A saga de supressões na Educação continua na ordem do dia. É um jogo de toca-e-foge-a-ver-se-pega e com os actores do costume. O período do salve-se quem puder vai acentuar-se nas escolas. Há sempre os que pensam que o melhor é tratar da vidinha, mesmo que os meios passem por tramar o parceiro do lado, esquecendo-se que o nivelamento por baixo afunda as instituições e os países; e todos sofrem com isso, mesmo os egoísmos bacocos e exacerbados.
FENPROF lança abaixo-assinado exigindo um amplo debate nacional sobre reorganização curricular
O MEC prepara-se para introduzir “mexidas curriculares” sobretudo no ensino básico e, eventualmente, também no secundário. A lume têm vindo notícias relacionadas com a Informática, a EVT, a História, a Geografia, a segunda língua estrangeira no 3º Ciclo e agora, até, uma alteração de modelo organizacional global no 2º Ciclo.
“Há sempre os que pensam que o melhor é tratar da vidinha, mesmo que os meios passem por tramar o parceiro do lado”
ResponderEliminarLamentavelmente, isto não só é verdade como já se faz sentir nas escolas.
Um mero exemplo:
Este ano lectivo, com o fim da Área de Projecto no 3º Ciclo, houve muitas escolas que optaram por atribuir os dois tempos então disponíveis, à leccionação de Língua Portuguesa e de Matemática, de acordo com (parte das) indicações da nova legislação para o presente ano. Estas disciplinas, cuja carga lectiva também foi aumentada no 3º Ciclo de quatro tempos para cinco tempos semanais, viram assim a sua carga acrescentada em mais um tempo lectivo, ficando ambas com seis tempos nessas escolas.
Porém, a legislação também previa a possibilidade de atribuir os dois tempos lectivos retirados à Área de Projecto a outras actividades, de acompanhamento ao estudo por exemplo, transversais a todas as disciplinas e leccionáveis por qualquer professor.
Esta foi a modalidade escolhida na minha escola, caso único num concelho com várias escolas onde existe 3º Ciclo, sob o argumento de que as competências de comunicação são adquiridas pelos alunos em muitas disciplinas, desde a Língua Portuguesa, passando pela História, pelas Ciências, etc., até à Matemática, sendo essenciais para todas elas e promovidas por qualquer professor preocupado em fazer com que a leccionação de conteúdos se traduza numa verdadeira apropriação de competências por parte dos seus alunos. Qualquer professor que comunique na língua materna recorre a estratégias de desenvolvimento da compreensão e expressão oral e escrita dos alunos, permitindo que o seu domínio se reflicta no sucesso escolar da generalidade das disciplinas. Aliás, o próprio Novo Programa de Português do Ensino Básico, em vigor desde 1 de Setembro no 5º e 7º ano, prevê o trabalho de textos de outras disciplinas na aula de Língua Portuguesa, a par com outros textos não literários, presentes em todos os novos manuais escolares.
Para além disto, com a extensão da leccionação da Língua Inglesa ao 1º Ciclo do Ensino Básico, como AEC, e o crescente insucesso escolar verificado nesta disciplina, parece ficar provado que uma “overdose” de uma disciplina não se traduz forçosamente em mais sucesso escolar, mesmo que se questione a forma como esta AEC é leccionada.
Lamento reconhecer que, em muitos casos, as opções das escolas espelharam um corporativismo docente de grupos disciplinares numerosos, fazendo passar a ideia de que o que é importante para o aluno é saber ler, escrever, ouvir e contar… o quê é que fica por explicar, quando até se equaciona se disciplinas como História e Geografia são realmente importantes e devem pesar no currículo do Ensino Básico. Basta ler e trabalhar um simples conto de autor numa aula de Língua Portuguesa, para perceber o que as opções curriculares dos últimos anos (a diminuta carga lectiva destas disciplinas) têm feito à capacidade de contextualização dos alunos, por exemplo.
Curiosamente, muitos dos professores que reclamam este fundamentalismo da formação integral do aluno, que porventura até votaram a opção de acrescer ainda mais a carga lectiva de Língua Portuguesa e de Matemática nos Conselhos Pedagógicos das suas escolas, assumem-se como críticos ferozes das opções de Nuno Crato, o que me deixa perplexa.
Daí que “O período do salve-se quem puder vai [MESMO] acentuar-se nas escolas” e o futuro é assustador, quer sob o ponto de vista profissional, quer, sobretudo, no que se refere à verdadeira literacia dos portugueses de amanhã.
Obrigado Ana.
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