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Pelo Público, em 8 Janeiro de 2026. O texto tem 6 ligações. A leitura na edição online do Público é de acesso gratuito. Como acordado, o texto está publicado no blogue (mas sempre depois da publicação online do Público).
Título: A falta de professores não se deve apenas à burocracia e à indisciplina
Texto:
Sabe-se que os professores fogem do ensino expelidos pelo funcionamento da escola há quase duas décadas. As alterações na carreira, na avaliação de professores e na gestão das escolas, originaram um clima reconhecidamente injusto, burocrata e indisciplinado. E se o fenómeno se agravou porque os governos negaram, durante mais de uma década, a falta estrutural de professores, é igualmente nefasto que continuem a manipular esses dados por conveniência do marketing partidário. Acima de tudo, e se tomarmos agora as decisões certas, essa falta estrutural resolver-se-á depois de 2030 e estabilizará em 2035. Mas, para isso, é crucial conhecer os pontos críticos e encontrar soluções.
Antecipadamente, é muito negativo e indigna os professores, que os governos se limitem às mudanças no desconcentrado nível meso que inclui os ministérios, as CCDR, as CIM e a gestão de fundos estruturais. Para além de não se conhecerem estudos com a necessidade de alterações orgânicas (apenas é notória a ineficiência derivada da partidarização das funções e da proliferação de quadros de divisão administrativa), fazem-no apoiados no nível macro (Assembleia da República) e em desprezo pelo nível micro que integra os descentralizados municípios e o desconcentrado modelo autocrático de mega-agrupamentos de escolas e de escolas não agrupadas.
Por sinal, o actual Governo demonstra-o com a rápida extinção de serviços centrais e regionais (DGAE, DGEstE e IGeFE). Substituiu-os abundantemente por uma Agência de Gestão do Sistema Educativo, I.P., com 11 departamentos, 27 “unidades” e 50 divisões, e ainda transferiu funções e recursos para a DGEPA e para as CCDR.
E há três conclusões sobre esta improdutiva e sistemática inversão de prioridades dos governantes:
1. desconhecem a semântica que abrange as escolas e dominam, quando muito, a sintaxe - seria oportuno, até em tempos de tanta inteligência artificial, rever o texto de John Searle no livro "Mente, Cérebro e Ciência";
2. ficam obrigados a garantir centenas de empregos partidários para as maiorias que os sustentam;
3. acreditam que os professores serão dispensáveis, talvez inspirados por profetas tragicómicos, a maioria ultraliberais, que emergem desde meados do século XX.
Mas, e de facto, há muito que os estudos afirmam que os professores desesperam pela reforma, com destaque para o desrespeito pelos seus horários na relação com o avanço da idade, como concluem agora (2024) que os mais jovens desejam mudar de profissão. A conclusão é concludente: "há uma organização de trabalho que os adoece". Na verdade, a OCDE concluiu em 2015 o mesmo que em 2025 ("reportado por 73,6% dos que têm 5 ou menos anos de experiência"): Portugal é dos países onde os professores mais se queixam da indisciplina e é onde se regista a mais alta taxa de stress com o trabalho administrativo.
Perante os factos, como é que os governos agem no nível micro e nas variáveis essenciais? Simplesmente não agem. O actual anunciou o fim das quotas e das vagas na avaliação dos professores e a alteração no modo de eleger o órgão de gestão. Dois anos depois, nada aconteceu e nem se vislumbra qualquer mudança em 2026.
E o leitor interrogará: os governantes desconheciam os erros destes modelos? Não. Mas a proletarização da carreira era o mais eficaz como corte orçamental e o mais apoiado pela bolha político-mediática. E foi nesse clima que se concretizou, e se manteve durante quase 20 anos, a farsa avaliativa que colocou todos contra todos e o modelo de gestão dos mega-agrupamentos que foi testado, e veementemente desaconselhado, em trinta escolas na década de 1990. Apesar disso, e da evidência de um director plenipotenciário, generalizaram-no.
O PS reconheceu o erro, em Setembro de 2025, e quer "eleger a direcção em lista e evitar a “contaminação” partidária", e, em Dezembro de 2025, não só o Governo afirma uma revisão como há directores que defendem o "regresso ao órgão colegial eleito por uma comunidade mais alargada de professores, funcionários e representantes de encarregados de educação - e não apenas pelo Conselho Geral, que tem, no máximo, 21 membros". Ou seja, os conselhos gerais têm um histórico de irregularidades na escolha dos seus membros e de ilegalidades e de atropelos à lei no concurso público que antecede a eleição do director.
Em síntese, a falta estrutural de professores tem, inequivocamente, uma causa do nível macro - no Orçamento do Estado - e as descritas origens micro, responsáveis pela subalternização da escola como o laboratório da democracia onde deve imperar a colaboração, a criatividade, a inovação e o pensamento crítico.
Duas notas: encontra no texto, de 2022, "Mude-se a escola para que regressem os professores" mais um elenco de soluções; a perda de atractividade da formação inicial só não atinge a Educação Básica (pré-escolar, primeiro ciclo e algumas áreas do segundo ciclo) e a Educação Física, mas o desprezo pela formação nas restantes disciplinas do 3º ciclo e do ensino secundário não deve prosseguir baseada na esperança que se concretizará a dispensabilidade dos professores.
Magistral!!!
ResponderEliminarMuito bom. Sempre na mouche!
ResponderEliminarBrutal Paulo. Explicadinho. Críticas e soluções, para não variar.
ResponderEliminarObrigado, Joana.
ResponderEliminarObrigado, Maria.
ResponderEliminarObrigado, Rute.
ResponderEliminarTenho uma tese que é corroborada por indicios quantitativos de outros países: em média, com 20% da população com formação superior e especializada, gere-se um país (politicamente e economicamente); os outros 80% servem para mão-de-obra precária, temporária e descartável. Assim, não é necessário um sistema educativo sofisticado para instruir 20%, servindo apenas para tutelar os 80% enquanto os adultos trabalham e proporcionando como efeito secundário aprendizagem básica (ler, escrever, contar). Logo, também não são necessárias pessoas especializadas para a docência, mas apenas com literacia média e que sirvam de cuidadores de jovens. O exemplo dos EUA é paradigmático.
ResponderEliminarPortanto, não haverá nenhuma politica que valorize a profissão docente porque já teria sido implementada se existisse essa vontade; foi feito o contrário nos últimos 20 anos porque interessa manter uma desvalorização suficiente para justificar a contratação a baixo custo de desesperados(as) que utilizam a profissão como fonte de rendimento temporário até mudar para outra que almejam.
É um ângulo de análise importante, Mário.
ResponderEliminarÉ isto mesmo! Seria bom que textos desta qualidade e verdade fossem divulgados em todos os meios de comunicação. Ou que também fossem enviados para os políticos e governantes. Por isso há que partilhar pelas diversas redes sociais
ResponderEliminarMuito obrigado.
ResponderEliminarQue tal trazerem os professores que estão nas escolas portuguesas por aí espalhadas, cabo verde, angola, timor.. etc...etc.. já chega depois de 50 anos...nós não queremos que os nissis impostos sejam para isto...já aprenderam agora qud tenham escolas deles...
ResponderEliminarNão resolve a falta estrutural, obviamente. Nem faz sentido encerrar essas escolas. Há soluções que estão testadas. Mas ê preciso vontade política.
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