduzir alunos por turma na incerteza que aí vem pode passar também por criar dois grupos numa turma que frequentam a escola em semanas diferentes). A redução de alunos por turma foi reprovada, mas os papéis partidários satisfizeram os desígnios populares e a imutabilidade cratiana.


Encontrei a imagem como uma adaptação no blogue Escola Portuguesa

6 comentários:

  1. Gostei muito de ler esta tua publicação. Muito lúcida e assertiva, para variar.
    Ah, e o Javier, claro! (também conhecia esta adaptação do A.Duarte)

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  2. Muito obrigado, Carlos. O Javier ficou para hoje; no outro dia foi apenas mais um momento para divulgar uma tabela interessante.

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  3. Tens razão Paulo, enviesamentos da partidocracia que mantém um sistema viscoso alimentado, também, por uma quase permanente retórica de inovação e mudança de paradigma em modo Lampedusa, tudo muda para que tudo se mantenha.

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  4. Nem mais, Zé Morgado: "uma quase permanente retórica de inovação e mudança de paradigma em modo Lampedusa, tudo muda para que tudo se mantenha." E a partidocracia é uma praga.

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