Os resultados destes quase quarenta anos de democracia em Portugal são o que são - por muito que nos custe, temos de reconhecer que há coisas muito boas, coisas muito más e outras razoáveis - e os que têm exercido funções nos órgãos de soberania devem ser comedidos uma vez que não podem encolher os ombros com a tragédia da corrupção perpetrada aos olhos do Estado. No mínimo, não se devem pôr em bicos de pés. É a tal questão da prestação de contas.
Não escreverei nada de especial se manifestar respeito pelo pensamento político de Mário Soares e pela sua coragem. Também leio, vezes sem conta, que alguns dos que lhe estão, ou estavam, mais próximos têm, naturalmente, ligações ao preocupante financiamento partidário e a outras coisas do género.
Para além disso, estamos numa fase de democracia suspensa em que todos os cuidados são requeridos. O sistema escolar português, e nomeadamente a gestão das escolas públicas do ensino não superior, é um exemplo. Tem-se feito tábua rasa da lei de bases do sistema educativo e desde há uns sete a oito anos que para interromper mandatos nas escolas basta que um governante tenha uma epifania contabilística ou acorde mal disposto.
Na entrevista de Mário Soares hoje ao Ionline registei a sua invejável energia e o seu optimismo. Observei algumas contradições que podem explicar a condescendência, de origem clubista - neste caso, a troca do inenarrável, mas eleito, Berlusconi por Monti e ainda recentemente o apoio ao Socratismo -, que levou a que as democracias europeias estejam no estado que conhecemos. A distinção entre tecnocratas e tecnocratas esclarecidos deixou-me perplexo. Mário Soares, e após a vitória de Hollande, diz que a Europa está a mudar.
"(...)E veja-se o que se está a passar em Itália, onde já não governa Silvio Berlusconi, mas Mario Monti, que é um tecnocrata, mas um tecnocrata esclarecido.(...)Em certos países já está em crise. É preciso ter cuidado com isso. Sem democracia não há Europa. Acho que há uma transformação em curso e a vitória de Hollande dá um grande impulso a essa transformação.(...)"
E não deixa de ser surpreendente que preveja o que quase todos pagaríamos para assistir.
"A troika pode, ela própria, implodir?"Claro que sim. A troika entrou aqui como se Portugal fosse um protectorado. Mas não é! Isso foi um erro terrível. O primeiro-ministro, com a sua mentalidade neoliberal, disse que era preciso ir além da troika, e isso não faz nenhum sentido, no meu entender. E cada vez faz menos, à medida que a receita se vai desfazendo.(...)"
Poupem-nos de tanta demagogia, pelo que fizeram ou pelo que não fizeram.
ResponderEliminar“A austeridade deveria começar no governo e não nas pessoas e, sobretudo, não nos pobres e nos desempregados.” [Mário Soares]
“A austeridade tem limites. Aliás, até já o Presidente da República [Cavaco Silva] o disse.”
Quando estes dinossauros da política/democracia se limitam a indicar como o caminho pós-Hollande: a ruptura do PS português com o memorando da Troika ou, a médio prazo, a implosão da própria Troika, devemos ficar ainda mais preocupados!
Se este governo português não chegar ao fim, com o PS que temos e com o exemplo que nos vai chegando da Grécia, não podemos augurar nada de bom, assim como já não auguramos com a estratégia actual, é verdade.
Lamentavelmente, estamos condenados sine die.
concordo com a Ana
ResponderEliminarÉ. A Europa está a necessitar de um qualquer sinal de optimismo e Portugal ainda mais. O como é o grande problema, embora o quando nos vá dizendo que ontem já era tarde.
ResponderEliminarMas o pessimismo instalado já não se suaviza com placebos!
ResponderEliminarÉ Ana. Estamos numa encruzilhada e tardamos em encontrar uma qualquer saída. Vamos empobrecendo paulatinamente. Os Governos não duram e essa instabilidade serve os tais gulosos dos "mercados".
ResponderEliminarinerte por inerte
ResponderEliminar:) estróina (para ser brando) por inerte, se bem percebi a coisa :)
ResponderEliminarcerto e afirmativo
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