domingo, 22 de setembro de 2019

Professores sem Lista para a Odisseia

 


O primeiro-ministro "levantará a bandeira branca com os professores que até 2023 progredirão, em média, dois escalões". Há motivos para duvidar. Para além da questão mais debatida, importa sublinhar outra presença de Kafka: há dois escalões (dos dez) que requerem vagas e há centenas de professores em espera sem conhecerem a lista e nem sequer os critérios de ordenação. São, em muitos casos, professores já com mais de 50 anos de idade, e com mais de 20 ou 30 no quadro, com salários líquidos que raramente ultrapassam os 1.300 euros e que estão há década e meia sem qualquer mudança de escalão. Se este exemplo gritante não foi resolvido até agora, não é em pré-campanha que se acreditará em algo diferente.


Por outro lado, está na moda "exigir" aos professores que sejam "interdisciplinares, criativos, inovadores e inclusivos". É bom recordar três asserções: leccionar é complexo; enquanto existirem professores (nem os mais optimistas com a IA se atrevem ao seu desaparecimento) haverá cargas genéticas e componentes ambientais a influenciar estilos de ensino e não é avisado misturar docimologia e técnicas de ensino com ideologias; as referidas "exigências" têm uma história de pelo menos meio século e um conhecido constrangimento como sublinhou por estes dias o PR: "“Horários e burocracias”: Marcelo diz que vida de professor “é uma odisseia”". Mais do que a pedagogia e a didáctica, estamos perante um problema de gestão. Ou seja, se, em regra, se observa a inacção na organização e gestão das escolas associada à não eliminação da hiperburocracia (a digital e a outra), não será estranho que a não observância da "modernidade" obedeça a um passar de culpa para os do costume: os professores que leccionam; os com e os sem lista para a odisseia.


Parque-Ibirapuera-Fila-de-árvores-no-Parque-do-Ib


Nota: a imagem, que obtive na Internet sem referência ao autor, tem dois objectivos: umas árvores em lista "inamovível", como os professores, e uma alusão ao ambiente. São temas que se cruzam. Se as alterações climáticas exigem 2030 como um prazo - muda-se até aí ou é impossível conter efeitos mais devastadores -, a falta de professores tem o mesmo registo. Já nada se poderá fazer no presente, onde a falta de professores é indisfarçável, e resta implorar para que as baixas médicas prolongadas diminuam. Mas o mais grave é que nada se está a fazer para que a médio prazo a situação não se agrave. E com tanta inacção, há motivos para temer o longo prazo. Se o ambiente é obrigatório, e bem, na campanha eleitoral, a falta de professores não existe.

3 comentários:

  1. essa classe de profs, dos 40-50 anos, foi particularmente visada porque é onde estão a maioria, pelo que se fez contas a longo prazo e criou-se a barreira das vagas e das quotas de classificação de mérito para impedir muitos de passar para além do 6º escalão quando chegaram acima dos 60 anos, diminuindo o valor da pensão de reforma (se por acaso ainda existir...). Por isso é uma falácia de propaganda essa coisa de subir 2 escalões, acrescentando que nada impede um governo congelar tudo outra vez por via do OE.
    A docimologia é o cerne da hiperburocracia, que se agravou com o DL 54 e 55, levando a um paroxismo que roça o burnout pedagógico.

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  2. A hiperburocracia tornou-se o cerne; mas nem sempre foi assim.

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