quarta-feira, 8 de setembro de 2010

tu, liberdade!

 


 


Antologia de ficções em prosa.


 


José Gomes Ferreira (1977)


 


Cortesia de Manuela Silveira.


 


 


"Para atacar os exames não preciso de carregar a minha metralhadora de frias balas pedagógicas, ou de repisar argumentos já muito refervidos nos manuais da defesa da infância.

Basta lembrar-me, cerrar os olhos, diminuir mentalmente de tamanho e convencer-me de que amanhã vou tremelicar diante de três senhores de fraque no espírito que me interrogarão acerca do teorema de Pitágoras. Mal penso nisso, rompe-se-me logo na alma o desejo intenso de escrever um panfleto com este título em forma de clamor:
HUMILHARAM-ME!
Sim, humilharam-me.

Tudo o que resplandecia em nós — de belo e de moço — tombava desfeito em medo.
Aparecíamos, constrangidos e opressos, a reparar, pela primeira vez, no que havia de involuntário na vida.

Deixávamos de ser crianças temporariamente. Envelhecíamos. Arrastávamo-nos por essas ruas com armazéns pesadíssimos em cima dos ombros — a imitarem cabeças.

Por mais que estudássemos, as nossas qualidades intelectuais não se afinavam. Por paradoxo obtínhamos apenas maior exagero de sentimentos e um tal excesso de paixões que puxavam para a superfície tudo o que fervia de sórdido e de inferior na lama humana — desde a hipocrisia ao embuste.

Enquanto introduzíamos à força, no cérebro, quilos e quilos de ciência — não nos preocupávamos com outras coisas senão com cábulas, intrujices, imposturas, burlas, cartas de empenho e hipóteses reles.

Volta e meia, um de nós dizia com admiração:
— Fulano levou os teoremas de geometria resolvidos nas unhas.
— Ena!
— Sicrano pediu um copo de água e o contínuo trouxe-lhe a solução do problema num papel colado no fundo do copo.
— Caramba!

E assim entretínhamos as noites: a idear cábulas impossíveis, a conceber pequenas infâmias e a grudar na memória meia dúzia de conhecimentos fortuitos. Porque a escola, tal como hoje, já no meu tempo era a grande fábrica de ciência provisória, para esquecer.

Mas isso ainda era o menos.

O pior era que, para nós, o exame constituía a resultante lógica de nove meses de estudo, mas um acontecimento desligado, um percalço à parte, espécie de espectáculo, misto de tribunal e da câmara de torturas, cujos bons resultados da lucidez dos esforços pessoais, mas duma série envincilhante de pequenos casos onde intervinha sempre a Fatalidade.

Sobre isso, quem dispusesse de qualidades de actor e repetisse, com enfatuamento e sangue frio, o papel no estrado diante da ardósia — nada teria a temer.

Sacudia os punhos e — zás — representava o seu «número» com esmero aldrabão dum prestidigitador que extraísse frases e fitas duma cabeça vazia.

Mas os outros? Os tímidos, os gaguejantes, os não cabotinos os sem tendência para amadores dramáticos?

A esse — coitados! — não restava outro recurso senão o de se condenarem à humilhação de subir ao palco e titubearem os seus monólogos entre os bocejos dos professores, ao mesmo tempo juízes e público.

Durante meses esforçavam-se por acamar, nas cachimónias, pilhas de definições. Por fim — desiludidos vergados e sonâmbulos — apelavam para a conspiração do Milagre. Pediam às coisas que os salvassem. Deixavam-se afundar miseravelmente, sobriamente na superstição. Transformavam a vida numa máquina complicadíssima de toques misteriosos, figas, amuletos, missas, exorcismos, cruzes e bentinhos.

Eu, por exemplo, nunca me atrevia a pisar as pedras pretas. Andava pelos passeios, de olho discriminador, à procura de basalto para evitar.

Outros, quando passavam pelos postes dos eléctricos, davam-lhe duas pancadinhas à socapa com os nós dos dedos, para desviarem o destino.

Em suma: tudo o que havia de lodoso, de vil, e de apático acordava dentro de nós com raízes profundas a abrirem-se em flores de medo no silêncio dos olhos.

Tudo: a covardia, o agachamento, a resignação, a passividade, as teias de aranha. Tudo: até o ódio! O ódio ao livro. O ódio ao mestre. O ódio à cultura. O ódio à vida. O ódio total a este caricato planeta de homens com uma civilização de papagaios.

Tudo! Tudo!

Quer dizer: o exame era uma instituição nefasta, inventada de propósito para me obrigar a esquecer o pouco que aprendera à minha custa durante o ano, longe da ciência dos mestres e da pedantice dos pedagogos: a lealdade, a audácia de opinião, a firmeza de carácter, o horror à crendice, a coragem de ser eu mesmo, o heroísmo de querer um futuro novo.

Mas os professores importavam-se lá com essas bagatelas! Só davam importância aos bocados de livros que sobrenadavam dentro de mim a fingirem de inteligência, a fingirem de coração, a fingirem de alma.

(Parvos! Nunca nenhum deles percebeu que eu escrevia versos às escondidas.)"

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