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domingo, 27 de novembro de 2011

a varanda

 



 


 


O célebre texto de Jean Genet é um desafio para os encenadores. O poder e o sexo são o mote para um texto difícil e profundo que tem como palco um bordel. O retrato das sociedades humanas é tal que o espelho é de convocação obrigatória. Não sei se inspirado nos tempos sobreaquecidos que vivemos, o que é certo é que Luís Miguel Cintra assina uma notável encenação que mereceria o aplauso do próprio Jean Genet. São mais de três horas de teatro; teatro mesmo. A sala da Cornucópia parece-me sempre um espaço em construção e em que os espectadores se sentem parte activa do espectáculo. Ontem voltou a perceber-se o profissionalismo e a elevada qualidade da companhia. A não perder. Pode ler a sinopse e saber mais aquiaqui.


 


"A Varanda é uma das mais comentadas e discutidas peças do século XX. E também uma das mais desejadas e temidas pelos encenadores. Poucos dos grandes encenadores que a trabalharam conseguiram agradar a Genet na sua abordagem (Peter Zadek, Peter BrookErwin PiscatorRoger BlinGiorgio Strehler). Teria sido ao que parece a encenação de Vítor Garcia para Rute Escobar em S. Paulo aquela que mais perto estaria do que Genet podia imaginar quando definia a peça como uma glorificação da imagem e do reflexo. Ao contrário do que o título poderia levar a crer, tudo nesta peça é fechado em si próprio. Entre imagem e reflexo, e anulado o ser, ou a Verdade. Tudo se passa numa espécie de sistema fechado, como uma grande câmara de espelhos: a Varanda é o nome de um bordel ou casa de ilusões, dirigida por Irma e a sua ajudante Carmen. As prostitutas ajudam a construir fantasias para o prazer dos clientes que imitam ou espelham as relações e as estruturas do Poder: a Igreja, a Justiça, o Exército, a Polícia, mas também a relação patrão/escravo e rico/pobre e as relações amorosas. As cenas vão-se sucedendo como variantes da mesma ideia até à cena da própria Morte, associada ao momento da derrota de uma Revolução que não se sabe se realmente se está a passar lá fora, se faz parte da ilusão. Quando a janela da Varanda finalmente se abre sobre a praça e as personagens aparecem à varanda, ela transforma-se em espelho, na imagem que a praça quer ver, a imagem do poder. Numa moldura. E a praça: o poder que a praça glorificaria. Ou melhor, as imagens do poder. A violência política e poética do texto transformam esta peça num espécie de bárbara oratória, talvez um reflexo, ou uma imagem do nosso viver com os outros." 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

não gostei da cidade

 



Foi daqui


 


Admiro o Teatro da Cornucópia e gosto sempre das peças na sala de origem. Embora seja um prazer ir ao Teatro Municipal de S. Luiz, em Lisboa, pelo espaço em si mas também pela envolvência, nem sempre aprecio as actuações que a Cournucópia lá realiza; e desta vez não fugiu a essa regra. "A cidade" foi mesmo a mais fraca que vi na história da companhia.


 


Nos últimos tempos tenho tido escassas oportunidades para espectáculos ao vivo e estava cheio de saudades. As expectativas criadas por quem viu "A cidade", e também pela crítica, deixaram a fasquia bem elevada. Mas como já escrevi, não gostei e percebi que não fui o único com esse estado de espírito.


 


A adaptação dos textos e a encenação transformaram o espectáculo de quatro horas num razoável entretenimento, com raros momentos altos mas com várias cenas ou a roçar a brejeirice ou num registo de revista à portuguesa.


 


O elenco de actores tinha muitos nomes mediáticos (deu para perceber isso nas manifestações do público que enchia a sala), mas que revelaram uma excessiva formatação para o género televisivo e parcos recursos para a actuação no palco teatral; nalguns casos, era mesmo frequente não se perceber o que diziam. O enorme Luís Miguel Cintra, que encenou a peça e adaptou o texto, brilhou, como sempre, em palco; a sua voz, então, destacava-se sobremaneira. Nuno Lopes, que actuou de muletas em virtude de uma fractura de pé no sessão da noite anterior, teve um desempenho muito meritório, embora amiúde também se percebesse mal o que dizia.


 


Mas afinal de que fala a peça? A sinopse, também aqui, diz assim:


 



Sinopse



"Diz-se que foi na Grécia Antiga que nasceu a Civilização Ocidental e que foi em Atenas, vários séculos antes de Cristo, que nasceu a Democracia. Nas comédias de Aristófanes, por sinal um conservador, no violento e insurrecto humor com que nelas retrata a vida daquela cidade ‘perfeita’, nestes textos escritos há 2.500 anos, fomos encontrar o material para a composição do guião deste espectáculo. É com as confusões e as dificuldades da vida numa sociedade que se quer democrática, a corrupção da sua política, o seu desejo de paz, as suas saudades do campo, a maneira como convive com os seus ‘poetas’, as peripécias sexuais e conjugais que se geram na coexistência do público e do privado, em suma, com a vida da polis, e através das mais que inevitáveis semelhanças com os contratempos dos nossos dias, que este espectáculo quer brincar. Uma grotesca metáfora de todas as Cidades, construída por um grande grupo de actores no palco do São Luiz, teatro da cidade de Lisboa."


 


 


Luis Miguel Cintra