"Nestes dias que correm de conflito no sector da educação ninguém contestará que as mudanças introduzidas pelo governo têm levado às mais variadas reacções vindas dos mais diversos sectores políticos e sociais. Se parece amplamente justificável que o governo tenha definido a reforma da educação como uma das suas prioridades estratégicas, as evidências trazidas a público sobre a ineficiência dos mecanismos de gestão agora introduzidos sugerem que estas reformas estarão mal fundamentadas. Impregnadas de um espírito autoritário, excessivo controle de gestão e burocratização da avaliação dos professores, as práticas de participação democrática nas escolas tendem a desvanecer-se, apresentando-se a colegialidade e a participação cidadã como obstáculos à modernização da escola pública. Este é um paradigma perigoso para o exercício da cidadania, a que o MIC não pode deixar de dar a sua maior atenção.
Talvez não seja por acaso que, num recente editorial da Revista ops! Manuel Alegre afirmava que a Escola Pública e as Universidades têm de formar cidadãos e não apenas quadros empresariais. O exercício da cidadania não se faz sem uma educação democrática e emancipatória. E a cidadania também não se faz sem diálogo. É por isso que o actual impasse na resolução do conflito não é só prejudicial para o sistema educativo como um todo, mas também pelo mau exemplo que o entrincheiramento dos nossos políticos em posições inflexíveis dá aos nossos jovens, cidadãos do futuro. Neste contexto, é preciso pensar claro e agir em conformidade. Parece cada vez mais consensual, em todos os sectores da sociedade portuguesa, que as reformas na educação recentemente introduzidas precisam ser redimensionadas, ou mesmo extensivamente repensadas. O orgulho e o calculismo político não devem sobrepor-se a uma questão tão importante como a educação. São os nossos estudantes e alunos, jovens cidadãos do futuro, que mais estão em causa neste conflito."
Nuno David
Professor
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