
Quem quer que se meta na aventura de reflectir sobre o estado do sistema escolar português pode escolher os mais variados pontos de partida. A minha opção navega na história mais recente e encontra no tratamento da informação o seu desígnio primeiro.
Podia optar por outra designação: "sistema escolar por blocos". Mas a ideia de bloco da precaução tem duas vantagens: é o bloco que mais asfixia o privilégio de ensinar e pode tornar mais inteligível o que quero exprimir.
Consideremos três blocos e caracterizemo-los então.
O bloco do ensino é o lugar que determina toda a actividade que cada um dos professores faz dentro da sala de aula; neste imenso universo deve centrar-se a sua avaliação do desempenho, onde é indiscutível que cada professor deve estar sempre preparado para fundamentar as suas opções científicas e didácticas e os critérios que escolheu para avaliar os seu alunos.
O bloco da organização escolar é o espaço que se destina a criar as melhores condições para que cada uma das aulas se realize: é a sua primeira finalidade. Solicita aos professores duas informações: a classificação de cada um dos alunos e a respectiva assiduidade. Deve seleccionar a informação que pretende obter para a fornecer em tempo real e com a exigência que produza conhecimento. Este bloco deve ser dirigido por um professor e tenho ideia que será melhor conduzido por aqueles que revelem um desempenho muito profissional no bloco do ensino.
O bloco da precaução caracteriza-se por um universo informativo que é obtido apenas para arquivo e que existe por dois motivos: ou porque está determinado de modo central, muitas vezes com a supervisão das auditorias externas (vulgo Inspecção-geral da Educação) dos serviços centrais do ministério da Educação, ou porque emergiu das invenções técnico-pedagógicas em que se transformaram o ministério da Educação e as escolas de formação de professores. E aqui encontramos um inumerável elenco de invenções burocráticas: inúmeras actas e relatórios sem parâmetros indicadores de informação estruturante, projectos educativos impossíveis de avaliar, projectos curriculares de turma e de escola, programas educativos individualizados, documentos definidores de objectivos com designações variadas de acordo com os gostos e os feitios dos promotores de ocasião, e por aí fora numa lista que podemos considerar como quase interminável.
Este bloco da precaução, que foi construído paulatinamente ao longo de anos e que criou um muro de burocracia no exercício da gestão da informação escolar, é tão difícil de derrubar que essa tarefa só é comparável à queda do muro de Berlim.
Sobre o muros dos professores portugueses escrevi, em tempos, assim:
“há muros por tantos lados que o seu porvir é tão diverso quanto os propósitos das suas edificações. Quando a liberdade dos homens esbarra num qualquer aglomerado, de tijolos ou de verdades incontestáveis, e por muito consistente que seja a argamassa que as compõe, o obstáculo acaba por ceder e cai de modo drástico e estrondoso. O que mais impressiona nas quedas, e remeto-me para a do muro de Berlim, é a incredulidade dos que estiveram anos a fio do lado errado: em muitos casos, começaram por crer nas virtudes dos dogmas; depois, sustentaram as suas vidas na acomodação aos manipulados e "cinzentos" privilégios dos funcionários médios e superiores dessas sociedades; por fim, acabaram como defensores acérrimos de burocracias monstruosas, repetitivas e desprovidas de qualquer sentido libertador da condição humana.
A situação dos professores portugueses pode explicar-se do mesmo modo: imersos num tentacular assombro burocrático, que começa no "muro" da 5 de Outubro para alastrar-se à restante máquina administrativa, os professores, indignados e saturados, e sem liberdade para ensinar, ecoam os seus protestos dos lugares mais recônditos do país até ao histórico Terreiro do Paço. Incrédulos, os funcionários do chamado "eduquês" ("uma industria que move milhões") estão atónitos, mas ainda esperançosos: têm, nas equipas que têm governado o ministério da Educação, uma força de vanguarda e um último e desesperado bastião. Não é fácil assistir a uma queda sem fim e presenciar a ruína das convicções mais profundas, trabalhadas árduamente durante décadas.”
A institucionalização do bloco da precaução, e a sua aparente autoridade, parte dos serviços centrais do ministério da Educação e alarga-se de um modo “impensado” à organização da maioria das escolas. A sua operacionalização através dos recursos humanos que requisita é responsável por um custo financeiro que tem tanto de volumoso como de ineficaz.
As invenções burocráticas devidamente preenchidas, são, por precaução, a única consciência profissional de muitos estabelecimentos de ensino. E isso retira sentido de autonomia, de responsabilidade e gera fenómenos de subserviência, de medo e de despesismo financeiro
Só assim foi possível verificar um conjunto denominado de boas práticas que tornava "exequível" aquilo que depois se provava ser inaplicável: é essa uma parte crucial da história recente da avaliação do desempenho dos professores e do arrastamento insuportável desta coisa sem pés nem cabeça. Quando se tentou perceber as boas práticas das escolas ditas de referência, o ridículo eliminou rapidamente a visibilidade mediática que se quis impor. Também por precaução se deixou de falar nisso.
Este texto é como uma bússola quando indica o norte. Outros o leiam.
ResponderEliminarTens razão Paulo. Estamos numa fase em que andamos aos sss e uns contra aos outros.
ResponderEliminarLucidez e conhecimento profundo da "escola".
ResponderEliminarA qualidade do costume, carago.
ResponderEliminar... para evitar mal-entendidos.
ResponderEliminar" As invenções burocráticas devidamente preenchidas, são, por precaução, a única consciência profissional de muitos estabelecimentos de ensino."
ResponderEliminarConsola-me saber que alguns dos criados do ME nas Direcções Regionais lêem o teu blog.
Hoje, a qualidade das escolas mede-se pela quantidade de papéis que a IGE pode consultar em pilhas de dossiês, carregados de actas e mapas, planos e projectos. Já para não falar dos eficientes programas informáticos que nem sequer te dão, a título de exemplo, o total de alunos por escola e por turma.
CERTEIRO!!! Muita lucidez e muito conhecimento. Subscrevo.
ResponderEliminarFalar do que se sabe e com provas dadas. É como diz a Isabel: que te leiam
ResponderEliminarBrilhante descrição.
ResponderEliminar"Burocracia é um conceito administrativo amplamente usado, caracterizado principalmente por um sistema hierárquico, com alta divisão de responsabilidade, onde seus membros executam invariavelmente regras e procedimentos padrões, como engrenagens de uma máquina. É também usado com sentido pejorativo, significando uma administração com muitas divisões, regras e procedimentos redundantes, desnecessários ao funcionamento do sistema."
ResponderEliminarExcelente.
ResponderEliminarGrande texto. Grande prosa. Que o leiam muitas vezes, vezes sem conta. Parabéns.
ResponderEliminarExcelente texto. Porque será que alguns parecem não sentir o que aqui tão bem se identifica e descreve?
ResponderEliminarMagistral. Texto divinal. Claro como água cristalina.
ResponderEliminarLucidez e sabedoria.
ResponderEliminarmuito bom
ResponderEliminarOlá,
ResponderEliminarEstou contigo no que diz respeito ao tempo excessivo gasto pela escola em coisas que não passam de mera "precaução".
Duvido da produtividade da conceptualização dos blocos referidos.
O ensino não pode ficar relegado para a solidão do professor no espaço da aula, nem mesmo para os conselhos de turma e os grupos de disciplina. A direcção da escola tem uma função pedagógica desde o princípio, pois toda a decisão burocrática tem um aspecto pedagógico. Não se trata só de criar as condições para o mester dos professores.
Por exemplo, a formação das turmas é uma questão pedagógica de primeira linha. As opções devem ser discutidas em termos de rendimento escolar, percurso anterior dos alunos, previsão do tipo de trabalho que será possível realizar com essa turma, tendo em conta o percurso anterior dos alunos, etc.
As normas de progressão fazem parte da organização da escola. Não está escrito em nenhum texto sagrado que um aluno transita de ano com duas negativas ou menos. Trata-se de algo arbitrário, um mero coeficiente de qualidade, que pode ser mais ou menos exigente. O que se faz com os alunos que falham constantemente o medíocre critério em duas determinadas disciplinas?
A classificação em níveis (1 a 5) é da responsabilidade do professor e dos conselhos de turma, mas o significado de cada nível na escala subentende uma interpretação particular das metas de aprendizagem do currículo nacional feita pelos grupos de onde resulta que a leitura duma pauta é a coisa mais difícil do mundo. A isto juntam-se em antecipação decisões de progressão do aluno a imiscuir-se na classificação.
Isto é um imbróglio!
Viva Luís.
ResponderEliminarSim, claro. Este assunto requer um espaço que ultrapassa um muito o registo do tipo blogue. Bloco de precaução, estamos de acordo. E isso é o mais importante.
Se reparares, no bloco do ensino escrevi assim: "O bloco da organização escolar é o espaço que se destina a criar as melhores condições para que cada uma das aulas se realize: é a sua primeira finalidade. Solicita aos professores duas informações: a classificação de cada um dos alunos e a respectiva assiduidade. Deve seleccionar a informação que pretende obter para a fornecer em tempo real e com a exigência que produza conhecimento. Este bloco deve ser dirigido por um professor e tenho ideia que será melhor conduzido por aqueles que revelem um desempenho muito profissional no bloco do ensino."
Repara nas duas últimas frases? Parece-me que vão ao encontro do que referes.
Não é um imbróglio, se me permites: é simplificação a sério e liberdade para ensinar e aprender.
Olá,
ResponderEliminarNão há dúvida que as constantes medidas de precaução não passam de uma forma de manter a coerência entre o discurso ideológico do estado e a realidade. Os professores, tal como o sr , Winston do 1984 de Orwell , são produtores massivos de dados que confirmam o discurso ideológico da igualdade escolar e do rendimento escolar.
Se os alunos reprovam é por causa dos professores que não deviam fazer isso, mas se passam sem saber, também isso é culpa dos mesmos. O ministério criou normas que definem quem passa e quem chumba (agora com outros nomes), para obrigar os professores a passarem quase toda a gente e a assumir a responsabilidade por tal.
O bloco da precaução consiste em produzir documentação que prova que foi tudo feito de acordo com o discurso normativo, ainda que no terreno tudo continue na mesma.
Perdão,
ResponderEliminarO imbróglio refere-se apenas ao meu penúltimo parágrafo não ao teu texto. É toda esta manipulação de resultados, a facilidade com que se mudam os níveis, quer pelos professores, quer pelos conselhos de turma, a ausência dum critério que nos permita compreender uma simples pauta!
Viva.
ResponderEliminarClaro. Não tinha percebido: tudo muito a correr
Viva Luís.
ResponderEliminarMuito interessante. Nunca tinha visto a coisa dessa perspectiva Orwelliana: boa pista