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segunda-feira, 27 de outubro de 2025

O dever de indignação

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Os portugueses adultos são, em regra, filhos, netos ou bisnetos de pessoas analfabetas. No mínimo, e em memória dos seus antepassados, deviam ser veementes na indignação contra quem se refugia na ditadura salazarista. Sabemos que os políticos da escola tutti-frutti refugiam-se nas ditaduras para ocuparem a agenda mediática e acicatarem o ódio, mas há o dever de indignação.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Muito interessante


"História dos portugueses ciganos entra nas aprendizagens essenciais. O caminho está a ser preparado por um projecto de várias associações de professores que visa “resgatar da invisibilidade a componente multissecular cigana da cultura portuguesa”.


terça-feira, 15 de julho de 2025

Comiam tudo

 


 


 


 


É uma história aconselhável a pessoas sensíveis ao sofrimento alheio, embora contenha imagens chocantes. Se ligarem o título à imagem compenetram-se dos perigos que vão correr. Quero convocar seres deste universo e partilhar o destino de uma das minhas memórias. Só tive uma dúvida: se seria um abuso usar a imagem de um tubarão numa história tão violenta, porque sei, pela voz da ciência, que estes animais são normalmente inofensivos e que a sua ferocidade é a reacção natural de quem é habitado pelos medos do mundo; como os humanos, afinal.


Acredito que serei absolvido. Parece-me palpitante começar uma narrativa desta maneira e antes de vos subir o pano não resisto a fazer uma declaração de princípios. Sempre que assisto a um discurso ministeriável para uma plateia de professores - e aconteceu uma coisas dessas, recentemente, num congresso de professores de história - reforça-se a necessidade dos jovens treinarem a memória através dos exercícios de cálculo na matemática. Pergunto-me repetidamente: então e a história? Ficarão os jovens mais preparados para enfrentarem os domínios da razão com a tabuada na ponta da língua ou com o conhecimento da história? Se tivesse que optar, escolhia as duas. Para ilustrar esta excêntrica conclusão, vou vos dar a conhecer como os encantos da infância podem ser ensombrados pelos relatos da investigação histórica.


A história passa-se em duas praias. No Tohofinho, uma das belas praias de Inhambane, cidade moçambicana, e na Foz do Arelho, a praia das Caldas da Rainha, cidade portuguesa. Entre uma e outra, esboroou-se um encantamento com mais de 30 anos.


Decorria o ano de 1971, tinha 11 para 12 anos e vivia na cidade de Maputo. As férias grandes eram intermináveis. Uns vizinhos convidaram-me para passar um mês, dos três que essas férias nos abençoavam, na cidade de Inhambane. Era preciso percorrer cerca de mil quilómetros para se chegar à cidade suave. Uma catedral erguia a centralidade da terra da boa gente, por baptismo de Vasco da Gama, que acolhia muitos cidadãos indianos e paquistaneses. Aparentava uma pacífica coabitação entre culturas.


Bastava percorrer uma ou duas dezenas de quilómetros para sermos presenteados com uma das belas praias que rodeavam Inhambane. O Tohofo (lê-se tofo) era a nossa escolha. Praia quente, de águas imaculadas e impossível de descrever. Pouco habitada, com um hotel, uma estância balnear de ferroviários e pouco mais. Uns poucos quilómetros antes de se chegar ao Tohofo, aparecia uma picada para o Tohofinho.


É do segundo lugar que a minha memória guarda as imagens que me fizeram escrever este texto. Os jovens chegavam diariamente ao Tohofinho pela praia. Centenas de metros percorridos de modo pedonal e sempre com a mente desperta para o aviso dos perigos mortais. O Tohofinho tinha uma rebentação fortíssima e era um albergue de tubarões.


Na fronteira das duas praias, erguia-se um invulgar rendilhado rochoso. Na maré vazia, a natureza oferecia-nos belas piscinas naturais. Foi numa dessas piscinas que tive a sensação única de tocar num tubarão vivo; pequeno é certo, já que esta história não vos é contada por um caçador de leões ou elefantes.


Guardo dessas férias a ideia de ter estado no paraíso. Passados 33 anos, e imaginem como cenário uma esplanada da não menos bela Foz do Arelho, lia uma entrevista da historiadora portuguesa Dalila Mateus. Que arrepio. A tese da investigadora apresentava argumentos para se considerar como genocídio a presença portuguesa nos territórios coloniais. Entre outros relatos, Dalila Mateus contou algumas atrocidades cometidas pela PIDE. Salientou a prática comum de se lançarem aos tubarões do Tohofinho - em plena primeira metade da década de 70 do século XX - os presos políticos negros. Em que águas límpidas terei eu nadado?


(Texto reescrito. 1ª edição em Maio de 2004)


 

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Da lei de ferro das oligarquias; e como estamos quase dez anos depois?

Em 2014, escrevi assim:


É indisfarçável: qualquer troca de opiniões sobre política tem conclusões comuns: os poderes financeiro, económico, comunicacional e tecnológico apoderaram-se da democracia; os políticos profissionais já nem se caracterizam pelo apego à cor partidária: sobrepõe-se o interesse pessoal.


No dia 22 de Abril de 2014 viajei de automóvel entre as Caldas da Rainha e Lisboa. Ouvi na antena 2 uma entrevista a um recém-doutorado (pareceu-me que se apresentou como politólogo, mas não fixei o nome) sobre a lei de ferro das oligarquias (LFO) nos partidos políticos. Googlei o assunto. A matéria passou ao lado dos média mainstream. O conceito LFO foi primeiramente observado por um sociólogo alemão (Robert Michels) no início do século XX. Explicava o modo como se escolhiam as liderança partidárias nos partidos de governo. Mais do que os eleitores em geral ou os militantes partidários, as escolhas que originam as chefias dos governos são determinadas pela LFO.


O doutorado português olhou para o nosso momento e encontrou a LFO nos principais partidos aos mais diversos níveis. O PS e o PSD têm as oligarquias muito estruturadas.


Estas conclusões não são uma novidade. Parecem naturais e capazes de proteger as sociedades dos populismos. Partidos políticos, sindicatos e inúmeras organizações abertas são basilares para a democracia; e até os agrupamentos secretos.


A História diz-nos que os diversos tipos de sociedade tiveram um destino comum, por mais elevados que fossem os princípios ideológicos: o colapso. A dificuldade em fiscalizar a ganância deitou tudo a perder. Diito de outro modo, a prevalência do mal, e a sua construção sistémica, originou as quedas.


Percebe-se a preocupação com o estado da nossa democracia. Espelha-se nas mais variadas latitudes. A promiscuidade entre partidos e sindicatos, e entre os citados e as organizações secretas ou do mundo financeiro, associada à sofisticação tecnológica e comunicacional, entrou em roda livre. A incapacidade para mudar o estado das instituições existentes aumenta o receio de que a queda só termine com uma grande convulsão.


E como estamos quase dez anos depois?

quinta-feira, 1 de junho de 2023

Era já uma Viena trágica


"(...)Era já uma Viena trágica. Não podemos esquecer o paradoxo: a matriz - se assim me atrevo a dizer - da nossa cultura moderna, do nosso modernismo, e até mesmo pós-modernismo, mas já à sombra de um anti-semitismo cada vez mais feroz, e, sobretudo devido á catástrofe de 1914-1918, o troço decepado de um império que procurava - já então - o seu futuro na direcção da Alemanha.(...). Veja bem que foi um presidente do município de Viena, Karl Lueger, um homem muito importante, quem lança verdadeiramente as bases do programa que será o do seu discípulo, Hitler, visando a eliminação dos judeus na Europa. Há um ponto de pormenor que me obsidia: a palavra, medonhamente feia em alemão, "Judenrein", que significa "limpeza étnica": regiões, cidades, organizações, onde deixará de haver judeus: É o clube de bicicleta da cidade de Linz que inventa esta palavra em 1906.(...)"


 


 


 


Steiner, G. e Spire, A. (2000:16)


Barbárie da Ignorância


Lisboa


Fim de Século


sábado, 22 de abril de 2023

Em memória de João Serra (1949-2023)

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Durante muitos anos fomos vizinhos, mas as nossas conversas foram quase sempre virtuais. Vim residir para as Caldas da Rainha em 1989 e conheci o João Serra nessa altura. Passámos a conversar com frequência. O João Serra tinha um conhecimento profundo sobre vários assuntos. Há algum tempo que estranhava a sua ausência. Que descanse em paz.


Um amigo comum recordou-me esta passagem do seu blogue. O texto que o João me ofereceu é muito pertinente. Caracteriza o tempo que estamos a viver na educação e as intemporalidades que nos impedem de crescer como país. Foi publicado em 1981 e o João ofereceu-mo no seu blogue em 2008. Insiro também o comentário que fiz na altura.




"Na árvore do Natal (6) "



"Aos comentadores mais assíduos deste blog, uma lembrança de Natal. Esta é para Paulo Prudêncio.
A escritora Eduarda Dionísio, autora do texto escolhido, foi dirigente do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa, em 1978/79.

 

- Temos que agir dentro das próprias aulas - diz Ivone. Recusar os alunos se forem mais de 25, recusar as partes dos programas que nos repugnam, recusar de facto as horas extraordinárias, recusar as tarefas de secretaria, recusar o que ultrapasse o nosso horário de trabalho.

- Qual é o sindicato que te apoia? - pergunta Carlos. Não é este que temos com certeza. Estes sindicatos que avançam pedindo licença, esperando que os deixem passar, não chegando nunca à primeira fila e assistindo ao espectáculo só pelo som. Aceitam dispor-se num palanque para assistir à parada na ordem hierárquica que sedimentam. Aceitam sentar-se à mesa do banquete segundo as regras da Baronesa X: à direita da dona da casa e à esquerda, à esquerda do dono da casa e à direita, assim por diante, nos topos da mesa, ao meio. Estes sindicatos que pedem licença para incomodar.

- Não tínhamos nenhum antes do 25 de Abril - diz Alberto. E não foram vocês que o fabricaram. Onde estavas tu, Carlos? Que fazias? Rezavas missas, ouvias os pobres pecadores em comunhão, oprimias os pensamentos livres, destruías os sentimentos espontâneos que se formavam nas aldeias, nos campos, que atrofiavas, deitando-lhes vinagres como em estômagos, por funil, regando de fel a serenidade dos camponeses, borrifando-os de soda cáustica. Ah! é verdade, estavas nas colónias.

- A contestação não leva a nada - diz Raquel. O sindicato tem que ter força para negociar. Raquel vê as grandes salas, as grandes mesas, os blocos de apontamentos, os dossiers - dum lado o poder, com gravata; do outro, os sindicatos em mangas de camisa. Falam alternadamente, de acordo com uma ordem que ambos sabem, com uma distância e uma frieza  estabelecidas. Terão ou não os resultados pretendidos. À noite, os dirigentes farão o comunicado que talvez transmitam pela rádio à meia-noite.

- Negociar o quê? - diz Carlos. Carlos só sabe as palavras que se trocam entre os sindicatos e o poder e que nunca ninguém conhecerá, as promessas que se fazem sem cumprir, as cedências mal medidas, que se escondem - os comunicados fabricados com demora, monumentos de verdades e mentiras, frases com minutos, horas, ameaças, exclamações. Temos é que ser capazes de impor - diz Carlos.

- Temos que falar com as pessoas - diz Alberto. Há tantas pessoas que exercem o poder e que pensam como nós. Saber tocá-las, lembrar conhecimentos antigos, expor as razões que temos, não assustar. Tu, por exemplo, A., quando chegas, assustas as pessoas que nas secretarias fazem todas as planificações e preparam as ordens, os decretos, os ofícios, as circulares, as portarias. Assusta-las, inunda-las de água fria e então esbracejam, dizem que não, receiam, muram-se. Que falta de tacto, A.!

- Com que pessoas? Não te podes esquecer que são inimigos que tens à tua frente - diz Ivone. Podem ir almoçar a tua casa, podem ir contigo a manifestações a favor da reforma agrária e pela unidade sindical, mas naquele momento, Alberto, naquele momento são teus inimigos, são nossos inimigos, querem pura e simplesmente que o sistema capitalista do ensino que temos continue a funcionar, querem que nós sejamos funcionários duma grande empresa que oprime, que nos oprime, que oprime os trabalhadores, querem impor que não haja política na escola e o regresso ao que tínhamos antigamente que suportar.

- Tens que falar. Mas a maneira conta - diz Marília. Têm que ser agredidos. Temos que ser ferozes. És tu, A., que sabes falar-lhes com essa violência nas sílabas. Porque te calas, A.?

- Saberemos alguma vez conciliar o sindicalismo de negociação com o sindicalismo de contestação - pensa Manuel. Será possível conciliar? Será desejável? Em França é a CGT que negoceia, a CFDT contesta, pelo menos nas escolas. Manuel sente-se mal naquelas sessões morosas onde tem sido obrigado a estar: uma mesa; papéis brancos e escritos à máquina, outros impressos, em cima da mesa, sublinhados de várias cores, números à margem e letras, com círculos que não fecham em redor.

 

Eduarda Dionísio, Histórias, Memórias, Imagens e Mitos duma Geração Curiosa. Lisboa, Círculo de Leitores, 1981. p. 328-330

 






COMENTÁRIO:




Paulo Prudêncio disse...


 


Olá João Serra.

Mas que bela lembrança, muito obrigado. Não imagina o sorriso que tomou conta de mim ao ler está bela peça da nossa história. Não conhecia a obra, mas vou à sua procura. Tenho ideia que a autora é filha do escritor Mário Dionísio.

Tem piada: nestas alturas, de mudanças mais drásticas no calendário, faço sempre um espécie de balanço: tenho dado comigo a registar a "obsessão" que tomou conta da minha mente no ano que se prepara para acabar: a luta dos professores. Estava certo: até o João deu conta disso :)

E, para continuar a conversa que noutro dia interrompemos, essa peleja está para continuar: é certo que a luta pelo ensino público é infinita, mas a causa dos professores tem uns picos de intensidade: neste momento estou nas tréguas natalícias.

Mas voltando à sua bela e comovente lembrança, há dois aspectos que me atrevo a salientar: ao longo destes últimas duas décadas, várias têm sido as minhas causas: há momentos em que me assusta o facto de me confundir com elas de um modo tal, confesso-o, que as minhas divagações vão sempre ao seu encontro; e isso perturba-me um pouco, dá-me ideia que dali já não consigo sair: passei por uma fase assim nos últimos tempos; sentia-me como que a consumir-me intelectualmente: a experiência já me diz que isso passa para voltar com outra razão do género: já vou aprendendo a viver com este tipo de vicissitudes, assim o espero;

se estivéssemos perante um peça de teatro, escolhia a personagem de nome Manuel; faltaria, claro, a concordância do encenador: sabe-se da importância transcendente do casting no sucesso de uma qualquer representação, mas estou convicto que o persuadiria.

João, muito obrigado.

Aquele abraço, forte e fraterno, e os desejos das mais felizes festas para si e para os seus (extensivo aos que lerem este comentário, claro).

Paulo Prudêncio.








quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

"A solidão das lutas" - Uma pessoa até se belisca a ler estas coisas com quase 10 anos


"A solidão das lutas" - um texto de 28 de Junho de 2013


"Uma coisa os professores devem ter percebido, como os funcionários públicos perceberão, como os estivadores, ou os trabalhadores dos transportes, já tinham percebido. É que se quiserem resistir à avalanche que lhes caiu e cai em cima, estão sozinhos. A boca cheia da solidariedade é apenas isso, mas cada grupo profissional só pode contar consigo próprio para tentar travar a acentuada desqualificação da sua profissão, o reforço do autoritarismo de proximidade, de chefes e directores, os despedimentos colectivos, o aumento por decreto do horário de trabalho, a violação de todos os contratos e direitos. 

 

Pode contar com a hostilidade de uma parte da população, acirrada pelos inconvenientes das greves, pelo discurso de guerra civil do governo e por uma comunicação social que, mesmo quando é muito da esquerda festiva e cultural, muito simpática com o folclore dos “indignados”, é hostil às lutas, às greves e aos sindicatos. Um dia, uma análise do grupo profissional dos jornalistas, explicará muito sobre como as fraquezas da profissão originam um dos discursos mais masoquistas, muito próximo do discurso do poder.

 

 A solidão dos que reagem e não se bastam com manifestações de protesto que a mediatização trivializa, só pode ser invertida se os seus actos forem corajosos, unidos e massivos no âmbito profissional. Ou seja, com risco. Se mostrarem força, terão força e arrastarão consigo solidariedades que nunca terão com protestos “simbólicos”. E terão a simpatia de muitos que ou são indiferentes ou egoístas, porque, nesse momento, então sim, as lutas de resistência à iniquidade destes dias de lixo comunicam entre si. Nessa altura, polícias reconhecer-se-ão nos professores, e pessoal da CP e da Carris nos polícias, os professores nos estivadores, os funcionários públicos nos trabalhadores têxteis, os despedidos de uma fábrica nos reformados, os enfermeiros nos jovens à procura do primeiro emprego e nos desempregados de longa duração. O mundo do trabalho no mundo do trabalho.""

 

José Pacheco Pereira


 

 

 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Horizonte Cosmopolita


"Há ocasiões na história, como na vida, em que faltam as pessoas necessárias e outras em que faltam as condições embora os actores estejam bem preparados. Pirandello criou uma grande metáfora para nos fazer compreender que falta sempre qualquer coisa na realidade, que a vida, a sociedade, são uma grande montagem precedida de ensaios nos quais se vai verificando que tudo está no seu lugar, que ninguém falha a sua função e que as responsabilidades estão asseguradas. Muitas vezes, já redigida a tabela e mobilizados os actores, não se vê em parte nenhuma aquele que devia ter construído a encenação, a inteligência que aproveita a oportunidade, a instância que põe em acção as novas regras do jogo."



 



Innerarity (2010:253)


O novo espaço público. Lisboa: Teorema


 


terça-feira, 23 de agosto de 2022

Do Risco e das Utopias


Com todos os riscos de quem retira do contexto uma passagem, não resisto a citar Ulrich Beck (2015:22) "Sociedade de risco mundial - em busca da segurança perdida", Lisboa, Edições 70,



"(...)o risco constitui o modelo de percepção e de pensamento da dinâmica mobilizadora de uma sociedade, confrontada com a abertura, as inseguranças e os bloqueios de um futuro produzido por ela própria e não determinada pela religião, pela tradição ou pelo poder superior da natureza, mas que também perdeu a fé no poder redentor das utopias.(...)".



A perda da "fé no poder redentor das utopias" indicia um risco de decadência se não se circunscrever ao inevitável cinismo com que a maturidade olha para a prevalência do mal. Se a descrença nas utopias e no combate às desigualdades atravessar todas as gerações, a decadência entranha-se; como a história, de resto, já nos explicou.


sábado, 9 de julho de 2022

Quantos Mais Anos Se Vive

Quantos mais anos se vive, mais se percebe que o revisionismo histórico faz-se em todos os quadrantes e até em nome do sentido de Estado.

terça-feira, 24 de maio de 2022

De Círculo Vicioso a Círculo Virtuoso


As nações são ricas se conseguiram, diz a história da economia política, desenvolver instituições inclusivas durante três séculos. Ou seja, entram em círculos virtuosos. Mas não basta uma revolução como a Gloriosa de Inglaterra (1688) ou Francesa (1789): em princípio, tudo começa aí: criam-se instituições inclusivas, mas só com muita determinação e altruísmo é que se consegue que a lei de ferro das oligarquias não se imponha aos novos poderes com o objectivo de perpetuar círculos viciosos.


E vem isto a propósito da discussão sobre as sociedades secretas. Algumas, e ao que julgo saber, tiveram ao longo da história um papel importante na defesa da liberdade e da democracia. Contudo, a actualidade é diferente. É voz corrente que essas organizações controlam os poderes central e local e que o secretismo parece que facilita negócios concertados entre partidos políticos que se opõem; digamos que é uma espécie de cartelização.


E repare-se num detalhe histórico fundamental: as organizações extractivas obedecem a uma lei que se denomina por lei de ferro das oligarquias (entre outras variáveis, respeito férreo pelas hierarquias); e a essência dessa lei é conseguir limitar quem toma o poder. A história está cheia de imposições dessa lei de ferro, até nas colónias e nas pós-independências.


Acima de tudo, os círculos viciosos são muito mais poderosos do que o que se podia pensar. Até Abraham Lincoln caiu nesse logro. Os círculos viciosos baseiam-se em fenómenos conhecidos: instituições políticas extractivas criam instituições económicas extractivas que, por sua vez, apoiam as instituições políticas extractivas. Ou seja, é uma simples formulação: a riqueza e o poder económico compram o poder político e as organizações secretas parece que são lugares estratégicos para que se institucionalizem os círculos viciosos.