quinta-feira, 24 de julho de 2025

O grave equívoco dos que sabiam como se aprende

Captura de ecrã 2025-07-24, às 17.59.58.png


O grave equívoco dos que sabiam como se aprende.


Fica agora muito mais claro o que levou a classificar como neoliberais e extractivos os que diziam que se sabia como se aprende. Pois bem: se sabemos como se aprende, também temos que aceitar que se sabe como se aprende mais e mais depressa. E é bom que se saiba que é neste espaço que renascem as discriminatórias (e assutadoras) teses neoliberais que associam a inteligência - medida em testes de quociente de inteligência - à herança genética e às linhas raciais.


De facto, é fundamental repetir as categorias essenciais das políticas inclusivas.


E antes do mais e salvo melhor opinião, a desvalorização do professor foi um erro histórico participado por pedagogos. Advogou-se, como inclusivo, o radicalismo da escola centrada na aprendizagem, em oposição à escola centrada no professor. Foram extremos que se tocaram.


Verdade seja dita que se ignorou os avisos (década de 1980) de que a democracia exigia dos professores a selecção dos conteúdos (com conhecimentos, destrezas, valores e atitudes), e das formas de avaliação, que ultrapassaria a relação contraditória com os alunos. Desconstruíram-se três teses que ainda hoje se confrontam: a da harmonia, do psicoterapeuta Carl Rogers, baseada em relações individualizadas e empáticas, mas inaplicável em turmas; e duas de desequilíbrio: magistercentrismo (o professor rei de Alain, Dewey e Durkheim) e pedocentrismo (o aluno rei de Freinet, Montessori e Summerhill).


Além de tudo, e é hoje cientificamente mais claro, há diversos estilos para ensinar, mas é mais correcto falar em ignorância do que em conhecimento no que se refere ao modo como cada um aprende. Se na investigação é imperativa a busca desse conhecimento, nas políticas educativas requer-se equilíbrio e prudência. Confundiu-se ciência com o valor moral positivo dado ao estímulo para aprender, agravado com a hierarquização de estilos de aprendizagem.


A partir de dado momento, não era inclusivo treinar as memórias de médio e longo prazos nem estimular a repetição, o estudo em casa, a atenção nas aulas e até o respeito pelos professores. Nem sequer se valorizava o número de alunos por turma e perdeu-se também a articulação com a sociedade em áreas fundamentais como a saúde mental, as emoções e o sono. Aliás, o ensino superior, que "desapareceu" da formação contínua, impôs, na formação inicial, um vazio no treino de professores que aumentou o desconhecimento sobre estilos de ensino.


Por outro lado, acentuou-se o erro com a generalização nos serviços centrais do Ministério da Educação (foram anos a fio de uma mistura desastrosa de prateleiras douradas com emprego partidário) da cultura anti-professor e anti-sala de aula. Alargou-se a escolas e sindicatos e abriu-se portas a modelos autocráticos. Resultou ainda na infernal burocracia que eliminou o que restava da "confiança nos professores".


Nota: já usei estes argumentos noutros textos.

4 comentários:

  1. Rui Manuel Fernandes Ferreira24 de julho de 2025 às 22:56

    Texto assertivo e demasiado importante para o professorado.
    O problema está na dimensão da massa, incluindo nos próprios professores, que, desconhecendo os fenómenos que aqui se abordam, não conseguem, sequer, opinião minha, interpretar este texto.
    O desconhecimento dos estilos de ensino é exemplo paradigmático. Dizer "inovar na educação com a aplicação dos métodos ativos" é não entender nada sobre esta matéria. Quer dizer que não se sabe que não existe hierarquia nos métodos de ensino, que estes devem ser usados mediante o grau de maturidade cognitiva, afetiva, emocional, social, psicomotora dos alunos. Mas não só. O seu uso depende, também, da própria natureza dos conteúdos alvo e do próprio conhecimento que os alunos têm sobre o assunto (maturidade cognitiva).
    Para finalizar o comentário, como nunca se saberá a forma de como cada um dos alunos aprende, a importância, TODA, recai, exatamente, na forma de como se deve ensinar. E porquê? Porque existe evidência científica robusta que ensina o professor como fazer para MAXIMIZAR O TEMPO POTENCIAL DE APRENDIZAGEM (tempo onde as condições poderão permitir as aquisições).

    ResponderEliminar
  2. Pois, a ignorância...A prática, as "coincidências", as formações, ensinaram-me que existem diversos estilos de aprendizagem e não só ouvir e memorizar (quem é bom nisto é um aluno de topo nos resultados e no QI). Ha quem seja auditivo, visual, cinestésico...Mas debitar "matéria" continua a ser a mais recorrente. Óbvio que é igualmente importante, mas não a única.
    Também existem as múltiplas inteligências de Howard Gardner, que as explica muito bem. Basta fazer uma rápida busca geral no Google. Daí haver talentos "escondidos" desvalorizados. Ter uma crianÇa com 7 anos, de matrícula adiada, com inúmeras dificuldades e vivências traumáticas é preocupante, mas vê-la jogar futebol, fazer flexões que nem um adulto, só revela que é nisto que ele é bom e se interessa. O resto tem de ser trabalhado, sim, mas estas capacidades não podem ser ignoradas.
    E atenção que contra mim falo quando me apercebo que começo a falar demais... Embora as imagens, o jogo, os exemplos, a aprendizagem pela ação, tento sempre que estejam presentes.

    ResponderEliminar
  3. Obrigado, Rui. É um ângulo preocupante "não conseguem, sequer, opinião minha, interpretar este texto.". Por acaso, tinha o "academic learning time" no texto mas tirei-o por causa dos caracteres. Muito obrigado.

    ResponderEliminar