quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Da Falta de Professores ao Estado do Século XXI


(Publicado pela 1ª vez em 13 de Outubro de 2018)


Já faltam professores. Quando o inverno se impuser, e o cansaço se acumular, haverá falta de candidatos às substituições. Era previsível. Foi mais de uma década a descer. Sejamos claros: somos um país pobre (em grande parte por causa da "surpreendente dimensão" da corrupção - palavras da ex-PGR -, da "incomodidade" com a transparência e da desorganização), com baixos salários e com empregos pouco atractivos. Os jovens não têm alternativas internas e é também isso que alimenta algum emprego no ensino. Como agravante, o estatuto dos professores precarizou-se. O meio da carreira será o topo no futuro próximo e há todo um mar de desconsiderações.


Olhe-se para os europeus que seguiram esse caminho. Aliás, os professores são um exemplo para se perceber o esgotamento político do capitalismo desregulado que seduziu o grande bloco central. A precarização teve um ideário comum.


Os EUA têm dois exemplos do inferno que se abateu sobre os professores. A mudança radical de posição de Diane Ravitch, ex-governante no tempo do 1º Bush, lê-se em duas obras preciosas: "O reinado do erro: A farsa do movimento de desestatização e o perigo para as escolas públicas da América" e "Vida e morte do sistema escolar americano: como os testes padronizados e o modelo de mercado ameaçam a educação". Mais recentes são os estudos que "desacreditam de forma inapelável" "o sistema de avaliação de professores patrocinado pela Fundação Gates e pelo "Obama Race to the Top": "baseou-se na avaliação de professores através dos testes padronizados aos alunos. O modelo remunerava eficazes e despedia ineficazes. Erraram em toda a linha. Prejudicaram os alunos, empurraram os melhores professores para fora da profissão e desencorajaram a candidatura dos jovens com melhores resultados. São responsáveis pela escassez de professores."


Klaus Schwab (2017:64) na "A Quarta Revolução Industrial", diz que "(...)os governos têm de se adaptar. O poder muda de agentes estatais para não estatais e de instituições estabelecidas para redes dispersas. As novas tecnologias e os grupos sociais e as interacções que promovem permitem que qualquer pessoa exerça influência de uma forma que seria inconcebível há poucos anos.(...)". Ou seja, se o século XXI assiste à eleição de autocratas com o voto de eleitores escolarizados, a explicação relacionar-se-á também com a exclusão e a precarização (a revolta e o desespero) como passos para o "não tenho nada a perder" (e, às tantas, para o "quanto pior melhor").


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Imagem: Paresh Nrshinga - Inspired by Mark Rothko


3 comentários:

  1. tenho duas perguntas a fazer-lhe a si, como é professor e tem a formação especifica em pedagogia, eu questiono, alguma vez mediu a sua eficácia das suas aulas?

    Vou tentar ser mais conclusivo, consegue determinar que as suas aulas, foram eficazes para o sucesso dos alunos na vida prática do mundo do trabalho?

    Eu não estou a falar das notas dos alunos, isso é subjetivo, falo concretamente da exigência da vida prática que os alunos, saem das escolas e trazem com eles valências, alguma vez mediram essas valências? e volto a frisar, os testes, não.

    E as perguntas que lhe faço tem uma razão de ser

    João Felgar

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  2. Muito bem, gostei da sua explicação.

    Se não tivermos um ensinamento virado para o mundo do trabalho como menciona, de facto vamos todos perder, e este pensar do amigo Paulo, já vem de outro ensinamento que teve quando esteve na Academia Militar, que levou a ter uma sensibilidade para a prática de todos os processos.

    Eu não digo que todos os professores tenham que frequentar as Forças Armadas, mas ajudava a terem outra visão da melhoria continua dos alunos e mudava a forma como todos entenderiam o nosso maior objetivo. Portugal.

    Gostei da sua forma de expressar a sua opinião, se o amigo Paulo Prudêncio é assim aqui no Sapo, com os seus alunos, deve fazer a diferença. Já me respondeu

    João Felgar

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  3. Muito obrigado. Fui "Comando", fui um oficial "Comando" que deu instrução e comandou um grupo numa companhia operacional. Mas foi no SMO e não como voluntário. Fui voluntário à força. Mas não fiz a academia militar. Percebo quando diz que "Se não tivermos um ensinamento virado para o mundo do trabalho". Sabe-se há muito que deve existir uma relação com as empresas e com o mundo do trabalho. Mas a formação, principalmente a universitária, e a consequente investigação, não se esgota aí. Há investigação teórica, e há as áreas das artes e das humanidade e por aí fora, que são essenciais ao progresso da humanidade. O Einstein e tantos outros emergiram daí.

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