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sexta-feira, 15 de agosto de 2025

15 de Agosto é sempre Rilke



O 15 de Agosto recorda-me sempre o filme imperdível de Gianni de Gregorio. E nem sei porquê, mas desta vez associo-o à difícil poesia de Rainer Maria Rilke: exige leitura repetida, mas o resultado é sublime. É um dos meus poetas preferidos. Uma das suas obras maiores, "As elegias de Duíno", confunde-se com a aura do local onde o poeta a iniciou: o castelo de Duíno, situado perto da cidade de Trieste e sobre o mar Adriático. Deixo-vos uma parte - na tradução de Maria Teresa Dias Furtado - da primeira elegia.



Se eu gritar quem poderá ouvir-me, nas hierarquias


dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse


para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua


natureza mais potente. Pois o belo apenas é


o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,


e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha


destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.


 


Por isso me contenho e engulo o apelo


deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia


valer? Nem Anjos, nem homens,


e os argutos animais sabem já


que nós no mundo interpretado não estamos


confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez


uma árvore na encosta que possamos rever


diariamente; resta-nos a rua de ontem


e a fidelidade continuada de um hábito,


que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.


 


Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio de espaço do universo


nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,


suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue em frente


do coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?


Ah, um com o outro eles se ocultam da sua própria sorte, apenas.(...)


 


 



Depois da poesia, um vídeo do filme - é um muito bom momento de humor -.



 


sábado, 30 de abril de 2022

Rainer Maria Rilke para o Último Dia de Abril

A poesia de Rainer Maria Rilke não é fácil. Exige leitura repetida. O resultado é sublime. É um dos meus poetas preferidos. Uma das suas obras maiores, "As elegias de Duíno", confunde-se com a aura do local onde o poeta a iniciou: o castelo de Duíno, que se situa perto da cidade de Trieste sobre o mar Adriático. Deixo-vos uma parte - na tradução de Maria Teresa Dias Furtado - da primeira elegia.


 



Se eu gritar quem poderá ouvir-me, nas hierarquias


dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse


para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua


natureza mais potente. Pois o belo apenas é


o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,


e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha


destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.


 


Por isso me contenho e engulo o apelo


deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia


valer? Nem Anjos, nem homens,


e os argutos animais sabem já


que nós no mundo interpretado não estamos


confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez


uma árvore na encosta que possamos rever


diariamente; resta-nos a rua de ontem


e a fidelidade continuada de um hábito,


que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.


 


Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio de espaço do universo


nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,


suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue em frente


do coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?


Ah, um com o outro eles se ocultam da sua própria sorte, apenas.(...)


segunda-feira, 24 de junho de 2019

O Verão e Rilke

 


 


Os primeiros dias do verão, e hoje até está um dia tristonho, recordam-me sempre o 15 de Agosto e o filme imperdível de Gianni de Gregorio. E nem sei porquê, mas associo o filme à difícil poesia de Rainer Maria Rilke que exige leitura repetida, mas com um resultado sublime. Rilke é um dos meus poetas preferidos. Uma das suas obras maiores, "As elegias de Duíno", confunde-se com a aura do local onde o poeta a iniciou: o castelo de Duíno, situado perto da cidade de Trieste e sobre o mar Adriático. Deixo-vos uma parte - na tradução de Maria Teresa Dias Furtado - da primeira elegia.


  



Se eu gritar quem poderá ouvir-me, nas hierarquias


dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse


para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua


natureza mais potente. Pois o belo apenas é


o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,


e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha


destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.


 


Por isso me contenho e engulo o apelo


deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia


valer? Nem Anjos, nem homens,


e os argutos animais sabem já


que nós no mundo interpretado não estamos


confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez


uma árvore na encosta que possamos rever


diariamente; resta-nos a rua de ontem


e a fidelidade continuada de um hábito,


que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.


 


Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio de espaço do universo


nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,


suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue em frente


do coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?


Ah, um com o outro eles se ocultam da sua própria sorte, apenas.(...)



 


Depois da poesia, um vídeo do filme - é um muito bom momento de humor -.


 



 

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

15 de Agosto é sempre Rilke

 


 


 


 


O 15 de Agosto recorda-me sempre o filme imperdível de Gianni de Gregorio. E nem sei porquê, mas desta vez associo-o à difícil poesia de Rainer Maria Rilke: exige leitura repetida, mas o resultado é sublime. É um dos meus poetas preferidos. Uma das suas obras maiores, "As elegias de Duíno", confunde-se com a aura do local onde o poeta a iniciou: o castelo de Duíno, situado perto da cidade de Trieste e sobre o mar Adriático. Deixo-vos uma parte - na tradução de Maria Teresa Dias Furtado - da primeira elegia.


  



Se eu gritar quem poderá ouvir-me, nas hierarquias


dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse


para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua


natureza mais potente. Pois o belo apenas é


o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,


e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha


destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.


 


Por isso me contenho e engulo o apelo


deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia


valer? Nem Anjos, nem homens,


e os argutos animais sabem já


que nós no mundo interpretado não estamos


confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez


uma árvore na encosta que possamos rever


diariamente; resta-nos a rua de ontem


e a fidelidade continuada de um hábito,


que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.


 


Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio de espaço do universo


nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,


suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue em frente


do coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?


Ah, um com o outro eles se ocultam da sua própria sorte, apenas.(...)


 


 



Depois da poesia, um vídeo do filme - é um muito bom momento de humor -.


 



 

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Rilke para o 6 de Abril

 


 


 


 


Não é fácil a poesia de Rainer Maria Rilke. Requer leitura repetida. Depois entranha-se e o resultado é sublime. É um dos meus poetas preferidos. "As elegias de Duíno" confundem-se com a aura do local onde o poeta as iniciou: o castelo de Duíno, situado perto da cidade de Trieste sobre o mar Adriático. Deixo-vos uma parte - na tradução de Maria Teresa Dias Furtado - da primeira elegia.


 


 



Se eu gritar quem poderá ouvir-me, nas hierarquias


dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse


para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua


natureza mais potente. Pois o belo apenas é


o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,


e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha


destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.


 


Por isso me contenho e engulo o apelo


deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia


valer? Nem Anjos, nem homens,


e os argutos animais sabem já


que nós no mundo interpretado não estamos


confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez


uma árvore na encosta que possamos rever


diariamente; resta-nos a rua de ontem


e a fidelidade continuada de um hábito,


que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.


 


Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio de espaço do universo


nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,


suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue em frente


do coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?


Ah, um com o outro eles se ocultam da sua própria sorte, apenas.(...)


sexta-feira, 30 de março de 2018

dos anjos e das borboletas

 


 


 


Rilke avisara-nos para a possibilidade terrível dos anjos. Salvador Dalí transformou-os em borboletas. A intemporal premonição de Dalí (Os anjos transformam-se em borboletas) via-a no Museu de Belas Artes de Oviedo.


 


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terça-feira, 15 de agosto de 2017

Rilke para o 15 de Agosto

 


 


 


O 15 de Agosto recorda-me sempre o filme imperdível de Gianni de Gregorio. E nem sei porquê, mas desta vez associo-o à difícil poesia de Rainer Maria Rilke: exige leitura repetida, mas o resultado é sublime. É um dos meus poetas preferidos. Uma das suas obras maiores, "As elegias de Duíno", confunde-se com a aura do local onde o poeta a iniciou: o castelo de Duíno, situado perto da cidade de Trieste e sobre o mar Adriático. Deixo-vos uma parte - na tradução de Maria Teresa Dias Furtado - da primeira elegia.


 


  



Se eu gritar quem poderá ouvir-me, nas hierarquias


dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse


para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua


natureza mais potente. Pois o belo apenas é


o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,


e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha


destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.


 


Por isso me contenho e engulo o apelo


deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia


valer? Nem Anjos, nem homens,


e os argutos animais sabem já


que nós no mundo interpretado não estamos


confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez


uma árvore na encosta que possamos rever


diariamente; resta-nos a rua de ontem


e a fidelidade continuada de um hábito,


que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.


 


Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio de espaço do universo


nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,


suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue em frente


do coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?


Ah, um com o outro eles se ocultam da sua própria sorte, apenas.(...)


 


Depois da poesia, um vídeo do filme - é um muito bom momento de humor -.


 



 


domingo, 30 de abril de 2017

Rilke para o último dia de Abril

 


 


 


A poesia de Rainer Maria Rilke não é fácil. Exige leitura repetida. O resultado é sublime. É um dos meus poetas preferidos. Uma das suas obras maiores, "As elegias de Duíno", confunde-se com a aura do local onde o poeta a iniciou: o castelo de Duíno, que se situa perto da cidade de Trieste sobre o mar Adriático. Deixo-vos uma parte - na tradução de Maria Teresa Dias Furtado - da primeira elegia.


 


  



Se eu gritar quem poderá ouvir-me, nas hierarquias


dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse


para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua


natureza mais potente. Pois o belo apenas é


o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,


e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha


destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.


 


Por isso me contenho e engulo o apelo


deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia


valer? Nem Anjos, nem homens,


e os argutos animais sabem já


que nós no mundo interpretado não estamos


confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez


uma árvore na encosta que possamos rever


diariamente; resta-nos a rua de ontem


e a fidelidade continuada de um hábito,


que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.


 


Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio de espaço do universo


nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,


suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue em frente


do coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?


Ah, um com o outro eles se ocultam da sua própria sorte, apenas.(...)


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Nona elegia

 


 


 


 


A nona elegia.



Porquê, se é possível viver o prazo da existência,
até ao seu termo, como loureiro, um pouco mais escuro do que
todos os outros tons de verde, com pequenas ondas no rebordo
da folhagem (como o sorriso de um vento) -: porquê então esta
forçosa existência humana -, e, evitando o destino,
ter saudades do destino?...


(continua)




Rainer Maria Rilke.
As Elegias de Duíno,
Tradução de Maria Teresa Dias Furtado,
Assírio & Alvim.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

De anjos a borboletas

 


 


 


Rilke já nos avisara para a possibilidade terrível dos anjos. Salvador Dalí transformou-os em borboletas, um símbolo da mafia tatuada nas costas dos elementos. A intemporal premonição de Dalí (Os anjos transformam-se em borboletas) está patente no Museu de Belas Artes de Oviedo.


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sábado, 30 de abril de 2016

da poesia de eleição

 


 


 


A poesia de Rainer Maria Rilke não é fácil. Exige leitura repetida. O resultado é sempre sublime. É um dos meus poetas preferidos.


 


Uma das suas obras maiores, "As elegias de Duíno", confunde-se com a aura do local onde o poeta a iniciou: o castelo de Duíno, que se situa perto da cidade de Trieste e sobre o mar Adriático.


 


Deixo-vos uma parte - na tradução de Maria Teresa Dias Furtado - da primeira elegia.


 


  



Se eu gritar quem poderá ouvir-me, nas hierarquias


dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse


para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua


natureza mais potente. Pois o belo apenas é


o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,


e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha


destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.


 


Por isso me contenho e engulo o apelo


deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia


valer? Nem Anjos, nem homens,


e os argutos animais sabem já


que nós no mundo interpretado não estamos


confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez


uma árvore na encosta que possamos rever


diariamente; resta-nos a rua de ontem


e a fidelidade continuada de um hábito,


que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.


 


Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio de espaço do universo


nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,


suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue em frente


do coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?


Ah, um com o outro eles se ocultam da sua própria sorte, apenas.(...)


sábado, 3 de outubro de 2015

administrar?

 


 


 


 


 


 


Há duas ideias a ter em conta nos picos de contestação: o aforismo de Wittgenstein que diz que "as relações humanas seriam muito diferentes se fosse transparente a relação entre dor e linguagem, se sentíssemos a dor do outro ao ouvi-lo enunciando a palavra" e a certeza de Rainer Maria Rilke de que, em qualquer circunstância e por mais rodeados de pessoas que estejamos, "estamos irremediavelmente sós".


 


Os professores não escapam à devastação a que têm sido sujeitos a maior parte dos portugueses. Têm até a particularidade de andarem há anos a fio em "mobilidade especial". A união que se está a verificar neste grupo profissional terá uma estreita relação com a "impossibilidade" de escapar à tragédia e com a necessidade de contrariar o infortúnio em solidão. A catarse colectiva manifesta-se de várias formas e está longe de se esgotar. A distância que nos separa do fim da linha é tão longínqua como a que medeia as "realidades" de 2006 e 2013. Os administradores da mesa negocial devem ponderar muito bem sobre o momento de excepção que vivemos e podem passar os olhos pela última e excepcional obra de Herberto Helder.


 


1ª edição em 10 de Junho de 2013.


 



 


Herberto Helder (2013:78). "Servidões". Assírio e Alvim. Lisboa.


 


 


 


 


 


 

domingo, 29 de março de 2015

primeira elegia

 


 


 


 


A poesia de Rainer Maria Rilke não é fácil e é preciso reler algumas vezes. O resultado é sempre sublime. É um dos meus poetas preferidos.


 


Uma das suas obras maiores, "As elegias de Duíno", confunde-se com a aura do local onde o poeta a iniciou: o castelo de Duíno que se situa perto da cidade de Trieste e sobre o mar Adriático.


 


Deixo-vos uma parte - na tradução de Maria Teresa Dias Furtado - da primeira elegia.


 


 


 


 


 


Se eu gritar quem poderá ouvir-me, nas hierarquias


dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse


para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua


natureza mais potente. Pois o belo apenas é


o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,


e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha


destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.


 


Por isso me contenho e engulo o apelo


deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia


valer? Nem Anjos, nem homens,


e os argutos animais sabem já


que nós no mundo interpretado não estamos


confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez


uma árvore na encosta que possamos rever


diariamente; resta-nos a rua de ontem


e a fidelidade continuada de um hábito,


que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.


 


Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio de espaço do universo


nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,


suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue em frente


do coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?


Ah, um com o outro eles se ocultam da sua própria sorte, apenas.(...)


 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

primeira elegia

 


 


 


A poesia de Rainer Maria Rilke não é fácil e é preciso reler algumas vezes. O resultado é sempre sublime. É um dos meus poetas preferidos.


 


Uma das suas obras maiores, "As elegias de Duíno", confunde-se com a aura do local onde o poeta a iniciou: o castelo de Duíno erigido perto da cidade de Trieste e sobre o mar Adriático.


 


Deixo-vos uma parte - na tradução de Maria Teresa Dias Furtado - da primeira elegia.


 


 


 


Se eu gritar quem poderá ouvir-me, nas hierarquias


dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse


para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua


natureza mais potente. Pois o belo apenas é


o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,


e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha


destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.


 


Por isso me contenho e engulo o apelo


deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia


valer? Nem Anjos, nem homens,


e os argutos animais sabem já


que nós no mundo interpretado não estamos


confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez


uma árvore na encosta que possamos rever


diariamente; resta-nos a rua de ontem


e a fidelidade continuada de um hábito,


que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.


 


Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio de espaço do universo


nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,


suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue em frente


do coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?


Ah, um com o outro eles se ocultam da sua própria sorte, apenas.(...)


 


 


 


 

terça-feira, 10 de junho de 2014

"a morte sem mestre"

 


 


 


 


 


 


 


"A morte sem mestre" de Herberto Helder exigiu o pagamento antecipado para a aquisição de um exemplar de mais uma edição limitada. Já tinha sido assim com o "Servidões", apesar da questão financeira ter seguido a modalidade habitual. Desta vez, somos premiados com um CD com cinco poemas lidos pelo autor.


 


 


 



 


 


O primeiro poema remeteu-me para Rilke, para as suas "Elegias de Duíno" e para os seus anjos. Mais à frente, Herberto Helder parece concordar ao referir "As elegias da morte". É um bom começo.


 


 



 


 


É uma obra que se recomenda (considero-a genial, mas isso já é vulgar em Herberto Helder). Escolhi ainda a página 31, mas podia ter sido outra qualquer. Talvez volte a postar sobre o livro e espero não trair o negócio. O "Servidões" ficou-me por 20 e poucos euros e, segundo o livreiro, já vai em mais de 150 nos nos locais de comércio. Mas até o autor parece concordar com o fastio com tanto número.


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 

quarta-feira, 30 de abril de 2014

da primeira elegia

 


 


 


 



A poesia de Rainer Maria Rilke não é fácil e é preciso reler algumas vezes. O resultado é sempre sublime. É um dos meus poetas preferidos.


 


Uma das suas obras maiores, "As elegias de Duíno", confunde-se com a aura do local onde o poeta a iniciou: o castelo de Duíno que se situa perto da cidade de Trieste e sobre o mar Adriático.


 


Deixo-vos uma parte - na tradução de Maria Teresa Dias Furtado - da primeira elegia.


 


 


 


 


 


Se eu gritar quem poderá ouvir-me, nas hierarquias


dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse


para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua


natureza mais potente. Pois o belo apenas é


o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,


e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha


destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.


 


Por isso me contenho e engulo o apelo


deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia


valer? Nem Anjos, nem homens,


e os argutos animais sabem já


que nós no mundo interpretado não estamos


confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez


uma árvore na encosta que possamos rever


diariamente; resta-nos a rua de ontem


e a fidelidade continuada de um hábito,


que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.


 


Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio de espaço do universo


nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,


suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue em frente


do coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?


Ah, um com o outro eles se ocultam da sua própria sorte, apenas.(...)


 


 


 


 


 


terça-feira, 29 de abril de 2014

da nona elegia

 


 


 


 


 


 


 


A nona elegia.


Porquê, se é possível viver o prazo da existência,
até ao seu termo, como loureiro, um pouco mais escuro do que
todos os outros tons de verde, com pequenas ondas no rebordo
da folhagem (como o sorriso de um vento) -: porquê então esta
forçosa existência humana -, e, evitando o destino,
ter saudades do destino?...

(continua)


 


 


 


 


Rainer Maria Rilke.

As Elegias de Duíno,
Tradução de Maria Teresa Dias Furtado,

Assírio & Alvim.

 

domingo, 27 de abril de 2014

Vasco Graça Moura (1942 - 2014)

 


 


 


 


Faleceu Vasco Graça Moura, "um intelectual renascentista do Século XXI".


 


O escritor tem uma obra vasta que vai da poesia ao ensaio passando pela ficção e pelo teatro. Gosto da sua poesia e devo-lhe, acima de tudo e através das traduções, o acesso a duas obras maiores: "A divina comédia" de Dante Alighieri (e essa espécie de introdutório o "A vita nuova") e "Os sonetos a orfeu" do enormíssimo Rainer Maria Rilke. Que descanse em paz.


 


 


 


 



 


 


 


 


 


 


 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

administra

 


 


 


 


Há duas ideias que me ocupam a mente nos picos de contestação que envolvem grupos de pessoas: o aforismo de Wittgenstein que diz que "as relações humanas poderiam ser muito diferentes se fosse transparente a relação entre dor e linguagem, se sentíssemos a dor do outro ao ouvi-lo enunciando a palavra" e a certeza de Rainer Maria Rilke de que, em qualquer circunstância e por mais rodeados de pessoas que estejamos, "estamos irremediavelmente sós".


 


Os professores não escapam à devastação a que têm sido sujeitos a maior parte dos portugueses. Têm até a particularidade de andarem há anos a fio em "mobilidade especial". A catarse colectiva manifesta-se de várias formas. A distância que nos separa do fim da linha é uma incógnita. Os administradores da mesa negocial devem ponderar muito bem sobre o momento de excepção que vivemos e podem passar os olhos pela última obra de Herberto Helder.


 


 



 


 


Herberto Helder (2013:78). "Servidões".


Assírio e Alvim. Lisboa.


 


 


 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

tudo aponta(va)

 


 


 


"Depois da desorientação com a TSU, o discurso oficial de austeridade esforça-se por voltar ao único ponto que consegue ser de partida, de percurso e de chegada: os cortes nos do costume e com os professores no lugar cimeiro da fila dos escolhidos.


 


E os professores já estão mais do que avisados do lema rilkeano: estamos irremediavelmente sós."


 


 


O que leu é um conteúdo de um post de 26 de Setembro de 2012.


 


A Fenprof, que já deve ter recebido o que estará em negociação, alerta para o regresso a Julho de 2012 e para a saga dos horários zero e por aí fora. O despedimento colectivo de cerca de 10000 professores pode ter sido apenas um primeiro passo.