
"(...) Na idade em que os Nomes, por nos oferecerem a imagem do icognoscível que neles vazámos, justamente porque designam para nós também um lugar real, nos forçam por isso mesmo a identificar um com o outro, a tal ponto que numa cidade partimos à procura de uma alma que ela não pode conter mas que já não temos o poder de expulsar do seu nome, não é apenas às cidades e aos rios que eles conferem uma individualidade, como acontece com as pinturas alegóricas, não é apenas o universo físico que matizam de diferenças, que povoam de maravilhoso, é também o universo social: então, cada solar, cada palácio ou palacete famoso, tem a sua dama ou a sua fada, assim como as florestas têm os seus génios e as águas as suas divindades. Por vezes, oculta no fundo do seu nome, a fada transforma-se em conformidade com a vida da nossa imaginação que a alimenta; e assim era que a atmosfera em que a senhora de Guermantes existia em mim, depois de durante anos não passado de um reflexo num vidro laranja-mágica e de uma vitral de igreja, começava a desvanecer as suas cores, quando sonhos muito diferentes a impregnaram da espumante humidade das torrentes. (...)"
Marcel Proust,
"Em busca do tempo perdido",
tradução de Pedro Tamen,
volume 3 página 10.
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