quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Só se desburocratizará quando o poder voltar à sala de aula

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Pelo Público em 28 de Agosto de 2025. O texto tem 5 ligações. A leitura na edição do Público é de acesso gratuito. Como acordado, o texto está publicado no blogue.


Título: Só se desburocratizará quando o poder voltar à sala de aula


Texto:


"- Pensas que sou um homem culto e instruído? - Com certeza - respondeu Zi-gong. - Não é? - De modo nenhum - disse Confúcio. - Simplesmente descubro o fio da meada. Em "Memórias históricas" de Sima Qian."


Há muito que, ciclicamente, se anuncia a reforma e desburocratização dos serviços públicos, mas todos os estudos concluem: a burocracia escolar aumentou e agravou-se com a transição digital. De facto, o inferno não pára de crescer, em paralelo com a falta estrutural de professores, com a desautorização de quem ensina, com a indisciplina nas salas de aula e com queda das aprendizagens dos alunos.


Mas a má burocracia não é uma fatalidade. Não era a analógica e muito menos é a digital. Trata-se de descobrir o fio da meada e mudar. Só que mudar para que os alunos voltem a ter professores e para que a mudança não inscreva Giuseppe di Lampedusa - "é preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma" -, exige conhecimentos sólidos que cruzem a organização escolar com os sistemas de informação.


É que, acima de tudo, só se iniciará a desburocratização quando o poder escolar voltar à origem, ao nível micro, à simplificação da organização e à confiança na relação, intemporal e contraditória, do professor com os alunos mediada por conhecimentos, destrezas, atitudes e valores. É, sobretudo, voltar à essência do poder escolar e ao que justifica a existência da escola. É onde tem que começar a análise e programação de um sistema de informação que assuma as palavras-chave da sociedade da informação e do conhecimento: confiança, simplificação e transparência. E a exemplo das notáveis automatizações do Multibanco (e do "Banco Online") e do Portal das Finanças, tem que partir de um binómio - obter informação para a fornecer em tempo real - e dos processos digitais de alunos, de professores e de outros profissionais, num coração de dados (biográficos, de comunicações e de frequência escolar) resultante do reconhecimento do que é padrão e essencial para o histórico e para a tomada de decisões; e nunca pode estar à mercê de chefias em roda livre informacional.


Para isso, é imperativo libertar a sala de aula do caos informacional obtido por um poder central que perdeu capacidade técnica a cada reforma orgânica descentralizadora para as CCDR, delegações regionais, CIM ou autarquias - e está em curso mais uma - e se tornou dependente do poder partidário e de empresas privadas. De facto, há centenas de plataformas não relacionadas - que obtêm informação repetida - imaginadas por chefias que os partidos colocaram num enxame de projectos e planos nacionais, ou nas estruturas descentralizadas, que infernizam a obtenção de dados escolares para a improdutiva troca entre si. Nessa linha e como exemplo, o Governo entregou à KPMG a trapalhada manipuladora do número de alunos sem aulas - agendada apenas para 2026 -, que recorrerá a um dos pesadelos diários da transição digital para quem lecciona: os sumários das aulas.


Acrescente-se que os programas de avaliação externa das escolas, da Inspecção-Geral da Educação e Ciência, enfermam da mesma doença. Não elevam qualquer passo de desburocratização e, pelo contrário, estimulam as chefias escolares para a obtenção de informação numa balbúrdia intratável de grelhas, planos, projectos, actas, pareceres, inquéritos e relatórios.


Mas a mudança de poder em democracia obedece ao primado da lei. E se qualquer estudo sobre a fuga a ser professor identifica cinco causas - carreira, burocracia, avaliação do desempenho, gestão das escolas e indisciplina -, há duas alterações que são outro fio da meada: acabar com a injusta farsa administrativa que avalia numericamente professores, e ainda usa quotas e vagas, e com o modelo autocrático de gestão das escolas (a bem da inovação e da democracia, uma chefia deve mudar a cada oito anos) que desvalorizou os professores na escolha de quem as dirige. Alguns ministros da educação, como o actual, constataram-no, mas a engrenagem instalada, que também espelha o oportunismo de muitos professores, só "permite", e no espírito Lampedusa, mudanças aos níveis macro e meso.


Por fim, não se espere pela irrelevância do professor nas salas de aula do futuro. Desde a origem que ser professor é desafiar o amanhã e a incerteza. A degradação da profissão sintetiza-se assim: até à primeira década do milénio, ligava-se à escola de formação inicial para a actualização científica e pedagógica e prestava duas contas a qualquer momento: como geria o programa que leccionava e como avaliava os alunos. Mas tudo isso se perdeu. A formação contínua transformou-se, em regra, numa indústria de futilidades, e a desconfiança no seu exercício inverteu o ónus da prova, atomizou os chefes que obtêm informação, nivelou os procedimentos por baixo em busca de maus profissionais e tornou medíocre toda a organização.

19 comentários:

  1. Porra, um espanto!
    Com os diabos, fiquei deslumbrado!
    Merecias, no mínimo, uma escola com o teu nome!
    Um grande e forte abraco!!!!

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  2. Brilhante, como sempre! Bem haja.

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  3. Obrigado, Paulo, pelo seu raciocínio sempre lúcido!
    A questão fulcral é que os problemas estão mais do que identificados, mas não há vontade política em mudar. Por outro lado, há muita gente que tira proveitos desta desgraça e dela tira proveito.
    Tenho um familiar na Alemanha que faz formação em empresas (scrum master) e costuma dizer, acertadamente: "As pessoas querem mudança, mas não querem ser mudadas."

    É isso.

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  4. Correcção: "... e dela beneficia".

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  5. Brilhante, Paulo. Obrigado.

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  6. Obrigado, Agostinho e um grande e forte abraço também.

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  7. Muito bom. Excelente reflexão. Desmonta a gigantesca burocratização que adoece quem ensina nas escolas e que transformou os professores em zombies.

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  8. Colo um comentário que subscrevo do blog do Guinote: “ Excelente texto de PP!

    Capacidade analítica poderosa e linguagem clara e contundente.

    Como já nos habituou noutros textos.

    Espero que os assessores da equipa ministerial o leiam. E levem em conta a sua brilhante análise. Chamem no para assessor. A ele. Ao Guinote. E a outros.

    Deste texto emana o grito mais profundo dos professores. De Dor.

    Por termos sido sugados pela burocracia miúda e mesquinha das escolas.

    Inúmeras vezes criada por elas próprias, pelos nossos colegas mangas de alpaca como coordenadores de dts, assessores de direção e adjuntos que temem a sala de aula.

    (Tudo cargos administrativos que se alimentam de nós: do nosso trabalho).

    Fomos duplamente anulados. Desvalorizados. Pela burocracia miudinha das escolas e pela máquina burocrática das plataformas.

    Por isso, como diz PP num outro artigo de 2022 ” tanto se adoece nas nossas escolas”. Estão desumanizada.

    O título sintetiza tudo: o retorno ao poder da sala de aula. Ao professor.À sua valorização.

    Ele é a trave, o pilar. Nenhuma escola existe sem o trabalho dos professores por maior que seja a máquina burocrática dentro dela e fora dela nas estruturas do MECi.

    Obrigada PP.”

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  9. Rui Manuel Fernandes Ferreira29 de agosto de 2025 às 21:12

    Que bela (assertiva) reforma estrutural daria.
    É nisto que se deve concentrar a luta dos professores.

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  10. Obrigado, Rui. E permite-me que concorde :))

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