Ao passar pelo excelente blogue do Paulo Guinote, dou com um texto, escrito por ele, que subscrevo na integra. Digo mais: é um exercício que deve ser lido com toda a atenção e que contém um conjunto de princípios que deveria ser elementar ao convívio democrático.
Ora leia.
Elogio Da Responsabilidade Individual.
"Tornei-me gradualmente, ainda no início da idade adulta, um descrente em matéria de colectivos. Ainda mais dos colectivos por inacção ou daqueles em que os indivíduos se escondem por entre as massas.
Sei, por observação directa, que protegidos pela multidão, há indivíduos extremamente corajosos, que gritam a plenos pulmões a revolução total e outras coisas igualmente desinteressantes.
Acho que é por isso que não gosto de claques desportivas, sempre fui resistente a manifestações e só vou a enormes concertos musicais quando não pode mesmo deixar de ser.
Por deformação, desconfio das tomadas de posição unanimistas, de braço no ar ou caído. Deve ser por isso que há quem me ache um bocado reaccionário, pois - apesar da prática de trabalho em equipa não me desagradar nada - sou fortemente individualista num sentido algo radical, ou seja, no de que cada indivíduo deve ser responsável pelos seus actos e não se acobertar atrás do colectivo. Seja ele qual for: evangélico, sportinguista, socialista, neo-liberal, fundamentalista, multiculuralista ou mesmo minoritário, que é o tipo de colectivo normalmente mais intolerante, acho eu.
Por isso, mesmo achando de enorme coragem e dignidade as posições assumidas nas escolas e agrupamentos de todo o país e de ter participado este ano em mais manifestações do que participei ou participarei provavelmente em todo o resto da minha vida, considero que a chave de tudo está na nossa coerência individual e na tradução da nossa adesão a determinados princípios em actos concretos.
Se não gostamos deste modelo de avaliação está nas nossas mãos, individualmente, esvaziá-lo ao não nos tornarmos seus colaboradores activos.
O colectivo de que eu mais gosto - talvez mesmo o único - é aquele que se constrói pela soma das vontades e atitudes individuais, conscientes e livres. Não por pressão dos pares ou conveniências do momento.
Já sei que há quem, não sei o quê, não sei que mais, se lá estivesses é que vias como é difícil. Estou farto destas ladaínhas. Por isso mesmo, reservo-me o direito de, individualmente e em nome próprio, tomar as atitudes que só a mim responsabilizam de não adesão a este modelo de avaliação do desempenho ou da sua contestação passo a passo.
Não porque tenha medo de ser avaliado. Felizmente tenho bons resultados da minha prática pedagógica a apresentar e o meu currículo está repleto de avaliações nos últimos 20 anos. Julgo que mais do que qualquer responsável actual do Ministério da Educação.
Apenas porque, se discordo dele, não posso esperar que venha a onda para, disfarçadamente, me incluir nela e ninguém quase dar por isso. E, depois de tudo correr bem, sacar da fotografia e mostrar que estive lá.
Por isso mesmo ignorarei por completo a estratégia da DGRHE de tentativa de recolha dos Objectivos Individuais por via informática e ilegal. Nada na lei me obriga a tal, nada na lei permite ser penalizado por isso.
Quanto ao resto, se necessário for, também tomarei as decisões individuais coerentes com o que tenho defendido. Sem esperar mais pelos colectivos, pelas ondas e pelo fim dos medos alheios, resultado da escassez de convicções firmes."
Absolutamente de acordo, absolutamente, com absolutamente tudo (embora admita ter ido a mais concertos musicais do que o Paulo Guinote me recomendaria). Quanto ao resto, que é o Tudo que importa, irrepreensível.
ResponderEliminarEXCELENTE. Este elogio da responsabilidade individual traduz duma forma irrepreensível o que penso deste processo em que estamos envolvidos. NAS ESCOLAS, local onde temos de demonstrar a nossa coragem duma forma individual, ainda não é possível somar as partes e encontrar o todo (120 mil ). A convicção da nossa liberdade (individual ) tem de ser um facto de experiência.
ResponderEliminarFez bem em destacar este texto, Paulo. Neste momento é necessário destacar atitudes individuais como esta do P. Guinote.
Afinal, quem nunca visionou o documentário" a Marcha dos pinguins" do biólogo realizador francês LUC JACQUET ?
Excelente mesmo. Li-o à hora do almoço e pensei que era merecedor de publicação em tudo o que é Comunicação Social. Acho que não resisto a enviá-lo a algumas pessoas: àquelas que "esperam pela onda para aparecerem"; àquelas que esperam saber quantos fazem greve para depois aderirem ou não; àquelas a quem o medo absorve as suas convicções.
ResponderEliminarBjo
Irrepreensível. Abraço.
ResponderEliminarBela ideia essa, hummmm... abç ou bj
ResponderEliminarIsso Isabel. Mas a unidade, mesmo nos momentos difíceis, exige muita paciência.
ResponderEliminarBeijo.
Também ignorei a tentativa de recolha dos Objectivos Individuais por parte da DGRHE por opção pessoal e porque acredito que é um grande erro de um órgão Director. Eu que não sou nenhum guru da gestão nem pertenço a qualquer direcção, mas sim um Professor de uma das escolas básicas que sente a degradação do ambiente de trabalho por causa deste “Modelo da obsessão” ops … desculpem queria dizer avaliação… (sou daqueles professores que não sabem interpretar textos de pessoas supra-esclarecidas às quais foi atribuído à nascença um cérebro superior, claro e cristalino… desculpem mas esta veia irónica começa-me logo a vaguear) …
ResponderEliminarVisto isto, sou da opinião que uma Direcção, seja lá de que organização for, não se deve envolver em questões operacionais que só dizem respeito à Escola e ao Conselho Executivo. Por isto, este Ministério e respectiva DGRHE , por não deixarem este trabalho (O de se proporem a objectivos, que devemos fazê-lo) para os professores e respectivos conselhos executivos das suas escolas só demonstra que estão a tentar meter o nariz onde não são chamados. Será que já estão tão desesperados…
Isso Paulo. Desespero e mais algumas coisas. Obrigado por passares e por comentares.
ResponderEliminarAbraço.