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É inequívoco que o encerramento das escolas tornou mais visíveis as desigualdades. É, portanto, uma muito boa oportunidade para repensar a escola.
É um assunto tão vasto, que requer uma selecção de argumentos. Mas basta comparar as escolas mais avançadas (EMV) noutras sociedades com a generalidade do que temos (GQT) e começar paulatinamente a reduzir diferenças. Enquanto que nas EMV regressa a paridade entre as ciências e as letras, predomina a ideia de currículo completo e se inicia no primeiro ciclo o ensino da história e da filosofia, nas CQT reduz-se à expressão mínima os saberes humanísticos e artísticos, lança-se o empreendedorismo e faz-se da cidadania uma interminável burocracia. Enquanto que nas EMV a avaliação contínua é exigente, rigorosa e baseada na confiança nos professores, nas CQT a avaliação é um inferno processual de faz de conta. Enquanto que nas EMV as regras disciplinares são sensatas, simples e "ancestrais", nas CQT há um guião prévio, com três dezenas de formulários, para que se compreenda a "criança" de 16 anos que agrediu a professora que a mandou calar enquanto falava.
E deste elenco interminável, há uma conclusão que a pandemia comprovou: as CGT deixam os pobres mais excluídos.
Nada disto é novo. Os mais frágeis necessitam de mais sociedade enquanto acedem aos saberes estruturantes que os capacitam para a inscrição em pé de igualdade no mundo do trabalho do futuro. Precisam de currículos eclécticos e equilibrados e de escolas e turmas bem dimensionadas. Precisam de ambientes decentes para o ensino que não mergulhem numa tormenta burocrática, agora digital, que proclame as "boas" intenções dum centralismo que tem uma visão muitíssimo distante das salas de aula e uma forte tendência para sofisticar exaustivamente a administração de inutilidades.
Para além de tudo, uma sociedade onde cresce o autoritarismo só se combaterá com pensamento autónomo, apurado sentido crítico e sólido conhecimento da história e da cultura.
"A professora que a mandou calar enquanto falava", é mais "a professora que pediu para não perturbar a atividade letiva prejudicando os outros elementos da turma que estavam a realizá-la". Se invocar a 1ª premissa, é logo determinado que a responsabilidade é do docente, que deve estar a fazer algo errado, porque o 'cliente tem sempre razão'. E por isso, são exigidas ao docente as 'milhentas' acomodações e adaptações de avaliação, até o 'cliente' não mostrar sinais de disrupção. A 2ª premissa serve para mostrar o motivo que leva o docente a intervir e arriscar a ser maltratado: é-lhe exigido que seja árbitro dos interesses diferentes que estão na sala de aula, tendo de defender os que querem aprender.
ResponderEliminarNem mais, Mário.
ResponderEliminarE é uma excelente oportunidade para repensar a desigualdade, para que a reabertura das escolas não a varra de novo para baixo do tapete.
ResponderEliminarOra nem mais.
ResponderEliminarMuito bom, Rui. Obrigado. E assim se “eliminou” as humanidades e as artes e se abriu espaço as crescimento do autoritarismo.
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