sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

As eleições, as zonas de interesse e o resto

 


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Pelo Público em 22 de Fevereiro de 2024. Como acordado, o texto está publicado no blogue.


Nota prévia: 


é o 50º texto que escrevo para o Público e é também o 50º ano do 25 de Abril. Considerando a fragilidade da democracia e a finalmente indisfarçável falta estrutural de professores, cruzei os assuntos com um texto que ajuda a reflectir sobre o que nos trouxe até aqui.


Título: As eleições, as zonas de interesse e o resto


Texto:


O Ocidente inquieta-se com o estado das suas democracias e com a radicalização de eleitores. E apesar de se acreditar que a sociedade portuguesa consolidou o amor pela liberdade e pelo sufrágio directo e universal, a crise ensombra os 50 anos do 25 de Abril e confirma a incapacidade prospectiva das bolhas política e mediática.


Para além do aumento brutal das desigualdades, a gestão orçamental dos salários da administração pública provoca as principais tensões e origina protestos intermináveis dos grupos profissionais. Como as actualizações salariais não são efectivamente transversais, a melhoria de rendimentos incide em zonas de interesse que excluem os grupos mais numerosos.


Acima de tudo, exigia-se a um país de pequena dimensão, com apenas 10 milhões de habitantes e pouco mais de 700 mil funcionários públicos, previsibilidade democrática nas carreiras e nos salários (nos cortes, nas reposições e nos aumentos). Como a administração pública tem 115 índices remuneratórios, seria civilizado que se conhecesse claramente a trajectória de cada carreira. Mas não, o que existe é um pandemónio organizacional onde proliferaram os suplementos e os suplementozinhos. Ainda em 2019, o ministro das finanças não sabia o número de funcionários públicos e a da administração pública o número de carreiras; quanto mais o dos suplementos.


A encruzilhada é de tal ordem de grandeza, que a Unidade Técnica de Apoio Orçamental anda em voltas intermináveis com o tempo de serviço dos professores. Parece um exercício de física quântica inalcançável até com a versão mais avançada da Inteligência Artificial. E será para números exactos, tal o impacto das duas décadas de alterações avulsas que destruíram a carreira. A situação administrativa é calamitosa. Cada professor é um caso com histórias de injustiças, ultrapassagens, esquecimentos e sonegações. Não obstante, não é de outro mundo simular o acomodável valor mais elevado (quanto mais o real) aplicando todo o tempo a recuperar a todos os elegíveis (já são milhares os que nada recuperarão). Mas é, principalmente, um problema político que se arrasta indecentemente.


E o mais grave é que não só não se assume o estado da carreira, como se trava progressões com modelos de gestão opacos e kafkianos. Origina ambientes de salve-se quem puder e de todos contra todos. Cria zonas de interesse individuais ou de pequenos grupos, as afamadas clientelas dominadas por pequenos tiranetes, que eliminam a cooperação, a imparcialidade e até a compaixão. Na verdade, empurra-se eleitores para guetos.


Os professores são o grupo mais numeroso. Protestam há quase duas décadas contra o clima doentio das escolas. Fogem do caudilhismo e da parcialidade, que provoca a queda das aprendizagens dos alunos e a desistência de milhares de profissionais qualificados que experimentam. São avaliados numa farsa administrativa, e sem qualquer "olhos nos olhos", alimentada pela humilhação do estatuto social. Ainda recentemente, a comunicação social titulou insistentemente, com o apoio da máquina de spinning governativo, que os "professores faltam dois milhões de dias por ano." Lendo o estudo, o título deveria ser assim: apesar de tudo, 90% dos professores raramente falta e 10% tem doenças prolongadas devidamente justificadas e muito escrutinadas (até, pasme-se, as gravidezes de risco). 


As revoltas e ressentimentos são invisíveis para o debate eleitoral. É uma engrenagem diabólica. Há ligeiras avarias próximo de eleições, mas recomeça de seguida. Dá ideia que o ser humano perdeu a centralidade no organismo social. Foi projectado para o exterior. Tornou-se um motivo para problemas permanentes e crescentes sofisticações.


Quando este texto já ia adiantado, vi o imperdível filme "A Zona de Interesse" de Jonathan Glazer. "A Zona de Interesse" é considerado "de tirar o fôlego", "um grito de fúria alarmante" e "extremamente necessário para os tempos actuais". A começar pela Alemanha, o país europeu mais traumatizado e mais apreensivo com a possibilidade do fim da democracia.


E sem fazer spoiler, digo-lhe que Jonathan Glazer nos remete para dois clássicos: se quer conhecer um humano, dê-lhe um bocadinho de poder; a banalidade do mal e a sociopatia atingiram um qualquer cume na ascensão e sustentação do nazismo. "A Zona de Interesse" centra-se na vida perfeita de uma família que reside em paredes-meias com Auschwitz; ele, humano como nós, era o comandante do campo e um instrumento da sua chocante zona de interesse (é arrepiante a cobiça dos objectos das judias). E se a banda sonora transmite os sons do inferno, mas sem o vermos porque nunca vemos os infernos alheios às nossas zonas de interesse, as imagens não escapam às cinzas - dos corpos gaseados e incinerados - que pairam teimosamente no ar.


Cruze-se "A Zona de Interesse" com a fragilidade da democracia e com a agenda sobre Educação nos programas e debates eleitorais. A lição exige que, depois, ninguém se justifique novamente com as bolhas política e mediática, nem com estudos e avaliações do poder central: como habitam zonas de interesse, nada viram da tragédia que flagelou durante duas décadas o resto dos cidadãos na escola pública e determinam a mesma desgraçada receita individualista: incentivos a mais esforço dos professores.

15 comentários:

  1. Já aqui escrevi várias vezes: ignorância + revolta + ressentimento = eleger extremistas que expulsem governantes mafiosos disfarçados de moderados. Observar as artimanhas argumentistas para justificar a 'chico-espertice' que é usada para 'tratar da vidinha', os lacaios que no intimo não acreditam mas defendem o indefensável apenas para proteger a sua zona de interesse, induz um sentimento de repulsa que se manifesta em escolhas extremistas.
    Estudantes e pais atacam ad hominem os docentes quando não podem negar os seus comportamentos desviantes, uma forma básica de spin-off, e que a instituição escolar sanciona para manter imagem mediática.
    O mal não é banal mas genético: é intrinseco e manifesta-se sob determinada estimulação ambiental.
    Para impedir esses humanos, "contra os canhões, marchar, marchar"...

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  2. A inteligência ao serviço da paz e da justiça. É assim que classifico este texto.
    Deixo um pequeno exemplo, no que se refere a escolas e carreiras.
    Para subir ao nono escalão, ao abrigo da RTS, esperei 6 meses que procedessem à minha progressão. Deveria ter progredido a 1 de setembro de 2024. Em finais de fevereiro de 2025, tudo na mesma. Pois, a verdade é que falei com um advogado e informei a escola. Tinham um prazo de 2 dias para validar a progressão. Telefonei à escola às 11.30h da manhã, informei que iria recorrer a tribunal. Às 16h do mesmo dia a progressão já estava confirmada pela dgest.
    Em 3 ou 4 horas conseguiram o que não quiseram fazer em 6 meses.

    Acho que isto diz muita coisa do estado a que deixámos chegar a organização das escolas públicas.

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  3. Ainda falei nisso no início da semana na Antena Aberta da Antena 1. Muito mau.

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  4. A tua intervenção na Antena 1 foi mais um trabalho teu de grande nível, elevadíssimo nivel. Acessível a poucos.

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  5. Muito obrigado, Agostinho. E tinha acabado de sair o estudo do David Justino da EduLog que se via de imediato que era uma grosseria manipulação ideológica.

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  6. Muito obrigado pela tua atenção. Caro Agostinho. Aquele abraço

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  7. a força para moderação vai escasseando...

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  8. No dia 01 de setembro devia ter sido colocado no escalão correspondente ao seu tempo de serviço; isso é que era uma rts integral. Já bastam as dezenas de milhares de euros perdidos nos anos anteriores, que jamais serão retribuídos. Admira-me que a ameaça de recurso judicial tenha tido sucesso porque com o funcionamento miserável dos tribunais, isso até tem efeito indiferente, porque a instituição sabe que quando vier uma sentença já passaram anos, e enquanto 'o pau vai e vem, folgam as costas'...
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  9. Percebo. Mas há sempre um espaço desconhecido até um qualquer limite.

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  10. Tenho a impressão que os diretores, em geral, não gostam de ouvir falar em tribunais, talvez lhes comprometa a sua avaliação ou reputação. Obrigado pela tua atenção, consegues tempo para tudo!!!

    Ah, hoje fui recebido por uma família ucraniana que aceitou o meu pedido para conversar sobre o problema da guerra na Ucrânia e tudo isso. Aprendi muito muito muito. Coisas até bastante chocantes. A questão, Zelensky, é muito complexa, na análise daquela família, foi o que percebi. Hei de escrever sobre esta interessante conversa. Abraço forte.

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  11. A questão Ucrânia é complexa: tenho memória histórica de um país desgovernado, assolado por uma corrupção generalizada e endémica, que levou a 2 revoluções. Zelensky, um ator comediante televisivo, que protagonizou em séries cujo enredo era a critica sátira da (des)governação do país e que ganhou as eleições com base num voto de protesto massivo. A guerra congelou essa complexidade mas manifestou-se através das demissões frequentes nas altas patentes militares e na desconfiança verbalizada por alguns países doadores sobre o destino do dinheiro para a guerra ou sobre a ponderação prolongada de uma entrada na UE.
    O mundo humano não é um modelo de bem e mal bem definido, de bons e maus bem caracterizados, mas uma matiz complexa de ambivalência e ambiguidade.

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  12. Sem dúvida. Também já conheci ucranianos com posições muitos diferentes do que estamos habituados a ouvir. Mas se pensarmos um bocado na história daquela zona e na quantidade de variantes ideológicas, é natural que encontremos as posições mais divergentes e surpreendentes. Era bom que construíssem uma democracia. Mas nem sei. A ideia de democracia está mesmo numa crise preocupante. Abraço forte também.

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  13. O estado da democracia nas escolas é mau. E não é de agora.

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