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quarta-feira, 22 de junho de 2022

Da Meritocracia


O "excesso" de meritocracia, ou a meritocracia insensata e mergulhada no capitalismo selvagem, elimina a meritocracia como alicerce das sociedades democráticas do nosso tempo. É uma conclusão que vai ganhando força e que não é contraditória. E depois existe uma questão antiga que Michael J. Sandel, em "O que o dinheiro não pode comprar", sintetiza de forma simples e bem actual: "há valores que o mercado diminui ou perverte".


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sábado, 4 de setembro de 2021

Recordando Manuel António Pina - Das Crises

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"A crise quando chega toca a todos, e eu já não sei se hei-de ter pena dos milhares de homens e mulheres que, por esse país fora, todos os dias ficam sem emprego se dos infelizes gestores do Banco Comercial Português que, por iniciativa de alguns accionistas, poderão vir a ter o seu ganha-pão drasticamente reduzido em 50%, ou mesmo a ver extintos os por assim dizer postos de trabalho.
A triste notícia vem no DN: o presidente do Conselho Geral e de Supervisão daquele banco arrisca-se a deixar de cobrar 90 000 euros por cada reunião a que se digna estar presente e passar a receber só 45 000; por sua vez, o vice-presidente, que ganha 290 000 anuais, poderá ter que contentar-se com 145 000; e os nove vogais verão o seu salário de miséria (150 000 euros, fora as alcavalas) reduzido a 25% do do presidente. Ou seja, o BCP prepara-se para gerar 11 novos pobres, atirando ainda para o desemprego com um número indeterminado de membros do seu distinto Conselho Superior. Aconselha a prudência que o Banco Alimentar contra a Fome comece a reforçar os "stocks" de caviar e Veuve Clicquot, pois esta gente está habituada a comer bem."


domingo, 1 de março de 2020

"Andar, Respirar, Sentar!"

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E depois. há aquele textos que se diz após as primeiras frases: nem mais!



"Andar, respirar, sentar!


Caminhar, como procurar o silêncio, num tempo dominado pela eficiência económica, a competitividade ou o ruído, são práticas de resistência.


Andar é terapêutico. Vive-se o corpo. Transforma-se a relação com tempo e espaço. E é também uma experiência cognitiva. Rousseau dizia que só meditava quando caminhava. A mente só trabalhava com as pernas. Percebe-se. Caminhar, simbolicamente, acaba por ser a grande aventura.


E não é preciso fazê-lo a correr como os ideais contemporâneos de rentabilidade nos querem fazer acreditar. Chegamos todos ao fim. Por isso mais vale ir desfrutando. Deixarmo-nos ir no fluxo das ruas, perdermo-nos nos seus desvios e perceber as suas dissonâncias, desperta-nos e faz-nos estar mais aptos para dialogar com os outros e a realidade à nossa volta. Caminhar, como procurar o silêncio, num tempo dominado pela eficiência económica, a competitividade ou o ruído, são práticas de resistência.


Caminha-se cada vez menos nas cidades. Os privilegiados que conseguem habitar nos centros urbanos, por norma vão de carro para os empregos longe de casa. E os que foram expulsos do centro andam de transportes públicos porque os trajectos são distantes. Simplifico, eu sei. Mas não tanto quanto isso. A cidade densa, compacta e democrática, sem grandes desvios, intervalos ou cisões, é cada vez mais miragem. Mas há excepções.


Existem muitas formas de olhar para uma cidade. Em Portugal, neste momento, a lógica dominante são os números, lançados com frémito à opinião pública (“Turismo em Lisboa vale seis Autoeuropas”, expunha Fernando Medina há semanas), mas sem que se explique quem beneficia desses milhões, o que está a ser feito com eles, que tipo de empregos geram e que exclusões produzem e o que está a ser feito para as acautelar.


É uma forma de olhar para uma cidade. Há outras. Numa inspiradora publicação recente no Facebook, o investigador José Carlos Mota escrevia: “Diz-me que bancos tens, dir-te-ei que cidade és!” E não poderia estar mais de acordo. Discorria sobre a cidade de Bilbau, onde também estive recentemente. É uma urbe que convida a andar. As praças respiram, os passeios são largos, há parques, a mobilidade urbana é fluida, a qualificação do espaço público em prol das crianças é um facto. Apetece usufruir, cansarmo-nos e retemperar. E quando isso acontece, lá estão eles, os bancos, em bons e diversos sítios para nos sentarmos, a sós, a dois, ou em grupo, correspondendo a diferentes formatos, conforme as necessidades de continuidade, repouso, encontro e sociabilização.


Em qualquer cidade média espanhola, o espaço público é vivido de forma mais vibrante do que em Portugal, mas não é apenas uma questão cultural. É de planeamento urbano, equilíbrio entre vida cultural, social e comercial. Fazer sentir aos cidadãos que o seu quotidiano está em primeiro lugar. No sentar, enquanto lugar de consumo, através de esplanadas, já reduzimos distâncias, mas teve de ser através do turismo e não de uma estratégia de qualificação do espaço público para todos.O que é incrível é que todas estas noções são hoje valorizadas pela generalidade dos cidadãos, principalmente entre as novas gerações, que não desejam a mera subordinação ao tempo económico, mas sim abrandar, ter tempo, fruir. Infelizmente, quando pensamos nestas noções, fazemo-lo sempre a partir de uma perspectiva individual — é por isso que os livros de auto-ajuda são um sucesso — e nunca colectiva, cívica e política. E isso é que era essencial. Era importante que um estilo de vida mais humanizado não fosse acessível apenas a uma minoria, mas fosse algo integrado no próprio planeamento da cidade, ao serviço da maioria."


domingo, 15 de dezembro de 2019

Reféns

 


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"Vivemos em permanente medição, quantificação e avaliação. Nada escapa. Coisas, pessoas, actividades ou instituições. Obcecados com números, rankings, ratings ou likes, já nem nos damos ao trabalho de pensar. O nosso espaço mental é uma tabuada. Consumimos percentagens como se fossem ansiolíticos. Vivemos em cálculo permanente. Desiste-se de elucidar, de reflectir ou persuadir.(...)" É assim que Vítor Belanciano começa "a sua crónica" no Público com o título "reféns da sociedade da quantificação". E ainda esta semana, a agenda comunicacional repetiu um raciocínio falacioso para descansar as consciências e instituir mais inacção na falta de professores: "nos próximos 4 anos reformam-se 18 mil professores e também haverá menos 101 mil alunos". E depois? E isso significa o quê? Olhemos pela tabuada: na última década, a redução de professores (30 mil) e a de alunos (160 mil) foram mais acentuadas e a crise de professores agravou-se. Para além disso, se reduzirmos o abandono (o precoce e o outro) e o insucesso escolares para números decentes, teremos acréscimo na frequência escolar. Por outro lado, devíamos introduzir critérios de qualidade e de sustentabilidade desde os alunos por turma à escala das organizações. Aliás, já há países a questionar os sacrossantos indicadores do PIB, cuja aritmética mais não tem feito do que aumentar as desigualdades (os ganhos da produtividade concentram-se numa minoria) e degradar o ambiente (as organizações de grande escala entraram em crise irreversível). E acrescenta Vítor Belanciano: "(...)Em vez de basear toda a análise na evolução do PIB, o Governo islândes deseja conciliar factores como a educação, saúde, boa governança, cidadania, saúde da democracia, protecção ambiental, acesso à cultura ou gestão equilibrada do tempo.(...)"


Imagem: encontrei a imagem no site da "exposição - Urbano - neste meio de mar"

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

"As Profissões Infernais"

 


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"Para além de outros disparates e fake news, a minha “biografia” na Wikipédia começa com a seguinte frase: “É professor do ensino secundário.” Como se sabe, a Wikipédia é um lugar de muita vingança e má-fé e quem a escreveu usa a expressão “professor do ensino secundário” como um mecanismo de desvalorização, porque sabe muito bem de que grau de ensino fui professor, até porque acrescenta mais abaixo “também leccionou no ISCTE — Instituto Universitário de Lisboa e em instituições de ensino particular; nomeadamente na Universidade Autónoma de Lisboa”. Ou seja, trata-se de um “professor de ensino secundário” que leccionou na universidade, certamente por grande favor. Como eu não quero saber da minha página da Wikipédia para coisa nenhuma, nunca corrigi nada. Corrijo mais facilmente quando me tratam por professor doutor, que não sou, para não correr o risco de ser incluído na escola Sócrates-Relvas de abuso de classificações académicas.


Se a intenção é usar a expressão “professor do ensino secundário” como classificação pejorativa, estão bem enganados. Fui de facto professor do ensino secundário com muita honra e fiz a diáspora habitual dos professores, dei aulas em Vila Nova de Gaia, Coimbra, Espinho, Boticas e no Porto e aprendi muito mais nesse deambular do que na universidade. Por uma razão muito simples: é que já era então muito mais difícil ser professor do ensino secundário do que universitário. E a realidade é que, quer num quer noutro grau de ensino, as coisas pioraram muito desde esses anos.


 

Por isso escrevo hoje sobre os professores do ensino secundário, e por extensão sobre todos os professores. Não é pela sua luta sindical, nem por causa das manifestações, nem por nada dessas coisas, embora também seja. É pelo vilipêndio demasiado comum da condição de professor, de ser professor, como se fosse um lugar de comodismo, salários altos, trabalho confortável e nada desgastante. Não estou a falar das escolas e colégios privados que podem escolher quais são os seus estudantes, à força de dinheiro e da facilidade de afastarem quem não querem, estou a falar da escola pública, um pouco por todo o país, mas com maior relevo nos locais mais pobres, onde as famílias estão desestruturadas, onde a violência é endémica, onde há gangues e bullying como regra, onde tudo é precoce e nada é maduro.



É que o problema não é o dos adolescentes de hoje, é também o dos pais dos adolescentes de hoje, parte deles também professores, normalmente os mais hostis aos seus colegas. O problema é uma sociedade que deixou todos os problemas, de raça, de exclusão, de pobreza, de marginalidade, de droga para a escola e na escola para os professores. As famílias demitem-se e acham que é a escola que lhes deve socializar os filhos com um mínimo de “educação” e, como isso, não acontece atiram-se contra os professores. Não é preciso ir mais longe do que a absurda prática de deixar levar telemóveis para as aulas, sabendo-se como se sabe que não há qualquer utilidade no seu uso, e que servem apenas para uma nova forma de se estar “agarrado”. A completa falta de qualquer autoridade nas escolas torna-as um falanstério de ruídos, perda de atenção, violação da privacidade e crime, em que o comodismo dos pais, e a sua idêntica falta de autoridade, isola a função de ensinar de qualquer utilidade social. A escola perdeu a sua função e, no meio de tudo, estão professores sitiados no meio de um inferno cheio de hormonas sem regras. Não admira que seja das profissões que mais frequentam psiquiatras e psicólogos e que ardem mais depressa do que o pavio de uma vela curta. Venham pois hipocritamente atacar os professores, esses preguiçosos privilegiados.


Uma questão interessante de discutir em democracia é a de saber que critérios devem existir para pagar salários mais elevados e se um dos fundamentais não é a dificuldade no exercício da profissão. Se um homem do lixo, que faz um trabalho que ninguém quer, se um mineiro, que tem um trabalho duríssimo, não deveriam ganhar muito mais do que um burocrata ou mesmo um trabalhador qualificado ou um gerente bancário ou um técnico de informática? E carregar sacos e caixas de cerveja, ou passar o dia a abrir valas debaixo de um sol impiedoso nas ruas da cidade? A resposta habitual é que as qualificações significam “valor” e produtividade, e é verdade. Mas devem esses serem os critérios principais na atribuição de um “valor” no salário? O “valor” económico deve sobrepor-se à “justiça” social? Não é uma questão fácil de responder, mas merece ser discutida. E é por isso que eu nunca alinho nessa lenda de que os professores são uns privilegiados e que não merecem o parco salário que ganham. Experimentem ir para Almada ou para Campanhã ou para o Seixal ou para Sacavém ou para Setúbal dar aulas a alunos e alunas de 13, 14, 15, 16, 17, 18 anos..."


domingo, 29 de setembro de 2019

Como Salienta o Cronista

 


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"A relação entre Trump e Tancos é evidentemente absurda, e no entanto, há coincidências que fazem pensar. Será que vivemos num mundo onde os códigos de conduta políticos ou éticos correm o risco de ser reduzidos a comportamentos absolutamente irresponsáveis, inverosímeis e grotescos? Como se explica tal deriva e que consequências devemos temer? Não será preocupante que essas coincidências sejam o reflexo de acontecimentos passados que tendem a repetir-se e a amplificar-se?(...)". Este início da habitual crónica semanal de Vicente Jorge Silva, hoje ("Trump em Tancos") na impressa do Público, retrata a preocupação dos que olham com perplexidade para o desfile de irresponsabilidades. Aliás, a 1ª página do Expresso, um dos jornais dito de referência que sobra, destaca: "Tancos - PS aponta para conspiração do MP" e acrescenta que "Marcelo não atendeu telefone a Costa e ponderou pedir ao CE para depor no processo". É óbvio que este ambiente só interessará aos inimigos da democracia que espreitam nas esquinas mais inesperadas. Vai valendo que não será, realmente, "tudo a mesma coisa", mas temendo-se pelo prazo de validade; como salienta o cronista (reforçado em “Nenhum país está imune ao populismo").


Nota: é óbvio que a ascensão destes comportamentos é um resultado da queda do espaço dos "governos responsáveis" que eclodiu em 2008 e que está longe de terminar (em Portugal também).

quarta-feira, 6 de março de 2019

Em Vão

 


 


 


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Macron, aflito e inspirado no desenho do Quino, inscreve "o renascer europeu" para transformar a Europa num pólo de "liberdade, protecção e progresso" (LPP). A Europa perdeu esse espaço porque ficou refém dos mercados financeiros. Cada vez mais europeus esperam pelo comboio LPP; em vão. Em 2016, Joseph Stiglitz antecipou: "não é correcto chamar de populista um candidato que diz preocupar-se com os 90% de pessoas que um governo deixou para trás. Não é merecedor de crítica. O populismo pode ser um remédio contra o elitismo." O Nobel da economia (2001) preferiu o termo demagogia e deu um exemplo: "Números "surgidos" do nada como o limite de 3% do défice."


Os portugueses duplicam a espera pelo LPP; em vão. É um desfile carnavalesco único na Europa, se considerarmos que já não há país com a banca neste estado por causa de 2007. Para além da disciplina orçamental, os portugueses ainda têm a banca. O que esperam que seja explicado no Novo Banco, e a partir de hoje no Parlamento e pondo nomes a escriturários, compradores e vendedores, é simples se imaginarmos o seguinte exemplo: um activo imobiliário foi escriturado em 2006 por 10 milhões, foi hoje vendido pelo valor executável de 4 milhões (portanto, 6 milhões de imparidades suportados por empréstimos dos contribuintes a 30 anos) e amanhã é comprado por 9 milhões. 


Os professores assistiram, neste Carnaval, a mais um desfile do "arremesso ao professor". Já não há paciência para desconstruir as acusações (e muita desconsideração) de intransigência e progressões automáticas, nem sequer para a epifania dos 600 milhões. Para além disso, os "tudólogos", e as "tudólogas", são transversais. É mentira que os professores queiram um regime de excepção na contagem do tempo de serviço. A generalidade da administração pública já o contou na totalidade, bem como os professores das regiões autónomas (mesmo que de forma faseada). Por incrível que pareça, sobram os corpos especiais (professores, magistrados, militares e polícias). Afinal, o estatuto de especial triplica a espera, em vão, LPP: défice orçamental, banca e sacerdócio.

domingo, 3 de março de 2019

Recordando Manuel António Pina

 


 


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"A crise quando chega toca a todos, e eu já não sei se hei-de ter pena dos milhares de homens e mulheres que, por esse país fora, todos os dias ficam sem emprego se dos infelizes gestores do Banco Comercial Português que, por iniciativa de alguns accionistas, poderão vir a ter o seu ganha-pão drasticamente reduzido em 50%, ou mesmo a ver extintos os por assim dizer postos de trabalho.
A triste notícia vem no DN: o presidente do Conselho Geral e de Supervisão daquele banco arrisca-se a deixar de cobrar 90 000 euros por cada reunião a que se digna estar presente e passar a receber só 45 000; por sua vez, o vice-presidente, que ganha 290 000 anuais, poderá ter que contentar-se com 145 000; e os nove vogais verão o seu salário de miséria (150 000 euros, fora as alcavalas) reduzido a 25% do do presidente. Ou seja, o BCP prepara-se para gerar 11 novos pobres, atirando ainda para o desemprego com um número indeterminado de membros do seu distinto Conselho Superior. Aconselha a prudência que o Banco Alimentar contra a Fome comece a reforçar os "stocks" de caviar e Veuve Clicquot, pois esta gente está habituada a comer bem."


quarta-feira, 23 de maio de 2018

"A Depressão dos Professores"

 


 


 


Um texto de Carmo Machado com um retrato do estado a que isto chegou. O texto foi publicado pela revista Visão e colo-o na totalidade porque é um testemunho impressionante.


 



"A Depressão dos Professores.


Deparamo-nos por essas escolas do país, com colegas que arrastam pelos corredores a sua precariedade gritante. E nós, os que ainda possuímos alguma sanidade, nada podemos fazer.


Muito se fala hoje de stress, de stress ocupacional e de burnout (reconhecido pela Organização Mundial do Trabalho como uma síndrome que afeta várias profissões) mas nem toda a opinião pública estará consciente do facto de que esta é uma doença ocupacional com sintomas físicos, psíquicos e comportamentais que tem nos professores o seu principal alvo. Muito se fala também da elevada percentagem de atestados médicos passados aos profissionais do ensino mas poucos tentarão ou conseguirão compreender as razões pelas quais é esta uma das classes profissionais que mais frequentes visitas faz ao psiquiatra.


Em três décadas de ensino, ganhei algumas (poucas) certezas. Uma delas é a de que é completamente impossível ensinar se não estivermos na posse de um equilíbrio emocional total. É terrível quando, perante situações sistemáticas de indisciplina, a ansiedade se instala em nós, o choro ocorre amiúde, a insónia se repete e o pânico de ter de voltar a enfrentar uma determinada turma se transforma na nossa realidade quotidiana. Já vi muitos colegas de profissão em situações como a que vos descrevi cuja única escapatória foi o atestado médico. A fobia escolar é, a meu ver, o pior que nos pode acontecer. Confesso mesmo que, ao longo da minha carreira, já experienciei esta fobia escolar relativamente a uma turma. A simples ideia de ter de enfrentar aqueles alunos insubordinados e insolentes provocava-me uma tamanha sensação de angústia que, pela primeira vez, coloquei a hipótese de abandonar o ensino.


Já o tenho dito várias vezes e repito: é impossível sofrer de depressão e ser professor. A profissão docente - e falo de ser professor à séria, com vocação e empenho, profissionalismo, competência pedagógica e científica, não daqueles meros vendedores de aulas que, por necessidade e como última alternativa, enveredaram pela carreira de professor - exige uma leveza de espírito, elevadas cargas e recargas diárias de energia, agilidade mental e física, capacidade rápida de resolução de problemas e de conflitos de vária ordem, adaptação a situações imprevistas, capacidade de resposta fácil e rápida dentro da sala, uma listagem infindável de competências incompatíveis com um professor cuja caixa de ressonância tenha avariado. E estar deprimido é isso mesmo.





SIM, sei do que falo porque também eu já estive à beira deste descalabro e lembro-me de que, por esses dias, tanto se me dava que houvesse indisciplina ou que os professores fizessem greve ou que fechassem a escola ou que o mundo acabasse. Basicamente, tudo o que vinha na minha direção e que à escola dizia respeito, fazia ricochete e não entrava. Eu encontrava-me à beira de mim própria e nesses casos, o que menos nos importa é exatamente aquilo que contribui para chegarmos a esse limite. Felizmente, consegui travar a situação a tempo, antes de atingir o precipício.


Mas nem sempre é assim. Todos conhecerão, nas suas escolas, um ou mais casos de colegas que, em situações de desequilíbrio emocional, insistem em manter-se ao serviço e cumprir com as suas obrigações profissionais, convictos de que o que estão a fazer é o melhor para si e para a escola. Alguns não querem faltar para não prejudicar os alunos, outros não têm noção do estado em que se encontram, outros ainda não saberiam mesmo o que fazer se tivessem de ficar em casa. E assim, deparamo-nos por essas escolas do país, com colegas que arrastam pelos corredores a sua precariedade gritante. E nós, os que ainda possuímos alguma sanidade, nada podemos fazer.


Não preciso de ser psiquiatra para saber que a minha colega sofre de depressão ou outro distúrbio do foro psiquiátrico e que precisa de ajuda especializada. O pior, porém, é que os alunos também sabem e não têm, perante ela, a mesma condescendência que nós tempos. Diria mais: não têm qualquer tipo de condescendência. Pelo contrário, as situações de humilhação em que os alunos colocam um professor nestas condições dentro da sala de aula são gritantes, obrigando muitas vezes os colegas da sala ao lado a intervir. E nós acudimos-lhe mas pouco mais podemos fazer. O pior de tudo é que nem a escola a pode ajudar... A escola pública parece não possuir um enquadramento legal que permita a um diretor retirar tempo letivo a um docente com estas características, atribuindo-lhe outro tipo de tarefas, menos humilhantes para a sua condição e nas quais se sentiria menos exposto.


E qualquer coisa pode acontecer numa sala de aula, sabemo-lo. Ter trinta alunos perante nós, se problemáticos e indisciplinados, exige uma enorme resistência e sagacidade que um professor, cuja caixa de ressonância avariou, deixou de possuir. Carl Jung escreveu: a depressão é como uma mulher vestida de preto. Se ela aparecer, não a afaste. Convide-a para entrar, ofereça-lhe um assento, trate-a como uma convidada e ouça o que ela tem a dizer. Mas primeiro, digo eu, temos de afastar de nós esses outros convidados que se encontram na sala, geralmente em número de trinta e a que chamamos alunos.


Não há como escapar a este flagelo. Todos os dias sou confrontada com situações angustiantes de colegas em sofrimento e não consigo, por mais que tente, ficar indiferente. É mesmo impossível ignorar a colega que literalmente, num passo arrastado, caminha como um autómato para a sala de aula onde, numa luta desigual, terá de enfrentar um grupo cruel de trinta adversários que, à mínima oportunidade, transformarão a aula numa batalha campal, derramando pelo chão os últimos restos de uma dignidade há muito perdida.


Carmo Miranda Machado é formadora profissional na área comportamental e professora de Português no ensino público há vinte e sete anos, tendo trabalhado com alunos do 7º ao 12º anos de escolaridade. Possui um Mestrado em Ciências da Educação (Orientação das Aprendizagens) pela Universidade Católica Portuguesa e tem como formação base uma Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Nova de Lisboa. Tem dedicado a sua vida às suas três grandes paixões: o ensino, a escrita e as viagens pelo mundo. Colabora na Revista Mais Alentejo desde Fevereiro de 2010 como autora da crónica Ruas do Mundo, tendo ganho o Prémio Mais Literatura atribuído por esta revista nesse mesmo ano. Publicou até ao momento, os seguintes títulos pela editora Colibri: Entre Dois Mundos, Entre Duas Línguas (2007); Eu Mulher de Mim (2009); O Homem das Violetas Roxas (2011) e Rios de Paixão (2015)."



segunda-feira, 7 de maio de 2018

“Sócrates urdiu uma teia de enganos. Mentiu, mentiu e tornou a mentir”

 


 


 


Desenvolvimentos de um processo de implosão:


 



Fernanda Câncio: “Sócrates urdiu uma teia de enganos. Mentiu, mentiu e tornou a mentir”


 


"O ex-primeiro-ministro “mentiu tanto e tão bem” que conseguiu que muita gente séria não só acreditasse nele como o defendesse, em privado e em público, aponta Fernanda Câncio, jornalista e ex-namorada de José Sócrates, num texto de opinião publicado esta segunda-feira no “Diário de Notícias”


 


José Sócrates “mentiu ao país, ao seu partido, aos correligionários, aos camaradas, aos amigos” e aos que tinha “mais próximos”, escreve Fernanda Câncio - jornalista com quem o primeiro-ministro socialista manteve uma relação próxima no passado -, num texto de opinião publicado esta segunda-feira no “Diário de Notícias”.(...)"



quarta-feira, 4 de abril de 2018

Recordando Manuel António Pina - crónica de Outubro de 2010

 


 


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"A crise quando chega toca a todos, e eu já não sei se hei-de ter pena dos milhares de homens e mulheres que, por esse país fora, todos os dias ficam sem emprego se dos infelizes gestores do Banco Comercial Português que, por iniciativa de alguns accionistas, poderão vir a ter o seu ganha-pão drasticamente reduzido em 50%, ou mesmo a ver extintos os por assim dizer postos de trabalho.
A triste notícia vem no DN: o presidente do Conselho Geral e de Supervisão daquele banco arrisca-se a deixar de cobrar 90 000 euros por cada reunião a que se digna estar presente e passar a receber só 45 000; por sua vez, o vice-presidente, que ganha 290 000 anuais, poderá ter que contentar-se com 145 000; e os nove vogais verão o seu salário de miséria (150 000 euros, fora as alcavalas) reduzido a 25% do do presidente. Ou seja, o BCP prepara-se para gerar 11 novos pobres, atirando ainda para o desemprego com um número indeterminado de membros do seu distinto Conselho Superior. Aconselha a prudência que o Banco Alimentar contra a Fome comece a reforçar os "stocks" de caviar e Veuve Clicquot, pois esta gente está habituada a comer bem."


segunda-feira, 3 de abril de 2017

da lógica do cliente escolar - até dói

 


 


Ao que chegámos! O que é isto?


 




Hoje morreu um professor, mas isso não foi notícia





De facto é preciso gostar muito de ser professor para se continuar a ser professor. Ou isso, ou somos mesmo parvos


Texto de João André Costa • 03/04/2017 - 07:51 









 


Todos os dias vou para a escola. À chegada, encostados a um muro, os alunos do costume, do 7.º ao 10.º ano a enrolar charros, a fumar charros, a vender charros. Digo-lhes “Bom dia”, eles mandam-me para o c... e eu continuo, porque quando me mandam para o c... é bom sinal, é sinal de que ainda estão vivos, não vá um ficar estendido ao comprido do portão da escola como no mês passado mais os tios, as tias, os pais, as mães e primos mil a acusarem-nos de deixar os filhos fumar droga à porta da escola, e eu quando eles fumam droga é do melhor, a dormir sobre as mesas da sala de aula perante o olhar indiferente dos colegas ou das contínuas, não vá alguém acordá-los, porque ao menos enquanto dormem e curam a “pedrada” não chateiam e quando alguém os acorda é do pior, pegam logo no telemóvel enquanto me chamam de filho da p... para baixo e ameaçam partir-me os dentes todos.


Sou professor. Mas não dou aulas, finjo que dou aulas e de manhã à noite separo alunos e alunas desertos por andar à porrada, levo sopapos, bofetadas, empurrões e estaladas, cospem-me na cara e dão-me pontapés, mas antes assim, porque às crianças nem uma nódoa negra que se veja ao chegar a casa quando ainda ontem a Luísa, professora de História, acabou no hospital depois de um encarregado de educação lhe perfurar um pulmão entre um par de murros na cara, os óculos partidos e não sei quantos pontapés enquanto a coitada da Luísa se torcia e esvaía no chão.


Chamar a polícia? Nem pensar, da última vez que aqui vieram era ver os alunos, ao melhor estilo dos macacos, saltar por cima do portão da escola e apedrejar os vidros do único carro do posto, agora inoperacional por falta de fundos, assim dizem eles ao telefone, ou então miúfa, muita miúfa.


Mas eu é que não posso ter miúfa, nem eu nem os meus colegas, caso contrário não temos emprego nem salário, a minha mulher vive a 200 quilómetros com uma filha recém-nascida entre os braços e as serras e alguém tem de pagar os “aptamis” agora que lhe cessaram o contrato de trabalho. É preciso ter azar.


Por isso venho para a escola todos os dias ao mesmo tempo que cadeiras voam dentro das salas, alunos correm de faca na mão uns atrás dos outros, vidros estilhaçam, computadores são partidos ou roubados, ou partidos e roubados, conforme aprouver às pobres crianças, porque contrariá-las nem pensar, para já não falar dos pneus dos carros dos professores, tantas vezes substituídos por tijolos em pleno dia, e eu às vezes gabo a capacidade destas crianças para a mecânica, pelo que até já fui falar com o senhor Director e propor a criação de um curso profissional, e não tivessem as ferramentas sido todas roubadas à chegada à escola e, estou certo, os nossos alunos teriam um futuro brilhante à sua frente. Estou mesmo certo.


De facto é preciso gostar muito de ser professor para se continuar a ser professor. Ou isso, ou somos mesmo parvos. Ou, se calhar, não há outra alternativa senão a do desemprego. Vou pela terceira hipótese. E por isso continuo, ano após ano, cada vez mais longe de casa, cada vez mais próximo da Lisboa periférica, dos bairros periféricos, das vidas periféricas, para sempre condenadas a girar ao redor de nada, sem passado, presente ou futuro que as sustente, e eu lá no meio da reportagem da RTP enquanto uma mãe me encosta contra a parede e me perfura a barriga com uma faca do pão depois da filha lhe ter dito ter sido violada por um colega na minha sala de aula, e eu enjoado a segurar a barriga e as mãos quentes cheias de sangue quente a fugir-me com a cabeça de encontro ao chão, incapaz de lhe explicar que a filha já não vem à escola desde a semana passada, até porque a mulher já tem as mãos no meu pescoço e eu sufoco mais ou menos ao mesmo tempo que um grupo de populares persegue e pontapeia a equipa da RTP, arauto da liberdade e da informação. Hoje morreu um professor, mas isso não foi notícia."





sábado, 25 de março de 2017

"Trump não é um epifenómeno"

 


 


 


José Pacheco Pereira, no Público, e Clara Ferreira Alves, no Expresso, entre outros, claro, escrevem textos de arrepiar (esta semana parece que combinaram na análise do trumpismo), mas que retratam, se me permitem, as sociedades actuais a partir de um ângulo de análise certeiro. Há um estilo de exercício do poder ("Trump não é um epifenómeno", de Pacheco Pereira) que se faz através do bullying. É triste, mas é assim; embora o feitiço se acabe por virar, e como sempre, contra o feiticeiro, como também parece ser o caso Trump.


 


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domingo, 5 de fevereiro de 2017

De Trump e da indiferença perante a crueldade

 


 


 



"(...)Pior do que a crueldade, sempre gratuita, é esta indiferença perante a crueldade. As pessoas que resolvem olhar para o lado, fugir com o rabo à seringa, pretendendo não ver. As pessoas que têm horror da resistência. Os facilitadores. Os cúmplices. Os assalariados. Os corrompidos. Os cobardes. Os amorais. Os neutros.


O que assusta em Trump não são as políticas de Trump. O que assusta é a crueldade, traço evidente para quem viu os episódios de "O Aprendiz" ou os primeiros debates contra os republicanos, quando ele não esperava ganhar.(...)"


 


Clara Ferreira Alves (2017.02.04:03)


Revista do Expresso


sexta-feira, 15 de abril de 2016

do Baú de recordações

 


 


 


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Manuel António Pina


 


também aqui - Setembro de 2011


 


 


"Muitos criticavam o presidente da República (PR) por não dizer nada sobre os buracos postos a descoberto nas contas da Madeira, agravando os défices de 2008, 2009 e 2010 e a factura dos "sacrifícios" impostos aos portugueses (o PR aparentava ser o único português sem coisa nenhuma a dizer sobre o assunto).


O caso afigurava-se ainda mais estranho considerando o memorável dia em que o PR interrompeu umas merecidas férias no Algarve para falar ao país do ingente problema de um artigo do Estatuto dos Açores.


Afinal, o PR só aguardava o momento propício para dizer de sua justiça. E o momento chegou ontem (nos Açores, onde haveria de ser?). O país ficou a saber o que o PR pensa não só sobre a Madeira mas também sobre os demais problemas que afligem os portugueses e mantêm o país em estado de alerta laranja: "Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando para o pasto que começava a ficar verdejante".


Trata-se de uma tomada de posição enigmática mas que, devidamente decifrada, decerto tranquilizará os portugueses: quem sabe se "vacas" não será uma metáfora de "mercados" e se o "pasto que começava a ficar verdejante" não significará a diminuição do défice ou que o ministro Álvaro irá finalmente aparecer numa manhã de nevoeiro?


Ganha assim sentido o misterioso conceito de "magistratura activa" que Cavaco não se cansou de prometer aos portugueses durante a sua campanha eleitoral."


sábado, 9 de abril de 2016

o panamá e a frustração portuguesa

 


 


 


Nota-se a frustração portuguesa com os primeiros dados do "Panamá Leaks". Há alternativas para que não se elimine a vontade de um mundo melhor? Claro que haverá. É muito interessante o exemplo relatado hoje na revista do Expresso.


 


 


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"OS JORNALISTAS VÃO GASTAR MESES E ANOS A TRATAR DADOS ENCRIPTADOS DE QUE NINGUÉM, DAQUI A UNS DIAS, QUERERÁ SABER EXCETO SE FOREM CARAS CONHECIDAS. OS PEIXES GORDOS SOBREVIVERÃO

 

Nunca ninguém ouviu falar de Crickhowell. É uma cidade do País de Gales que fica à beira de uma das autoestradas do Reino Unido. O nome em galês foi traduzido para inglês para não tornar a cidade impronunciável. Tem um castelo, duas escolas, uma biblioteca, igrejas e hotéis, uma rua principal com lojas, cafés, pubs, restaurantes. Os hotéis explicam-se pela popularidade de Crickhowell com os amantes da natureza. Campismo, caravanismo, montanhismo. Os estabelecimentos comerciais são quase todos negócios familiares, alinhados nas ruas e calçadas do centro da cidade. Nunca ninguém ouviu falar de Crickhowell até Steven Lewis, dono de um café e restaurante, se irritar. O senhor Lewis é um militar durão, reformado, que resolveu revoltar-se, juntamente com os outros comerciantes da cidade, contra o sistema de impostos. A cidade nunca aceitou a vinda das multinacionais e não tem um Starbucks. Ou qualquer uma das cadeias gigantes de retalho. O senhor Lewis descobriu que tinha pago 21% de IRC no último ano, equivalente a 31 mil libras, 38.500 euros. E que a multinacional Facebook tinha pago, no mesmo ano, 4327 libras, 5380 euros. Exatamente. Um sétimo das taxas de Mr. Lewis. Um montante inferior ao IRS de um contribuinte inglês médio. Os comerciantes de Crickhowell descobriram o que todos sabiam ou deviam saber, que todos sabemos ou devemos saber. Que os ricos, sobretudo as grandes corporações, não pagam impostos. Google, Facebook, Apple, Starbucks, muitos outros, não precisam de usar os expedientes de firmas como a Mossack Fonseca, basta instalarem-se, através de um sistema multiplicador de evasões perfeitamente legais desenhadas por grandes e respeitáveis escritórios de advogados, em território europeu. Na Irlanda, na Holanda, no Luxemburgo, entre outros. Países que funcionam como offshores numa escala superior ao Mónaco, a Malta ou Jersey. Os sistemas fiscais europeus autorizam estas manobras, encorajadas e toleradas por governos democráticos. Parte da ‘recuperação’ irlandesa tem que ver com a sua capacidade para funcionar como sede fiscal e mecânica das multinacionais tecnológicas. Steven Lewis, com a sua experiência militar na Irlanda do Norte e no Médio Oriente, resolveu arregimentar os comerciantes de Crickhowell e marchar contra o ‘inimigo’. O Governo britânico. Resolveu replicar a manobra e tentar que a cidade pagasse impostos, como um coletivo, num paraíso fiscal. O Governo disse não, porque as cidades, ao contrário das empresas, não podem registar-se offshore. A cidade queria ter os mesmos direitos das empresas. Steven Lewis não desistiu e afirmou em público que enfrentaria o Governo com as táticas que aprendera a usar contra o terrorismo. “Vamos à jugular”, disse. “E vamos ser brutais”. Numa estimativa baixa, os impostos sonegados às autoridades fiscais do Reino Unido devem andar pelos 3,8 biliões em 2014. E os impostos das corporações são mais baixos do que nos Estados Unidos. Um padeiro de Crickhowell descobriu que tinha pago mais impostos do que o Facebook. E não tem dinheiro para expandir o negócio, ao contrário das multinacionais. Os habitantes de Crickhowell tornaram-se peritos em táticas de evasão fiscal. Têm autocolantes nas janelas que dizem Fair Tax Town, e continuam a reivindicar pagar impostos offshore e coletivamente. Mais 27 cidades aderiram à iniciativa. Steven Lewis quer ainda um sistema de rating por estrelas para acusar as corporações que pagaram menos impostos, e toda a gente ficar a saber. Transparência, fim do segredo.

Esta forma de luta, ou os tachos e os iogurtes e bananas atirados contra o Parlamento da Islândia, são tanto ou mais eficazes como a publicação dos “Panama Papers”. Os jornalistas vão gastar meses e anos a tratar dados encriptados de que ninguém, daqui a uns dias, quererá saber exceto se forem caras conhecidas. Os peixes gordos sobreviverão. As várias firmas Mossacks Fonsecas, saídas de um livro de John Grisham, continuarão. Os governos que deixam que o Facebook pague impostos ridículos ficarão. E Londres foi comprada pelos mesmos plutocratas. Daqui a uns dias, a frívola atenção das massas esmorece, por excesso de informação. E arranja outro tema. Arranja sempre. Lembram-se do “pequeno Aylan”?"


 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

da meritocracia

 


 


 


O "excesso" de meritocracia, ou a meritocracia insensata e mergulhada no capitalismo selvagem, elimina a meritocracia como alicerce das sociedades democráticas do nosso tempo. É uma conclusão que vai ganhando força e que não é contraditória. E depois existe uma questão antiga que Michael J. Sandel (leio que é "o maior filósofo vivo), em "O que o dinheiro não pode comprar", sintetiza de forma simples e bem actual: "há valores que o mercado diminui ou perverte".


 


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terça-feira, 1 de setembro de 2015

ai se os gregos miassem...

 


 


 


Há quem diga que os refugiados sírios ou líbios teriam a vida mais facilitada se miassem ou ladrassem. Não há muito pensei o mesmo sobre os gregos. João Miguel Tavares tem um texto muito interessante, hoje no Público, com uma passagem lapidar: "(...)É pena os refugiados sírios ou líbios não ladrarem ou miarem em vez de falarem línguas incompreensíveis, porque aí teriam um partido português a defendê-los e uma longa lista de abaixo-assinados prontos a reclamar pelos seus direitos. Se eu fosse refugiado e quisesse chamar a atenção, acho que ladrava em vez de falar, até porque o que não falta nas Avenidas Novas, onde toda esta cena se passou, são clínicas veterinárias impecáveis, algumas das quais abertas 24 horas por dia.(...)"


 


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