sábado, 18 de abril de 2009

história

 


 



 


 


 


 


Já por aqui dei conta, diversas vezes, do meu agrado com a leitura dos textos de José Bragança de Miranda.


Encontrei um texto sobre a história que nem justifica palavras de circunstâncias.


Talvez a escrita até esteja um pouco descuidada (um espaço a mais aqui ou ali, uma gralha aqui ou acolá). Devo dizer que isso acontece amiúde no site de José Bragança de Miranda, mas os temas são sempre muito interessantes.


 


Ora leia.


 


 


"História.




Falou-se demais do «fim da história».  A haver um fim, será o de  uma certa imagem da história, que perdeu força e se tornou mesmo prejudicial às finalidades por ela prescritas.


Depois da primeira Guerra desaparece a ideia de civilização, depois da segunda, com o morticínio operado tecnicamente e em que sistemas racionais geriam o transporte em massa dos deportados e a sua aniquilação por químicos cientificamente doseados, desapareceu a própria ideia de uma razão impoluta e levando à «paz eterna». É certo que o problema estava mais na palavra «história», que pressupunha uma narrativa relativamente coerente e que encenava ela própria o seu happy end.  Contra esta visão temos a fantástica frase de Pasternak, ele que estava metido até aos cabelos no problema: «A história não é feita por ninguém, não é possível vê-la, tal como não se vê a erva a crescer». 


Mas é evidente que, de repente, vemos que a erva cresceu, ou que um filho cresceu,  fez-se história sem ninguém a fazer. Não entendo que Pasternak esteja a defender que tudo ocorre espontaneamente, sem saber. Nada disso, a frase citada é uma forma de dar a ver o imperceptível de onde emerge tudo, e também a história.


A primeira vez que li esta frase foi no exergo a L’Herbe de Claude Simon, onde as personagens são habitadas por forças anónimas que fazem surgir coisas que nenhuma preparou nem produziu.  Como apreender este crescer que passa pela materialidade das coisas, mas que não repousa em nenhuma delas? E que é bem mais radical do que a erva que, sem tudo o mais, a terra, a água, as raízes em concorrência brutal, seria possível ver crescer, bastando dar tempo ao olhar? O imperceptível onde se faz a história tem de ser apanhado aqui e agora, como o olhar que vê a erva e não vê a sua mudança. Ela escapa à instantaneidade do olhar. A escrita de Simon torna-se na erva que cresce sem se ver, complicando-a labirinticamente. Na totalidade dos momentos vê-se que cresceu, mas em cada um deles, não. Mas a potência da escrita advém-lhe da afinidade com o estranho poder da fotografia: «Nenhum espírito humano consegue guardar na memória o que foi abraçado pelo olhar numa dessas incessantes fracções de segundo que o tempo faz sucederem-se a uma velocidade de tal modo vertiginosa que mal eu traço a última letra de uma palavra, se tornou passado o gesto do minha mão a desenhar a anterior».


Percebe-se porque não é possível ver o movimento no momentâneo, é que as mudanças imperceptíveis perdem-se incessantemente, caindo numa espécie de «buraco»deixado pelas coisas a mudar. Algo fica sempre para trás, sem deixar vestígios, e que apenas a fotografia pode reter, insinuando-se no espaço ínfimo que está entre o que ainda não existe e aquilo que deixou de existir.  Este tipo de história é primeiramente literário, ou poético. Estando em causa a totalidade dos tempos, das coisas e dos actos, cada traço feito pela escrita da luz, entra num jogo e sombras, de reflexos, de clarões,  através dos quais se faz história.


Elimina-se, então, a estranheza de não existir em nenhum lado, de ninguém a fazer, mas de estar sempre a ocorrer".


 

4 comentários:

  1. Absolutamente fabuloso. Ainda que se trate de uma sinopse é brilhante de clareza e pela luz.

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  2. ... já me ia esquecendo: a imagem que escolheste é outra delícia.

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  3. Obrigado. Também achei de um extraordinária beleza. Obrigado

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  4. Foi mesmo isso que senti: brilhante, como sempre, e claro e luminoso. Abraço.

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