sábado, 9 de março de 2013

holocausto, dívida e alemães

 


 


 



 


 


 


Texto de Pedro Bidarra.






Holocausto, dívida e alemães




Quis o destino que eu lesse, na semana passada, dois textos sobre o mesmo assunto. Textos que junto aqui porque foram feitos um para o outro. Se acharem demagogia ou mau gosto juntar holocausto e economia, culpem o destino que os emparelhou no meu stream noticioso.




Um li no Público, “Milagre económico alemão teve ajuda de perdão de dívida”, o outro no New York Times, “The Holocaust just got more shocking”. O Público relembra-nos que, em 1953, setenta países perdoaram a dívida alemã acumulada antes e depois da guerra – e que ajudou a financiar. O montante do perdão equivaleu a 62,6% da dívida, tendo sido também acordados valores de juro abaixo do mercado e uma amortização, da dívida e do juro, limitada a 5% do valor das exportações.


(Espero que estes valores, que li no Público, estejam certos que eu é mais Ciências Sociais e História).


Para conseguir este perdão, continua o artigo, foi decisiva a pressão dos EUA e o assentimento dos outros dois membros da troika da altura: França e Inglaterra.


Já o New York Times dá conta de outros números e de uma contabilidade mais negra. Os números são apresentados pelos investigadores e historiadores do Holocaust Memorial Museum. Segundo eles, durante o reino de terror nazi, de 1933 a 1945, os alemães implementaram, da França à Rússia, uma rede de 42.500 campos de terror. Quando esta investigação começou, no ano 2000, estimava-se que o número andasse pelos 7 mil, mas a História veio a revelar-se seis vezes mais negra. A contabilidade é esta: 30 mil campos de trabalho escravo, 1150 guetos judaicos, 1000 campos de prisioneiros de guerra, 980 campos de concentração, 500 bordéis de escravatura sexual e mais uns milhares de sítios dedicados à eutanásia de velhos e doentes e à prática de abortos forçados.


O curioso é que, apenas oito anos depois de toda esta germânica atrocidade, setenta países, encabeçados por uma troika deles, resolveram perdoar 62,6% dívida alemã, reconhecendo que, se assim não fosse, Berlim nunca recuperaria e todos tinham a perder ainda mais.


Talvez a explicação esteja no ensaio “Morale and National Character”, escrito pelo antropólogo G. Bateson em 1942, sobre americanos, ingleses e alemães. Diz ele que americanos e ingleses, mais dados a padrões de relacionamento simétricos – um cresce quando o outro cresce e um relaxa quando o outro relaxa – não têm normalmente estômago para “bater em quem já está no chão”; ao contrário dos alemães, mais dados a relacionamentos complementares, do tipo dominação/submissão – quando mais fraco te sentes mais forte me sinto. Segundo escreveu, impor punições à Alemanha implicaria uma dominação constante dos vencedores o que, a médio prazo, resultaria num abrandamento e numa nova escalada alemã.


Em 1953, por muitas razões, fez-se o que estava certo. Perdoou-se. Perdoou-se, ao povo que implementou 42.500 campos de terror, o dinheiro que deviam e que tinha sido usado (também) para os financiar.


O perdão é a dívida da Alemanha. É bom lembrar e, já agora, cobrar.






Publicitário, psicossociólogo e autor
Escreve à sexta-feira
Escreve de acordo com a antiga ortografia



23 comentários:

  1. Portugal gabou-se por terminar uma dívida com um século... não foi há muito... neste milénio, seguramente...

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  2. Vale a pena ler: escreve de acordo com a antiga ortografia.

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  3. Talvez convenha não esquecer que o perdão foi dado à RFA, num contexto de início da guerra fria em que era determinante para as potências ocidentais criar um tampão à ideologia comunista.
    A Alemanha, que depois de 89 foi unificada, não recebeu a mesma ajuda por igual. O investimento realizado pelos estados capitalistas teve uma dimensão de luta classista que convém não escamotear na análise.
    Claro que, do ponto de vista da estrita análise da dimensão moral do posicionamento alemão actual, não faz mal recordar essa relação entre crescimento económico e dívida pagável.

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  4. Até quando vamos permitir que diretores de importantes Agrupamentos da nossa Praça Oestina continuem a fazer uma gestão de perseguição, de maus tratos, de gritos e de negligência para com Docentes que trabalham no seu Burgo? Há ou não coragem para em conjunto os começarmos a denunciar com a pura verdade dos factos? Gostava de me juntar a colegas que sintam o mesmo, já chega de se abafar os maus tratos e perseguiçoes que alguns diretores nos imprimem para nos calar .Não se pode ter maior qualidade nas escolas sem se começar por aí,o Diretor tem de ser humanista, respeitador e cooperante caso contrário a sua escola é um falhanço. Existem diáriamente situações graves, de directores para com os seus pares docentes que ultrapassam qualquer bom senso. Colegas vamos à obra e começar em conjunto a divulgar o que tem estado podremente submerso em nome da nossa dignidade de Cidadãos e Professores, amantes daquilo que exercemos. Falamos em cafés e supermercados mas decerto que com o Blog Correntes teremos mais força. O meu muito obrigado. Peço ao Paulo que nos ajude a criar este sub Blog

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  5. Critico e grito do bullyng entre profess10 de março de 2013 às 16:41

    Se as redes sociais ajudam -nos a desabafar o que sentimos, se os Políticos têm direito à crítica aberta dos disparates e maus tratos que fazem e dizem, porque não aplicar a mesma abertura crítica a diretores de agrupamentos que nos maltratam , que escondem informação só a dando aos seus submissos e aduladores colegas , que nos gritam enfurecidos, que nos rebaixam perante os outros colegas...Tal como os políticos perpetuam os seus mandatos tornando-se reis e senhores do burgo, colocando nas chefias intermédias os seus amigos capatazes que ajudam a molestar ainda mais os seus colegas, ficam sem defesa os que querem trabalhar para o bem comum. Não existe apenas uma voz discordante, quando colegas contratados por essas mesmas escolas passam e no final do ano lectivo afirmam em reuniões de departamento que "Este foi o pior Agrupamento que passei em 7 anos de serviço...) e não foi só 1, quando nos gabinetes ao lado ouvem-se os gritos do diretor para com os seus pares docentes, quando docentes declaram terem medo de conversar com alguns colegas por poderem ser perseguidos ou ter represálias, estamos à espera de quê? De sofrermos unilateralmente sózinhos, ou desabafar e partilhar em conjunto este novo bullyng existente? Se existem guerras que se constróem através do facebook, então que tambem tenhamos coragem para denunciar a má gestão e feitio de alguns dos diretores prejudiciais à sua Comunidade Educativa e à nossa honra como profissionais, cultos abertos, flexíveis e respeitadores. e a saber olhar para o outro com humildade, sabedoria e empatia.
    Colegas nota-se que a tampa está a transbordar, pois é...têm sido umas atrás das outras sem o minímo de respeito! Basta...

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  6. Isto está a tomar umas dimensões muito perigosas.

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  7. Critico e grito do bullyng entre profess10 de março de 2013 às 18:39

    Paulo não entendi o seu comentário, ISTO refere-se ao blog ou ao estado actual que se vive hoje nalgumas escolas do país? A sua porta fecha-se ou está aberta relativamento ao assunto? Obrigado.

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  8. O meu comentário "Isto está a tomar umas dimensões muito perigosas" é em sequência do comentário do Francisco Santos e refere-se, obviamente, ao país e à Europa.

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  9. Tens razão quanto aos perigos que existem, se não conseguirmos forçar a mudança das políticas predatórias dos grandes grupos económicos multinacionais.
    Se o capital financeiro continuar completamente "em roda livre" e, mais perigoso ainda, a comandar as decisões políticas que afectam a vida de milhões de pessoas, corremos o sério risco de caminhar para confrontações violentas.
    Ao contrário do que a social-democracia se esforçou por convencer-nos, a luta de classes aí está em todo o seu esplendor e consequências.
    Abraço
    F.

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  10. Isto é corrupção e ultraliberalismo Francisco.

    Abraço também.

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  11. Sem fazer branqueamento da tragédia que a Europa viveu entre 39 e 45, é conveniente recordar que ali tratava-se de dívidas de guerra (factura passada pelos vencedores - convém lembrar que França e Reino Unido declararam guerra, só após foram atacados).
    Por outro lado, é bom não esquecer que desde finais do séc XIX a Europa se encontou mais à Alemanha do que o contrário. Qualquer "favor" ao colosso (demográfico, cultural, civilizacional, industrial) de além Reno é sempre um benefício para todos os outros (em retorno económico e político, por exemplo).
    Quanto ao resto, para quando uma entrevista do "Expresso" ao sábio referido, com a chancela de Nicolau Santos?...

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  12. Errata supra:
    "encostou", não "encontrou"

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  13. É evidente que fica sempre muito por explicar.

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  14. Sim; por exemplo, o que tem o "Holocausto" a ver com deveres e haveres...

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  15. Ás tantas, teve mesmo uma forte relação...

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  16. Acha? Nunca um absurdo como o Holocausto pode entrar na contabilidade do deve e haver de uma guerra. (... a menos que o queiramos cinicamente minimizar: "Pagando X marcos por judeu gaseado, Y marcos por cigano abatido, etc., a coisa fica resolvida". Em nome do que ainda é sagrado, é preferível colocar no balancete apenas o que tem valor de transacção, isto é, o que for material).

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  17. paulo guilherme trilho prudêncio11 de março de 2013 às 18:15

    Estava a ser irónico Lúcio. Mas o absurdo torna-se tantas vezes real.

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  18. Se as guerras têm o seu lado económico como causa, é preciso relembrar o que afirmou Hannah Arend "Não há história mais dificil de contar em toda a história da Humanidade". O Holocausto foi e é a tentativa da desumanização absoluta, ele actualmente ainda está presente ...é preciso não esquecer. por muitas explicações que exisrtem, a derrota da alemanha na 1ª guerra mundial, o tratado de versalhes, o desemprego, a inflação, o odio atávico, doentio e obsessivo aos judeus, o receio de Weimar, o temor e ódio do bolchevismo, e o renascimento do "orgulho alemão" que Hitler tinha foi capaz pela primeira vez na história de programar o extermínio global de um povo e de outras sociedades culturais como ciganos ...O Nazismo. O extermínio Nazi deitou abaixo a tese de que a barbárie sempre foi produto do atavismo, produto da ignorância e atraso, ou causa da monstruosidade de alguns. A alemanha era um dos países mais industrializados, uma das nações mais cultas e instruídas do mundo. Os nazis eram homens normais como eram normais todos os seus executores e seguidores em inúmeros países. Normais no sentido que amavam a sua família, obedeciam a ordens, achavam que estavam a cumprir o seu dever por isso como diz o Primo Levi "Aconteceu uma vez poderá acontecer de novo, e na actualidade existem muitos grupos a defendê-lo" e preciso não esquecer que o Holocausto foi sem dúvida a banalidade do mal. Quantas pessoas más conhecemos ao longo da vida de cada um? As características são as mesmas, mentira, orgulho, arrogância, poder, maldade, cinismo , mexam estes ingredientes e vejam no que dá. Quantos políticos, colegas, dirigentes assim, não conhecemos nós? Até nem devem dormir para poder tramar, tramar, tramar...

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  19. Basta olhar para os tecnos, estátuas mal esculpidas da troika, gasparzinhos e outros que não sendo nazis, destróem milhares de pessoas que não têm que comer, que se suicidam com os filhos, seria importante contabilizarem-se essas mortes lentas, outros que perdem as suas casas...

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  20. É o que é? E para quem é?

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