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Pelo Público em 22 de Fevereiro de 2024. Como acordado, o texto está publicado no blogue.
Nota prévia:
é o 50º texto que escrevo para o Público e é também o 50º ano do 25 de Abril. Considerando a fragilidade da democracia e a finalmente indisfarçável falta estrutural de professores, cruzei os assuntos com um texto que ajuda a reflectir sobre o que nos trouxe até aqui.
Título: As eleições, as zonas de interesse e o resto
Texto:
O Ocidente inquieta-se com o estado das suas democracias e com a radicalização de eleitores. E apesar de se acreditar que a sociedade portuguesa consolidou o amor pela liberdade e pelo sufrágio directo e universal, a crise ensombra os 50 anos do 25 de Abril e confirma a incapacidade prospectiva das bolhas política e mediática.
Para além do aumento brutal das desigualdades, a gestão orçamental dos salários da administração pública provoca as principais tensões e origina protestos intermináveis dos grupos profissionais. Como as actualizações salariais não são efectivamente transversais, a melhoria de rendimentos incide em zonas de interesse que excluem os grupos mais numerosos.
Acima de tudo, exigia-se a um país de pequena dimensão, com apenas 10 milhões de habitantes e pouco mais de 700 mil funcionários públicos, previsibilidade democrática nas carreiras e nos salários (nos cortes, nas reposições e nos aumentos). Como a administração pública tem 115 índices remuneratórios, seria civilizado que se conhecesse claramente a trajectória de cada carreira. Mas não, o que existe é um pandemónio organizacional onde proliferaram os suplementos e os suplementozinhos. Ainda em 2019, o ministro das finanças não sabia o número de funcionários públicos e a da administração pública o número de carreiras; quanto mais o dos suplementos.
A encruzilhada é de tal ordem de grandeza, que a Unidade Técnica de Apoio Orçamental anda em voltas intermináveis com o tempo de serviço dos professores. Parece um exercício de física quântica inalcançável até com a versão mais avançada da Inteligência Artificial. E será para números exactos, tal o impacto das duas décadas de alterações avulsas que destruíram a carreira. A situação administrativa é calamitosa. Cada professor é um caso com histórias de injustiças, ultrapassagens, esquecimentos e sonegações. Não obstante, não é de outro mundo simular o acomodável valor mais elevado (quanto mais o real) aplicando todo o tempo a recuperar a todos os elegíveis (já são milhares os que nada recuperarão). Mas é, principalmente, um problema político que se arrasta indecentemente.
E o mais grave é que não só não se assume o estado da carreira, como se trava progressões com modelos de gestão opacos e kafkianos. Origina ambientes de salve-se quem puder e de todos contra todos. Cria zonas de interesse individuais ou de pequenos grupos, as afamadas clientelas dominadas por pequenos tiranetes, que eliminam a cooperação, a imparcialidade e até a compaixão. Na verdade, empurra-se eleitores para guetos.
Os professores são o grupo mais numeroso. Protestam há quase duas décadas contra o clima doentio das escolas. Fogem do caudilhismo e da parcialidade, que provoca a queda das aprendizagens dos alunos e a desistência de milhares de profissionais qualificados que experimentam. São avaliados numa farsa administrativa, e sem qualquer "olhos nos olhos", alimentada pela humilhação do estatuto social. Ainda recentemente, a comunicação social titulou insistentemente, com o apoio da máquina de spinning governativo, que os "professores faltam dois milhões de dias por ano." Lendo o estudo, o título deveria ser assim: apesar de tudo, 90% dos professores raramente falta e 10% tem doenças prolongadas devidamente justificadas e muito escrutinadas (até, pasme-se, as gravidezes de risco).
As revoltas e ressentimentos são invisíveis para o debate eleitoral. É uma engrenagem diabólica. Há ligeiras avarias próximo de eleições, mas recomeça de seguida. Dá ideia que o ser humano perdeu a centralidade no organismo social. Foi projectado para o exterior. Tornou-se um motivo para problemas permanentes e crescentes sofisticações.
Quando este texto já ia adiantado, vi o imperdível filme "A Zona de Interesse" de Jonathan Glazer. "A Zona de Interesse" é considerado "de tirar o fôlego", "um grito de fúria alarmante" e "extremamente necessário para os tempos actuais". A começar pela Alemanha, o país europeu mais traumatizado e mais apreensivo com a possibilidade do fim da democracia.
E sem fazer spoiler, digo-lhe que Jonathan Glazer nos remete para dois clássicos: se quer conhecer um humano, dê-lhe um bocadinho de poder; a banalidade do mal e a sociopatia atingiram um qualquer cume na ascensão e sustentação do nazismo. "A Zona de Interesse" centra-se na vida perfeita de uma família que reside em paredes-meias com Auschwitz; ele, humano como nós, era o comandante do campo e um instrumento da sua chocante zona de interesse (é arrepiante a cobiça dos objectos das judias). E se a banda sonora transmite os sons do inferno, mas sem o vermos porque nunca vemos os infernos alheios às nossas zonas de interesse, as imagens não escapam às cinzas - dos corpos gaseados e incinerados - que pairam teimosamente no ar.
Cruze-se "A Zona de Interesse" com a fragilidade da democracia e com a agenda sobre Educação nos programas e debates eleitorais. A lição exige que, depois, ninguém se justifique novamente com as bolhas política e mediática, nem com estudos e avaliações do poder central: como habitam zonas de interesse, nada viram da tragédia que flagelou durante duas décadas o resto dos cidadãos na escola pública e determinam a mesma desgraçada receita individualista: incentivos a mais esforço dos professores.
Já aqui escrevi várias vezes: ignorância + revolta + ressentimento = eleger extremistas que expulsem governantes mafiosos disfarçados de moderados. Observar as artimanhas argumentistas para justificar a 'chico-espertice' que é usada para 'tratar da vidinha', os lacaios que no intimo não acreditam mas defendem o indefensável apenas para proteger a sua zona de interesse, induz um sentimento de repulsa que se manifesta em escolhas extremistas.
ResponderEliminarEstudantes e pais atacam ad hominem os docentes quando não podem negar os seus comportamentos desviantes, uma forma básica de spin-off, e que a instituição escolar sanciona para manter imagem mediática.
O mal não é banal mas genético: é intrinseco e manifesta-se sob determinada estimulação ambiental.
Para impedir esses humanos, "contra os canhões, marchar, marchar"...
A inteligência ao serviço da paz e da justiça. É assim que classifico este texto.
ResponderEliminarDeixo um pequeno exemplo, no que se refere a escolas e carreiras.
Para subir ao nono escalão, ao abrigo da RTS, esperei 6 meses que procedessem à minha progressão. Deveria ter progredido a 1 de setembro de 2024. Em finais de fevereiro de 2025, tudo na mesma. Pois, a verdade é que falei com um advogado e informei a escola. Tinham um prazo de 2 dias para validar a progressão. Telefonei à escola às 11.30h da manhã, informei que iria recorrer a tribunal. Às 16h do mesmo dia a progressão já estava confirmada pela dgest.
Em 3 ou 4 horas conseguiram o que não quiseram fazer em 6 meses.
Acho que isto diz muita coisa do estado a que deixámos chegar a organização das escolas públicas.
Força aí, Mário.
ResponderEliminarAinda falei nisso no início da semana na Antena Aberta da Antena 1. Muito mau.
ResponderEliminarA tua intervenção na Antena 1 foi mais um trabalho teu de grande nível, elevadíssimo nivel. Acessível a poucos.
ResponderEliminarMuito obrigado, Agostinho. E tinha acabado de sair o estudo do David Justino da EduLog que se via de imediato que era uma grosseria manipulação ideológica.
ResponderEliminarMuito obrigado pela tua atenção. Caro Agostinho. Aquele abraço
ResponderEliminara força para moderação vai escasseando...
ResponderEliminarNo dia 01 de setembro devia ter sido colocado no escalão correspondente ao seu tempo de serviço; isso é que era uma rts integral. Já bastam as dezenas de milhares de euros perdidos nos anos anteriores, que jamais serão retribuídos. Admira-me que a ameaça de recurso judicial tenha tido sucesso porque com o funcionamento miserável dos tribunais, isso até tem efeito indiferente, porque a instituição sabe que quando vier uma sentença já passaram anos, e enquanto 'o pau vai e vem, folgam as costas'...
ResponderEliminar.
Percebo. Mas há sempre um espaço desconhecido até um qualquer limite.
ResponderEliminarMuito mau. É cada relato.
ResponderEliminarTenho a impressão que os diretores, em geral, não gostam de ouvir falar em tribunais, talvez lhes comprometa a sua avaliação ou reputação. Obrigado pela tua atenção, consegues tempo para tudo!!!
ResponderEliminarAh, hoje fui recebido por uma família ucraniana que aceitou o meu pedido para conversar sobre o problema da guerra na Ucrânia e tudo isso. Aprendi muito muito muito. Coisas até bastante chocantes. A questão, Zelensky, é muito complexa, na análise daquela família, foi o que percebi. Hei de escrever sobre esta interessante conversa. Abraço forte.
A questão Ucrânia é complexa: tenho memória histórica de um país desgovernado, assolado por uma corrupção generalizada e endémica, que levou a 2 revoluções. Zelensky, um ator comediante televisivo, que protagonizou em séries cujo enredo era a critica sátira da (des)governação do país e que ganhou as eleições com base num voto de protesto massivo. A guerra congelou essa complexidade mas manifestou-se através das demissões frequentes nas altas patentes militares e na desconfiança verbalizada por alguns países doadores sobre o destino do dinheiro para a guerra ou sobre a ponderação prolongada de uma entrada na UE.
ResponderEliminarO mundo humano não é um modelo de bem e mal bem definido, de bons e maus bem caracterizados, mas uma matiz complexa de ambivalência e ambiguidade.
Sem dúvida. Também já conheci ucranianos com posições muitos diferentes do que estamos habituados a ouvir. Mas se pensarmos um bocado na história daquela zona e na quantidade de variantes ideológicas, é natural que encontremos as posições mais divergentes e surpreendentes. Era bom que construíssem uma democracia. Mas nem sei. A ideia de democracia está mesmo numa crise preocupante. Abraço forte também.
ResponderEliminarO estado da democracia nas escolas é mau. E não é de agora.
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