domingo, 29 de março de 2015

primeira elegia

 


 


 


 


A poesia de Rainer Maria Rilke não é fácil e é preciso reler algumas vezes. O resultado é sempre sublime. É um dos meus poetas preferidos.


 


Uma das suas obras maiores, "As elegias de Duíno", confunde-se com a aura do local onde o poeta a iniciou: o castelo de Duíno que se situa perto da cidade de Trieste e sobre o mar Adriático.


 


Deixo-vos uma parte - na tradução de Maria Teresa Dias Furtado - da primeira elegia.


 


 


 


 


 


Se eu gritar quem poderá ouvir-me, nas hierarquias


dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse


para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua


natureza mais potente. Pois o belo apenas é


o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,


e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha


destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.


 


Por isso me contenho e engulo o apelo


deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia


valer? Nem Anjos, nem homens,


e os argutos animais sabem já


que nós no mundo interpretado não estamos


confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez


uma árvore na encosta que possamos rever


diariamente; resta-nos a rua de ontem


e a fidelidade continuada de um hábito,


que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.


 


Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio de espaço do universo


nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,


suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue em frente


do coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?


Ah, um com o outro eles se ocultam da sua própria sorte, apenas.(...)


 

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