sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Do Não Encerramento Das Escolas

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- É na sua aula que vemos as nossas caras, professor! Dizem-me os alunos que se conheceram este ano; é ali que o fazem mais verdadeiramente.


Pela natureza da disciplina, Educação Física, e assumindo o risco opcional de leccionar turmas numerosas maioritariamente sem máscara (a DGS sugere aulas sem máscara quando se garante, sei que é risível, três metros mínimos de distanciamento físico), prefiro aulas presenciais. Tem sido inesquecível e um recomeço desafiante e inesperado. Mas aconteceram perplexidades: já leccionei várias aulas com alunos infectados ou estive integrado em correias de transmissão; nunca fui testado, isolado, sujeito a quarentena ou sequer contactado; e como eu, milhares de professores robustos não prioritários que serão casos de estudo para os padrões da imunização sem vacina.


Mas voltando ao tema do momento, as escolas são um dos cernes da disseminação do vírus tal o aceso debate que provocam; e há o ângulo de análise "escola a tempo inteiro" que fica para outra altura. Ou seja, o que está em causa não é a opção entre ensino à distância e aulas presenciais. Não se trata disso. Em regra, não há aprendizagens plenas, longe disso, atrás de uma máscara ou de um ecrã nem com os actuais constrangimentos.


Dito isto, o que está em causa é a saúde pública. Sejamos objectivos: as nações das escolas e turmas numerosas perderam o controlo da pandemia. Por exemplo, repare-se que a Alemanha fechou as escolas no início de Dezembro e só as reabre daqui a oito ou dez semanas. Temos dois dados objectivos da perda de controlo em Portugal, e provavelmente nos congéneres da tragédia: não se conhecem 87% dos locais de contágio e os universos escolar e sanitário tiveram em Novembro uma confirmação: a "covid-19 acelerou entre a população mais jovem e foi no grupo dos 10 aos 19 que o contágio mais cresceu" ("e com a agravante de ser nas crianças e nos jovens que se concentra o maior número de falsos negativos e assintomáticos").


Portanto, fica-se apreensivo quando se estabelece um confinamento geral sem passar para não presencial qualquer grau de ensino, mais ainda num país que tem o calendário escolar com menos dias de interrupção da Europa e que acentuou esse excesso na pandemia.


Por outro lado, a tese da escola segura é uma perda de tempo para o debate. As escolas não são seguras nem inseguras. Não se sabe. O que se sabe é que não cumprem os 3 c's e que têm os mil e um cuidados possíveis. Não se mede a segurança sem meios de controlo. Os estabelecimentos de ensino encerram porque a frequência, e a envolvência, das escolas numerosas é uma plataforma giratória da disseminação do vírus na sociedade.


Ouvi um especialista estupefacto por se ter dito que os números de infectados em Portugal sobem quando as escolas fecham. Confesso que também fiquei. No primeiro confinamento, o encerramento das escolas foi crucial. Na segunda vaga, e umas semanas depois da abertura do ano lectivo, iniciou-se a subida acentuada dos números. As pontes de Dezembro deram sinais na redução de casos positivos e na última semana do mês baixaram as contagens diárias. Os números do início de Janeiro foram cumulativos. É, portanto, ainda mais difícil tirar conclusões, como disse o PM para o argumentário que desenvolveu, uma vez que houve o Natal e a muito limitada passagem do ano. As escolas reabriram a 4 e já vamos a 15 (bem sabemos que é Natal quando um homem quiser, mas convém não exagerar). O que é certo, é que nas mortes e nos internamentos os números são inequívocos e constantes.


Como já escrevi várias vezes, há cinco soluções simples para melhorar os 3 c's dentro e fora da escola e que baixariam os contágios: horários desfasados, turmas por turnos, descentralização de intervalos, pequenas interrupções a cada quatro ou cinco semanas de aulas e redução temporária da carga curricular para simplificar a execução das quatro primeiras. Era importante que o inerte ministério se movesse antes que chegue a quarta e a quinta vaga.


Por outro lado, o marketing político cria desconfiança. Como nos recordamos, umas semanas depois de ter começado o ensino à distância os governantes desdobravam-se (e perante a surpresa de quem lecciona) em elogios à nossa escola digital e à entrada do país no século XXI (até a flexibilidade curricular, pasme-se, foi usada pelo PM em pleno parlamento como atributo do sucesso). Agora, que interessa ter a escola aberta, foi, afinal, um falhanço. Para além disso, continua por concretizar o que o PM disse a 11 de Abril ao Expresso: "no próximo ano lectivo haverá acesso universal dos alunos dos ensinos básico e secundário à Internet e a equipamentos informáticos, considerando que este investimento avultado é essencial face aos riscos de pandemia."


Por fim, António Costa declarou que a decisão do não encerramento de escolas foi uma esolha política e que "ouviu os dirigentes dos pais e das escolas". Umas horas depois, ouvi as posições contrárias, e com evidente preocupação, dos responsáveis clínicos (infecciologistas e intensivistas) do Hospital Curry Cabral, em Lisboa, e do Hospital S. João, no Porto. Esperemos que tenha sido uma boa escolha.


 

8 comentários:

  1. Lógica na Filosofia:
    Especialistas referem desconhecer locais de contágio em 87% dos casos e a pandemia acelerou na população de faixa etária 10-19 anos.
    Logo, uma grande parte dos contágios ocorre nos locais onde a população entre os 10 e os 19 anos de idade permanecem.
    Notas: 2 premissas verdadeiras, um raciocínio válido e uma conclusão verdadeira.
    Lógica do Governo:
    Especialistas referem desconhecer locais de contágio em 87% dos casos e a pandemia acelerou na população de faixa etária 10-19 anos.
    Logo, uma grande parte dos contágios NÃO ocorre nos locais onde a população entre os 10 e os 19 anos de idade permanecem.
    Notas: 2 premissas verdadeiras, um raciocínio inválido e uma conclusão falsa.
    Rui Ferreira

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  2. Nem mais Rui. Muito bem observado. Bem se esforçam os professores de Filosofia ou isto já é um sinal do desprezo pelas humanidades?

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  3. Mas a médica-mor da nação, que reina no departamento politico denominado DGS, declara sem sobranceria que nessa faixa etária a transmissão é menor...!
    Quando ouvimos gente com formação superior com elevada especialização a dizer parvoíces, é motivo para ficar apreensivo com quantos mais existem e que um dia podemos ser seus doentes...

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  4. Comentei fazendo um post inspirado no comentário :)

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  5. Excelente análise e boa revisão das principais contradições do governo. Parabéns.

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  6. Após uma crise financeira que gerou uma crise económica grave durante anos, esta pandemia ocorreu no pior momento. Já tinha havido um evento semelhante em 2009, que felizmente não estourou porque o virus da gripe A foi menos contagioso e menos agressivo, porque senão, em plena crise económico-financeira, um virus do tipo sars-cov-2, seria o apocalipse da sociedade.
    Agora, gerou-se uma ocorrência com eventos simétricos: se privilegiar o salvamento de vidas, é o colapso da sociedade a nivel sócio-económico (e ironicamente, também morrem pessoas...); se privilegiar o funcionamento da sociedade, é uma mortalidade de centenas de milhares de pessoas. Recorrer a um sistema hibrido- salvar vidas mantendo o funcionamento da sociedade- leva a incongruências de fechar umas atividades e manter outras abertas, procurando o tal equilibrio na 'corda bamba', mas que a médio prazo leva a uma mortalidade elevada também, bem como ao colapso sócio-económico para centenas de milhares de pessoas. Ou seja, caiu-se na situação horrível de 'ser preso por ter cão ou preso por não ter' (ou como dizem os brasileiros, 'se corre, o bicho pega; se fica, o bicho come').
    Há solução? Há uma que não evitará mortes mas diminui o número: confinar a sociedade (apenas permitindo as atividades que mantêm o seu funcionamento) e os governos injetarem o dinheiro para custear as despesas. Mas esta solução esbarra em preconceitos ideológicos económicos, que apresentam logo os argumentos da inflação, desvalorização da moeda, défice, divida, etc.; ocorrências que acontecerão mais tarde, porque estando a sociedade colapsada socialmente, a história mostra que as populações enveredam por comportamentos que levam a outras ocorrências cataclismicas- as guerras- que geram os argumentos apresentados. Mas estes são tecnicamente discutiveis, porque se as atividades económicas mantêm as infraestruturas intactas, esses efeitos seriam mitigados quando reabrissem.
    A outra solução, a sociedade não está culturalmente preparada para a aceitar: aquilo que no meio militar se denomina de "perdas aceitáveis". Num cenário de guerra, muitas vezes há batalhas em que são necessárias táticas de combate que implicam necessariamente a morte de soldados, mas que permitem a possibilidade de ganhar a batalha. Os oficiais são treinados para lidarem com o drama de decidirem implementar essas táticas, para atingir um objetivo considerado prioritário, sacrificando vidas humanas. No sociedade atual, não houve educação cultural da população para que psico-emocionalmente aceitasse esta estratégia, e portanto, é inviável utilizá-la.
    Resumindo, estamos perante vários anos de muita desgraça, sofrimento e destruição de vidas, tanto a nivel de saúde, como a nivel sócio-económico (que mais tarde também se traduz em desgraça na saúde...). Curiosamente, não é novidade na história da humanidade...

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  7. É triste: raramente temos novidades na história da humanidade.

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