domingo, 13 de junho de 2010

novo corte na coluna vertebral

 


 



 


(A reedição deste post deveu-se a uma discussão na blogosfera à volta da crítica aos sindicatos de professores, nomeadamente ao que tem milhares de professores sindicalizados incluindo as minhas cotas mensais desde os finais da década de setenta do século passado. Na minha modesta opinião, deveria tratar-se duma discussão de factos e de políticas. Desde logo, da não limitação de mandatos nos sindicatos e da passagem - legal, claro - de dirigentes sindicais fervorosos, e radicais, para as DRE´s e para o governo e o facto de continuaram esse fervor mas ao serviço duma agenda neoliberal. Por que raio de motivo é que se há-de desconfiar politicamente, ou confiar - no meu caso, depende dos dias - dos agentes partidários e não dos sindicais? É isso justo? Pode confiar-se  politicamente assim tão cegamente nos dirigentes sindicais? Estamos a falar de pessoas. Sem elas não há ideologias. E repito-me: os mais cínicos vêem nas ideologias um conjunto de interesses inconfessáveis. Fico triste com algum resvalar da discussão, confesso. Estou nisto do modo que se conhece e nunca num qualquer jogo de alta competição. Sei bem contra o que luto, ou melhor, sei bem o que defendo: a liberdade e a democracia.)


 


Nos últimos dois dias não tive tempo para o blogue. Apenas um ou outro post a replicar notícias que me pareceram relevantes. A meio da semana apercebi-me que havia uma greve marcada para 4 de Março. Achei estranho.


 


Sou defensor da responsabilidade individual e nada dado a estratégias para a movimentação de grandes grupos de pessoas. Normalmente participo nas acções de luta e limito-me a dar a minha opinião sobre os seus efeitos.


 


Os que me conhecem bem consideram-me um diplomata; aprecio a tolerância, não me levo demasiado a sério e ouço os outros com atenção. Mas quando caminho de forma convicta num determinado sentido não oscilo; sei que o tempo acaba por colocar a razão no seu devido lugar. O exemplo e as posições difíceis podem ser impopulares numa fase inicial; mas só isso: numa fase inicial.


 


Quando me parece que uma acção de luta não está a ser bem pensada, não o refiro num espaço assim e faço chegar a minha opinião, se for caso disso, a quem de direito. Não gosto de contribuir para uma qualquer ideia de desmobilização.


 


Considerei o acordo entre o governo e os sindicatos um aperto de mão financeiro (como pode ler aqui ou na rubrica acordos, aqui), assinado fora das salas de aula e sem qualquer intenção de derrubar as invenções técnico-pedagógicas e de má burocracia que asfixiam as escolas e o ensino. E não me venham com o fim dos titulares: isso era mais do que adquirido, com ou sem acordo.


 


Francamente: se os sindicatos consideram que todo o tempo de serviço deve ser contado para a progressão na carreira, que as quotas na avaliação estão a mais, que as alterações no modelo de gestão estão erradas (a única fundamentação que se conhece, pasme-se, é risível e advoga o combate à indisciplina nas escolas), que o modelo de avaliação é incompetente e que só funciona em ambiente de farsa ou fingimento e que os resultados do primeiro ciclo de avaliação têm de ser anulados, então, e obviamente, pergunta-se: assinaram o quê e para quê?


 


Não gosto das teorias da conspiração mas não sou ingénuo. Há aqui muito acerto de posições que esquece por completo a defesa do ensino, do poder democrático das escolas e, por consequência, os interesses dos alunos e dos seus encarregados de educação.


 


Se o filósofo José Gil classificou o entendimento de 2008 como um corte, pela zona dorsal da espinal medula, na justa luta dos professores, o que dirá agora? Um corte na cervical?


 


Esta marcação divide e dá ideia que quem a estipulou está desorientado e não foi capaz de se manter seguro nas posições que dizia defender. É triste afirmá-lo mas é assim.


 


 


 


(Reedição. 1ª edição em 6 de Março de 2010)

17 comentários:

  1. Não concordo. Os professores das escola públicas são funcionários públicos e a greve é em solidariedade como os outros agentes do estado. Compreendo os seus argumentos mas não podemos cruzar os braços quando o governo dá o dito pelo não dito.

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  2. Paulo, obrigada pela tua análise tão limpa que não há mais nada a acrescentar.


    Aquele abraço!

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  3. Sindicalista

    a diferença é que você é pago para pensar assim e isso retira alguma força ao seu argumento.

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  4. Concordo com a leitura que faz dos acontecimentos. Tb não faço greve.

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  5. Um professor resistente27 de fevereiro de 2010 às 20:25

    Estou indeciso. Não se consegue descortinar uma greve por agora e com estes motivos. Acordaram o quê afinal?

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  6. Solidariedade com os outros agentes? E isso é razão para fazer greve? Na nossa luta estivemos totalmente desapoiadas.
    E vamos lutar contra aquilo que os sindicatos assinaram há um mês?

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  7. Estes sindicalistas têm cada uma!!! É natural que se esteja indeciso, contudo com argumentos destes...

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  8. Não vos percebo. Se a greve for um fracasso quem é que ganha? Os funcionários públicos, professores, médicos, enfermeiros, administrativos, auxiliares... não têm razões para fazer greve? Só desculpas.

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  9. Percebo e concordo. Quarta-feira decido.

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  10. Este também está divinal. Cristalino com li noutro blogue.

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  11. Paulo,
    a discussão dos estatutos das organizações só é possível no interior dessas organizações. Mesmo aí, para que haja alterações, é preciso obter maioria de votos, a menos que se usem processos anti-democráticos.
    Exactamente por pensar desta forma é que voltei às lides no SPGL.
    Sei que dá trabalho, sei que há muitas pessoas que discordam desta opção, sei que faço parte de uma minoria.
    Mas também sei que onde estou posso contribuir para a mudança, enquanto que ficando apenas pela web 2.0 o meu voto não contava para mudar nada do que quero que seja mudado.
    Abraço

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  12. É sindicalizado em qual? Como muitos há duas federações.

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  13. Com muitos há duas federações e não Como muitos... desculpe.

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  14. Qualquer dia não há coluna onde cortar. Não é somente na dos professores, a da democracia vai pelo mesmo caminho.

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  15. O ME alegou, naquela instância, que a não inclusão da avaliação de desempenho na graduação dos concursos de professores provocaria graves prejuízos, obrigando, designadamente, a um “grande atraso no início do ano lectivo”, diz o dirigente sindical.

    Foi com base naquelas informações que o TAF de Beja decidiu, “como se infere do próprio acórdão”, dar razão ao recurso apresentado pelo Ministério contra uma providência cautelar interposta pela Fenprof, visando retirar a avaliação de desempenho do concurso de colocação de professores, acrescenta.

    “O Ministério diz uma coisa a uma parte, neste caso aos sindicatos, e depois vai dizer outra ao tribunal”, acusa Mário Nogueira, recordando que o secretário geral do ME garantiu à Fenprof que “estava tudo preparado” para avançar com os concursos de professores com a inclusão da avaliação de desempenho ou sem ela.

    A Direcção Geral dos Recursos Humanos da Educação informou “estar preparada para as duas soluções: contar ou não contar” com a avaliação de desempenho no concurso, revela Mário Nogueira. De resto, sublinha, isso mesmo é afirmado na acta relativa a uma reunião realizada entre o ME e a Fenprof e assinada por ele próprio e pelo Secretário de Estado Adjunto e da Educação (SEAE).

    “Infere-se, portanto, que o Ministério da Educação não falou verdade junto do tribunal, pois alegou com a criação de prejuízos que sabia não existirem”, conclui o dirigente sindical, adiantando que, “perante este facto, a Fenprof”, através do Sindicato dos Professores da Zona Sul, vai “recorrer da decisão, logo que receba a notificação” do TAF.

    Além disso, acrescenta, “esta acção ainda se encontra na fase de decisão da providência, pelo que ainda terá de decorrer a acção principal”.

    Mário Nogueira, que falava ao final da tarde de hoje, numa conferência de imprensa, em Coimbra, admite, por outro lado, que a Fenprof venha a mover “um processo de litigância por má fé” contra o ME.

    O SEAE, Alexandre Ventura, garantiu, na sexta-feira, que, na sequência daquele acórdão e de um outro, no mesmo sentido, do TAF de Lisboa, a avaliação de desempenho será incluída na graduação dos concursos de professores.

    O ME, revelou o governante, foi notificado das decisões dos TAF de Lisboa e de Beja, dando razão ao recurso apresentado contra uma providência cautelar interposta pela Fenprof (visando retirar a avaliação de desempenho do concurso de colocação de professores), na sexta feira.

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