
O crescimento económico ainda não será a "maré enchente que fará subir todos os barcos" e usemos a escola como exemplo.
Quem inscreve a ambição escolar da família, e ainda um bom estatuto sócio-económico, aprende em qualquer sistema e com mais ou menos interdisciplinaridade ou exames. "Só" precisa de currículos sensatos e de aulas exigentes. Esses, sempre integraram o "primeiro mundo". O nosso eterno problema é elevar os que "não querem aprender". O fenómeno atenua-se quando diminui a pobreza. As escolas só ajudam se forem inclusivas para alunos, professores e restantes profissionais (leu bem). Mas não é suficiente. O interesse dos alunos exige a supremacia da docimologia (e dos vários, e não hierarquizáveis, modos de ensinar) e da aprendizagem de conhecimentos e atitudes, onde se inclui a autonomia e a responsabilidade. É um processo com inúmeras variáveis. Exige tempo, requer uma atmosfera moderna (alunos por turma e por aí fora), é difícil e tem as mesmas exigências da educação para a democracia: ambiente democrático sem hesitações. Esta semana, conheceram-se duas conclusões (OCDE) chocantes: "28% dos alunos frequentaram escolas públicas que usaram notas como critério de admissão (sobe para 82% nas "privadas" e nas privadas); Portugal, que tem dois milhões e meio de pobres (500 mil crianças) em 10 milhões de habitantes, está entre os países "que têm mais colégios só com “gente rica”".
Como tudo se relaciona, a indecência continuou a diferenciar a injecção financeira nos bancos do caso da nação (tempo de serviço dos professores). Recapitulemos: as duas rubricas entram no OE, contribuem para o défice e financiam-se nos impostos; os banqueiros e os grandes empresários são menos confiáveis financeiramente do que os professores porque estes pagam impostos pontualmente e sem mácula; somos o único país que ainda financia o desvario bancário que eclodiu em 2007 e que se deveu à corrupção; os mais de 20 mil milhões de euros injectados na banca são equivalentes ao financiamento estrutural de todo o tempo dos professores durante 60 anos.
Só que Portugal não escapa à condição de "protectorado". É o estatuto das nações que têm uma dívida astronómica e pouco poder. Para os credores externos não interessa se foi por causa da corrupção. Essa, é paga pelos "credores" internos como os professores. Aliás, a voz dos implacáveis e poderosos credores externos sentenciou por estes dias e com todo o desplante: "FMI prevê défice zero em 2020, mas avisa contra grupos de pressão despesistas.(...)" E lembrei-me da fotografia em que captei a estátua de Dante Alighieri (o poeta florentino nascido no século XIII, que viajou pelos nove círculos do inferno, pelo purgatório e pelo paraíso) a servir-nos a luz de uma lua que terá iluminado dois séculos depois o voador Leonardo da Vinci e o realista Nicolau Maquiavel. O segundo prevaleceu. Olharia para o estado vigente e concluiria que infelizmente não há luar!
Imagem: Piazza Dante, Nápoles, Abril de 2019.
como é sabido por quem trabalha no terreno, são dadas orientações para que se 'levem ao colo' os alunos que não querem aprender...
ResponderEliminaruma atitude salutarmente protetora mas destruidora de um futuro com qualidade...
Como uma sociedade tão ausente e uma escola tão transbordante, as desorientações já têm décadas.
ResponderEliminarnestes últimos dois anos de enfrentamento do Governo com setores inteiros dos trabalhadores do Estado, destilada no discurso rançoso e paternalista da “irresponsabilidade” das greves, QUE AS DESCREVE COMO “UM DIREITO” QUANDO NÃO DOEM E UMA “OFENSA À SOCIEDADE” QUANDO, pelo contrário, ENCOSTAM O GOVERNO (ou a Administração do Porto de Setúbal, por exemplo) À PAREDE. Em tudo isto, Costa regressou à tradição histórica (Soares, 1976-77 e 1983-85, Sócrates, 2005-11) que do PS conhecíamos demasiadamente bem: se necessário, OFENDER OS DIREITOS E ESMAGAR AS EXPECTATIVAS DOS GRUPOS SOCIAIS QUE OS LEVARAM AO PODER, PUNINDO-OS COM A MESMA POLÍTICA E A MESMA EXPLICAÇÃO MORAL QUE A DIREITA USA(RIA), AO MESMO TEMPO QUE SE LHES PEDE GRATIDÃO PORQUE COM A DIREITA SERIA AINDA PIOR...
ResponderEliminarEsta categoria ficcional dos magos das Finanças tem, como sabemos, grande sucesso em Portugal. A SALAZAR, 90 anos depois, metade dos quais em ditadura, GARANTIU-LHE PRESENÇA EM TODOS OS MANUAIS DE HISTÓRIA do 9.º ano, COM ESSA FRASEZINHA EQUÍVOCA DE “PÔS ORDEM NAS FINANÇAS”. Cavaco quis entrar pela mesma porta da História: trazer “ordem” depois da “desordem revolucionária”.
Numa sociedade ainda cheia de medo e de ansiedade pelo futuro (esse seguro de vida de todas as formas de dominação), percebe-se que tudo isto se faça SEM SE EXPLICAR AS CONSEQUÊNCIAS DO PESO ESMAGADOR QUE TEM SOBRE A ECONOMIA E A VIDA DAS PESSOAS QUE O ESTADO PAGUE SEM DISCUTIR AS DÍVIDAS DO SETOR FINANCEIRO, ESTRATOSFERICAMENTE ACIMA DE TUDO QUANTO TERIA QUE PAGAR AOS PROFESSORES.
O QUE CENTENO PEDE A MILHÕES DE PORTUGUESES COM SALÁRIO E REFORMAS MÍNIMAS É QUE NÃO TENTEM PERCEBER SEQUER A ENORMIDADE DAS INJEÇÕES NA BANCA, MAS QUE SE ESCANDALIZEM COM OS “PRIVILÉGIOS” DOS PROFESSORES, desrespeitadores do resto dos funcionários, dos alunos, dos pais, dirigidos por um “extremista” que é preciso parar
definitivamente!
Essa é a moral desta história: “A EQUIDADE entre os portugueses e a credibilidade internacional de Portugal” (Costa, 6.5.2019) ESTÁ EM CAUSA SE SE RECONHECEREM OS DIREITOS OBJETIVOS DE QUEM TRABALHOU — porque trabalhou! —, MAS NÃO ESTÁ AO SE ENCOBRIR COM MILHARES DE MILHÕES DE EUROS OS CRIMES DOS BANQUEIROS, NEM É DESCREDIBILIZADOR DO PAÍS QUE ELES E OS BERARDOS PERMANEÇAM IMPUNES.
Manuel Loff, historiador
Enfim.
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