A patologia da medição está a eliminar a cultura humanista associada ao ensino. Há várias explicações para o fenómeno e podemos evidenciar umas quantas: os decisores macro estão viciados em indicadores quantitativos, perderam a noção de ser humano e alimentam-se de dados que não se comovem com a qualidade das relações; a promoção da desconfiança entre as pessoas é arma principal do inferno da medição.
Se foi a corrupção ao estilo americano que nos empurrou para onde estamos, como disse Joseph Stiglitz, também é proveniente do mesmo sítio a paranóia quantitativa e actual que quer controlar as populações em benefício de quem vive em ambiente desregulado.
A estatística pode ser lida assim:
"(...)Em poucos anos, ela consegue essa coisa extraordinária: dar uma identidade colectiva a uma massa de consumidores-prestatários, por natureza pouco inclinada à solidariedade e tão obstinada quanto o pode ser uma barcaça carregada de preconceitos. Ela aparece sempre, portanto, como fragilizada, oscilando entre o securitário e o humanitário, e sempre ameaçada pela implosão ou a desagregação. A elite consensual percebeu bem que esta fragilidade podia, por meio da trucagem do homem médio, transformar-se numa prodigiosa força de coagulação. É esse o segredo da estabilidade da famosa maioria silenciosa: as gerações e os inimigos passam, mas as maiorias silenciosas permanecem, fiéis reservatórios do conservadorismo sempre mobilizáveis por uma causa justa.(...)" Gilles Châtelet (1998:84)
1ª edição em 2 de Setembro de 2012
Utilizando argumentos demagógicos, procurando divisões entre pais e professores, colocando professores de uma disciplina contra os de outra disciplina, juntando escolas que distam entre si de muitos quilometros, colocando cada vez mais alunos em cada turma, extinguindo as poucas disciplinas que apelam ao saber-fazer, criando o mito de que existem professores a mais nas escolas, fazendo pairar no ar a ideia de que o rigor e a excelência se alcança apenas com mais exames, etc, etc …. o Senhor Ministro a breve trecho conseguirá uma escola mais pobre e um País sem futuro.
ResponderEliminarSe calhar abrir-se-á espaço para as escolas privadas proliferarem e então, nesse dia cada vez mais próximo, só quem tiver dinheiro é que poderá estudar… será que isto já não se passou em Portugal?
Os portugueses precisam de saber o que se está a passar nas escolas.
Os portugueses precisam de saber que esta humilhação constante dos professores (na qual alguns por desconhecimento ou má fé colaboram) apenas tem um objectivo: fragilizar a escola pública.
Excelente diagnóstico, se me permites Carlos. Bom ano :)
ResponderEliminarNão me cansarei de o dizer, é o que sinto:
ResponderEliminarPost's como estes são autênticos bens públicos.
Palavras poucas, mensagens lúcidas e profundas.
Obrigado pela partilha. Muito tenho aprendido.
Bem haja.
Obrigado Rui.
ResponderEliminarÉ sempre bom ler coisas assim.
Ok, para mim, tendo feito uma carreira em modelação de sistemas onde a análise estatística é importante mas nem é a ferramente mais utilizada considero que há interpretações erradas.
ResponderEliminarNão há mal nenhum que existam números no ensino, análise quantitativas etc. São úteis e bem trabalhadas muito importantes para definir políticas isentas de ideologia.
Por isso, retirar a análise humanista e/ou qualitativa é tão má como desprezar por completo os números.
A questão fulcral é que se continua a usar estatísticas de um modo intelectualmente desonesto com propósitos políticos/ideológicos etc e não se quer analisar a sério utilizando todas as ferramentas que a teoria de sistemas tem ao seu alcance. Tudo é feito com desvio mental padrão da realidade para sustentar uma narrativa decisória totalmente subjectiva com motivos, muitos deles, escuros e sujos.
Existem várias dessas ferramentas no Systems Thinking que não se baseiam em números puros e duros. Porém, continuam a ser totalmente desprezadas . Dá jeito a certas elites manter o povo na escuridão.
Concordo, se me permites Alt. Obrigado.
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