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Título: A "nova" disciplina de cidadania resultou, para não variar, em mais papelada inútil para cima dos exaustos professores.
Texto:
Os governantes anunciaram as medidas que iam finalmente colocar tudo nos eixos no transcendente programa da aula semanal da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, e a sociedade envolveu-se num aceso debate. Pouco tempo depois, mais governantes proclamaram, e pela terceira vez depois da covid-19, uma desburocratização definitiva que incluía a educação.
Mas afinal, qual é o resultado de tudo isto? O resultado é mais papelada inútil para cima dos exaustos professores, a exemplo do vasto acervo de epifanias do poder central que acabam em mais plataformas digitais ou que as chefias escolares tratam de transformar em grelhas infernais.
De facto, e repito-o pela enésima vez, a realidade sumaria-se e descreve-se em dois tópicos:
1. O MECI licencia o software de empresas privadas que os agrupamentos e as escolas usam, e pagam, para a gestão de todos estes dados (e o tragicómico, é que o MECI começou, em 1998, o seu portal - denominou-o depois E360, já que ia englobar tudo - e abandonou-o após 26 anos de negligência e falta de vontade política). E como os Governantes não indicam às empresas a informação a obter, a relacionar e a automatizar, instala-se o caos informacional (não se trata, obviamente, de obter tudo o que existe; é crucial seleccionar os campos em função da tomada de decisões e para que não se repita o lançamento de dados). As escolas mergulham num inferno de emails, onde anexam grelhas em excel ou word, para obter dados inúteis em reuniões inúteis. Por precaução, os registos são ainda impressos e arquivados em infindáveis prateleiras.
2. Por outro lado, os governantes impuseram, neste século, um modelo autocrático de mega-agrupamentos de escolas. Recorde-se que o modelo foi testado para uma escola, e taxativamente desaconselhado, no século passado. Apesar da evidência, os governantes generalizaram-no (amontoando a eito dez, vinte ou trinta escolas das mais variadas tipologias) e deram asas à doentia ilusão do controlo.
Na verdade, e feita a repetição do mais óbvio, acrescente-se que todos os professores educam, em todas as aulas, para a cidadania, para as atitudes e para os valores, e que isso é independente da vontade de governantes. Aliás, é como no ensino do português: todos os professores são professores de português, para além, obviamente, da leccionação imprescindível dos especialistas.
Por outro lado, liderar em educação não é um exercício de epifanias ou de fretes ideológicos. E é ainda menos um universo de decisões do poder central que, a exemplo da avaliação dos professores, dos mega-agrupamentos, do Programa Maia, da escola digital ou da legislação sobre inclusão, deixa a estruturação dos monstros para as escolas. Liderar em educação exige, desde logo, conhecimentos sólidos que cruzem a organização escolar com os sistemas de informação, e com uma análise e programação que consolide continuamente a estruturação, o processo e o produto.
Acima de tudo, o primeiro passo para a elevação da cidadania, e para o respeito pela profissionalidade dos professores, passa pela aprovação de um decreto-lei com um só artigo.
No preâmbulo escreve-se qualquer coisa assim: desde que há escolas que os professores sabem que prestam duas contas a qualquer momento: como gerem o programa da disciplina que leccionam e como avaliam os alunos. E o artigo único é simples: é proibido solicitar informação aos professores que seja uma inversão do ónus da prova.
Brilhante, Paulo. Obrigada!!!
ResponderEliminarObrigado, Joana.
ResponderEliminarExcelente! Só não vê ou sabe quem não quer ou faz de conta que tudo corre sobre rodas para que a comunicação social propagandeie o que o ministro diz.
ResponderEliminarMuito obrigado.
ResponderEliminarFico feliz. Fico feliz por saber e tomar consciência profunda de que os professores não são uns idiotas, ou não são todos uns idiotas como os governos pensam que somos. Basta-me saber isso e o meu mais que sincero agradecimento ao Paulo Prudêncio.
ResponderEliminarDe resto, já não acredito em nada. Basta-me saber e basta-me conhecer alguém que saiba dizer que não nos tomem por idiotas nem por parvos. Façam a merda toda que entenderem, mas não nos tomem por parvos.
Por mais que os professores agradeçam, não tenho a certeza se sabem reconhecer o valor de um professor chamado Paulo Prudêncio. Espero que sim. Porque é voz mais justa, mais clarividente e honesta que conheço.
Só mais um pequeno pormenor e só para demonstrar o meu repúdio por aqueles diretores que bateram palmas e se encheram de orgasmos pela criação dos mega agrupamentos. São a vergonha dos professores e da escola pública.
Muito obrigado, Agostinho.
ResponderEliminarTem razão em tudo, exceto em dizer que todos os professores são professores de cidadania de facto, não são, são de iuris, mas não de facto porque não os deixam ser, as estruturas intermédias que funcionam como capatazes, vigiam os limites (há escolas onde bradam aos professores que não podem colocar um aluno fora da sala de aula que foi objeto de uma participação disciplinar, por comportamento grave durante a aula, mesmo estando fora da escolaridade obrigatória) as superestruturas e as estruturas externas também, uma das grandes vantagens da escola pública em relação à escola privada é a heterogeneidade do seu público, docente e discente, essa riqueza não deve ser neutralizada, mas as limitações à liberdade de expressão dos professores, impostas por um ambiente tóxico, são inimigas dessa heterogeneidade, da cidadania e da democracia. Enquanto houver alunos vítimas de bullying nas escolas, de agressões, e existirem suicídios entre alunos, tudo sem consequências, não existe escola, nem cidadania, só cosmética e varrer os problemas para debaixo do tapete, fazemos de conta que fazemos, temos letra morta no papel.
ResponderEliminarCitando o professor João Marôco: " Em Taiwan quando um aluno tem maus resultados a matemática, o diretor chama os pais à escola e pergunta-lhes o que tencionam fazer em relação a isso, em Portugal, quando os alunos têm maus resultados a matemática, os pais vão à escola perguntar o que tencionam fazer os professores em relação a isso". Consultem os resultados dos testes internacionais e comparem estes dois países.
Percebo. Reconheço tudo isso. O que quero dizer, é que até nas ditaduras se ensina para as atitudes e para os valores; e para a cidadania. Quando um professores está na sala de aula com os alunos tudo conta; até as omissões ou os sinais de que não se pode falar disso e por aí fora. Até a personalidade do professor ensina. A pontualidade, por exemplo, ensina.
ResponderEliminarDesculpe insistir, eu sei que se educa pelo exemplo, mas a cidadania não sobrevive com microintervenções, quando se atrevem por razões ideológicas a interferir num curriculum desenhado cientificamente, estão a abrir as portas à barbárie. Os pais depositam confiança na escola quando lhes entregam os seus filhos, como esperar que não seja um espaço seguro, como é possível que os seus filhos sejam devolvidos aos pais mutilados física e psicologicamente? quando ainda por cima são obrigados por lei a frequentar esse espaço. Por que razão os professores se encolhem e não atuam? que autocensura sofrem os professores que lhes congela a ação?
ResponderEliminarPercebo. Nada a desculpar. Francamente. Também discordo que os professores se encolham e não actuem. O que disse é que até quando o fazem transmitem valores principalmente porque haverá quem actue de modo diferente. Mas olhe que há muito de real na sua interrogação: "que autocensura sofrem os professores que lhes congela a ação?".
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