segunda-feira, 8 de março de 2021

"Mais de 6 mil Docentes no Topo", diz o Expresso na 1ª página

1ª edição deste post em 19 de Janeiro de 2020.


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"Mais de 6 mil docentes no topo", diz o Expresso na 1ª página (e o Público anteontem). É a insistente estratégia comunicacional da última década e meia, com o objectivo de precarizar os professores que ainda são cerca de 47% da administração central; e o olhar orçamental não resiste em desinvestir nos professores. E é também por isso que a crescente falta de professores é imparável. Já nada há a fazer de civilizado para o curto e médio prazos. Por exemplo, a ideia apressada de um professor leccionar várias disciplinas (onde o modelo funciona com decência tem anos de preparação séria na formação inicial e profissional), não reduz o investimento e degrada o que existe. Leia-se, adaptado, um jovem professor que emigrou para onde o desnorte começou há mais de uma década: "em Inglaterra, um professor lecciona qualquer disciplina, basta ter um canudo, mas isso reduz a exigência e deteriora a qualidade de ensino. Para ensinar uma infinidade de conteúdos, e não é possível saber de tudo ao mesmo tempo, tem que se "simplificar" o ensino. Portugal também vai por aí? E regressar por 1200 euros por mês? A 500 quilómetros de casa?". Só haverá dois modos de atenuar a falta de professores: acabar com várias disciplinas ou reduzir os dias lectivos semanais (um estado americano ultraliberal reduziu para três, mas os mentores duraram pouco) e transformar as escolas em armazéns a tempo inteiro com "guardadores" contratados em plataformas no "modelo-Uber".


E como as primeiras páginas teimam na desinformação, resta-nos repetir o óbvio: há 115 índices remuneratórios na administração pública (a imagem é do site da Direcção-Geral da Administração e Emprego Público). O topo dos professores está no 57º lugar (sublinhei na imagem). Há 58 índices remuneratórios acima dos professores e o topo recebe quase o dobro; e mais 120% do que a média. 


Para além disso, um coro mediático repete há muito que "os professores não podem chegar todos ao topo" e, não raramente, argumenta com as hierarquias militares. De modo sucinto, diga-se que um brigadeiro não realiza as tarefas de um tenente e vice-versa, mas um professor do 1º escalão pode leccionar a mesma turma que um do 10º. O cerne da profissionalidade dos professores é a sala de aula e as progressões oxigenam uma carreira horizontal. O conceito de topo não existe. De resto, há uma discussão sobre direitos e deveres a recuperar (algo de preocupante estará a acontecer quando a sociedade não se questiona sobre a perda de direitos fundamentais que exigiram lutas determinantes). Desde logo, civilizar os horários laborais para que as famílias tenham tempo para as crianças, e rejeitem a incivilizada escola a tempo inteiro, e esclarecer que os cortes nos professores atrasaram milhares (mais de 6 mil) na chegada a um escalão máximo que é o 57º da DGAEP, que há 60 mil que nunca lá chegarão e que os que entrarem aspirarão ao 80º lugar.

22 comentários:

  1. Estou no topo da carreira. Cheguei no início do ano letivo, depois de todos os congelamentos. Farei 40 anos de serviço em outubro. Tenho 61 anos de idade, trabalho desde os 21. Se quisesse pedir aposentação antecipada (por mim, já chegava para poder sair de cabeça erguida, sem perder a verticalidade) auferiria 900 €/mês. Ao fim de 40 anos de serviço!
    Não preciso acrescentar mais nada, pois não?

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  2. Não é preciso, Maria. Percebe-se perfeitamente. Obrigado pelo testemunho e força aí.

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  3. Pacotinhos de Noção10 de março de 2021 às 16:34

    A falta de respeito pelos professores não é só a dos alunos, com pouca ou nenhuma estrutura familiar, que insultam quem lhes tenta abrir os horizontes.
    A maior falta de respeito é a de quem governa e julga que um país de 1°Mundo se faz de redes 5G e computadores para todos os meninos. Tem que haver consciência de que a base de tudo é a educação, e como tal há que respeitar aqueles que a fazem chegar até nós. Com professores respeitados cresceremos como país.

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  4. A condição dos professores é indubitavelmente muito crítica. É um problema grave para o futuro do país.

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  5. maria teresa morais quintela10 de março de 2021 às 20:23

    Eu tenho 61, 36 de serviço e estou no 8º escalão. Se pedisse a reforma antecipada, nem o salário mínimo receberia. No entanto a opinião publica, feita pelos media e sucessivos governos, teima em colocar-nos a ganhar pequenas fortunas, faz de nós preguiçosos, incompetentes e outros mimos.
    Triste sorte a nossa.

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  6. É inadmissível que esteja no 8º escalão e nem se percebe como é possível que "Se pedisse a reforma antecipada, nem o salário mínimo receberia". Estas reformas deviam ser proibidas por lei. Há pessoas desesperadas (até por questões de saúde) que o fazem e que depois se arrependem; em vão.

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  7. Por que é que os nossos políticos ganham tanto ou mais do que os espanhóis se os professores ganham miseravelmente menos do que "nuestros hermanos"?? Se os professores que em Portugal se encontram no 8.º escalão pudessem dar o salto para o outro lado da fronteira, receberiam apenas (percebem... apenas) um salário superior a 2400 euros! Ah, se os professores de Portugal soubessem... todos quereriam ir lecionar para a Espanha. Certamente, muitos prefeririam que este país desgovernado nunca tivesse existido, e gritariam:
    — Maldito Afonso Henriques!
    Até na Galiza, uma das que apresenta os mais baixos rendimentos de Espanha. Pensando bem, e como nas lápides do cemitério, não reza a nacionalidade, de que serve viver mal para ter um bilhete de identidade ou cartão de cidadão? Muito melhor um Documento Nacional de Identidade (DNI) e dispor, em vida, de um rendimento que proporcione qualidade de vida.

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  8. maria teresa morais quintela11 de março de 2021 às 11:29

    Mas estou, fui sempre avaliada, desempenhei tudo que é cargo, mas tive o azar de levar com todas as mudanças de escalão, além de que o tempo que estive em serviços regionais do ME e em representação do ME na SS e numa CPCJ me prejudicou . Mas olhe que há professores ainda pior que eu, mas também hã colegas com o mesmo tempo de serviço e que estão no 10º escalão.
    Deixei de ser sindicalizada porque os sindicatos nunca se preocuparam realmente com as desigualdades entre professores.

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  9. Tem toda a razão, Maria Teresa. Desde os famigerados concursos do tempo de David Justino, em que à última hora se inventou um algoritmo que colocou tudo errado no quadro e assim ficou "para a vida" sem a maioria se aperceber, que a carreira foi sofrendo atropelos sucessivos e brutais injustiças (o legado de Lurdes Rodrigues é muito lamentável); a maioria das injustiças são irreparáveis até porque muitas pessoas já se reformaram e noutros casos nunca haverá retroactivos. E não há meio de se parar com estes modelos de avaliação, carreira e gestão para que a profissionalidade dos professores ganhe algum oxigénio. Aquele entendimento entre sindicatos e governo em 2008 foi fatal para o sindicalismo dos professores, ainda por cima porque, e infelizmente, já estávamos numa fase de descrédito do sindicalismo em geral.

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  10. Obrigada pelo seu testemunho. Como sabemos, ainda há muito para mudar nas carreiras públicas.

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  11. Mas há quem, dentro da própria classe, por razões de ordem materialmente pessoal, adiram a esta "narrativa" e queiram amputar mais ainda tudo isto, alegando que é de interesse geral. Não há paciência.

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  12. muito pior: com 50 e tal anos estão estacionados entre 3º e 5º escalão, com 24 ou mais anos de serviço, quando deveriam estar no 7º/8º...
    e com a certeza que não têm tempo de vida útil para atingir o 10º, sendo a melhor hipótese terminar no 9º e na pior não ultrapassar 7º/8º...
    e imagine-se o valor da pensão de reforma que vão ter...

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  13. há muitos anos que amaldiçoo a ambição desmedida de Afonso Henriques, que queria ter o seu 'reinozinho' pessoal, sem ter visão estratégica dos recursos que precisaria para o manter...

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  14. normalmente, esses/essas já têm a 'vidinha' feita de modo a que não se sujeitarão a carências financeiras...

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  15. e as últimas leis da portaria das 'ultrapassagens' e do OE 2018 que permitiu a uns subirem 2 escalões no mesmo ano e a outros a esperar mais 2 anos...
    o sindicalismo padece de uma agenda politico-paridária que conspurca a sua matriz mas depende-se dele para a negociação laboral...

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