(Texto rescrito e adaptado - 1ª edição em 25 de Novembro de 2008)
Assisti ao "prós e contras" sobre um dos temas do momento: o falido modelo de avaliação dos professores, uma espécie de "subpráime" das políticas educativas.
É já uma coisa descomunal esta teimosia, ia escrever patologia, governamental de seguir em a frente com esta doença. O problema arrasta-se e alguns dos detalhes do modelo já originaram, pasme-se, um conselho de ministros extraordinário. Rapidamente se concluiu que as três ou quatro ideias de tipo salvífico da coisa só aumentaram o ruído ensurdecedor em que está mergulhada a escola pública portuguesa.
O tempo mediático é o que é, e estes programas acabam por frustrar os intervenientes e os seus apoiantes: os estruturais e os conjunturais. Procura-se a frase chave e enaltecesse-se a capacidade dos que desferem o golpe certeiro nos opositores, muitas vezes, apenas de circunstância.
Houve uma intervenção que se referiu ao modelo de um modo comprometido e conseguiu reforçar dois aspectos: o muro de invenções técnico-pedagógicas em que se transformou o ministério da Educação carece duma "implosão", o modelo de avaliação do desempenho é inexequível e contém uma ideia de escola e do exercício do professor que está na génese deste conjunto de políticas educativas que têm efeitos nefastos para a escola pública.
Importa reafirmar:
- As invenções técnico-pedagógicas que preenchem a formação de professores em Portugal, e que contaminam o próprio ministério da Educação, não podem infectar as políticas de gestão e organização do sistema escolar: é desastroso, como se constata. Tem de se conhecer a semântica que envolve a organização escolar, para se perceber o labirinto em que estão enredados os chamados "cientistas da educação";
- A interveniente colocou com ênfase a questão das 4 dimensões que integram o "perfil funcional" do professor segundo o modelo de avaliação. Fez questão de salientar a primazia da dimensão ensino e a importância da observação das aulas. Estamos de acordo. Mas em relação às outras 3 dimensões (ética, formação ao longo da vida e relação com a escola e com a comunidade) é que a discordância é abissal.
Da intervenção de Maria do Céu Roldão reparei num detalhe primoroso: quando abordou a hierarquização do modelo, falou das 4 dimensões, passou para o segundo patamar, o dos domínios, dizendo que podiam ser vinte, e... de seguida... meio atrapalhada... disse: "bem, a operacionalização ficou para..." não percebi bem, a professora não foi clara.
E porquê? Por que teria de referir o patamar seguinte, o da possibilidade dos 100 indicadores ou ainda o dos 900 descritores. É sempre assim: quando os teóricos da técnico-pedagogia do ensino com este tipo de perfil se metem nos meandros da gestão e organização escolar, formulam e voltam a formular, mas depois deixam o "terreno" para os "operários" do sistema escolar.
Tenho salientado a questão do perfil funcional e das 4 dimensões porque entendo que essa discussão é nuclear e pode ajudar a questionar o seguinte: no nosso país as desigualdades económicas e sociais são gritantes e provocam taxas de abandono escolar que nos envergonham.
Sabe-se que a escola, actuando de modo isolado, nunca resolverá esse problema. É uma questão mais vasta, da responsabilidade da comunidade educativa, portanto, de toda a sociedade. O que agora se tem feito, é propalar a necessidade de desenvolver e avaliar o espírito de "missão" na profissionalidade dos professores. Como se os professores não estivessem "cansados" de o identificar: não podem é ficar isolados nas causas e no desígnio de o conseguir.
O conjunto de políticas que este governo tenta impor na Educação, de modo a apressado e rotulado de "reformas" (o que garante desde logo o apoio mediático, mesmo por quem desconhece o conteúdo do que se propõe) estão impregnadas do seguinte: o abandono escolar resolve-se na escola e por isso temos de avaliar quem tem de actuar nesse sentido: os professores todos e nos anos todos. E esta decisão ajuda a explicar muitas outras (tipo de ocupação da componente não lectiva dos professores, ideia de que os professores trabalham pouco e só dão aulas) que mais não fazem do que desresponsabilizar a restante comunidade no combate ao referido abandono. O abandono escolar é grave, principalmente quando acontece nos primeiros anos de escolaridade, e é espantoso como ninguém presta contas: por exemplo, as autarquias e os seus serviços sociais.
É necessário repensar a escola pública. Não podemos continuar por este caminho, de trazer tudo para dentro da escola, e de lhe atribuir esta impossibilidade de funções.
muito oportuno
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