sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Uma Arma de Destruição Educativa - Por Mário Silva

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"Estava sentada olhando para o ecran do computador com uma expressão facial visivelmente agastada e aborrecida. Pensando que seria o retomar de mais um ano com previsivel avalanche de burocracia inútil que desvia daquilo que ela gosta de fazer- preparar e lecionar aulas- cumprimento afavelmente para desanuviar o estado psicológico. Olhou para mim, e com sorriso sereno, afirmou:”Olha, o 6º escalão vai ser o meu topo da carreira!...”, apontando para o ecran. Aproximei-me e vi que estava aberto um documento pdf que se intitulava “Lista Definitiva de 2021 de Graduação dos Docentes Candidatos às Vagas para a Progressão ao 5º Escalão da Carreira”. Também estava aberta a lista para progressão ao 7º escalão, ambas com mais de duzentas páginas!... Em ambas estavam mais de 4 mil docentes!...


A desgraçada estava colocada para lá do 4000 e aí compreendi a afirmação. Sentei e comecei a fazer contas com ela, estabelecendo uma premissa teoricamente possível mas racionalmente improvável: supor que não tinha ido para a lista negra. Tendo 52 anos e ainda beneficiando de 1 ano da recuperação do tempo de serviço, iria entrar no 6º com 53 anos, no 7º com 57 anos, no 8º com 61 anos, no 9º com 65 anos e no 10º com 69 anos...! Conclui-se que se quisesse usufruir da remuneração do 10º escalão teria de trabalhar para além dos 70 anos...! Quem considera isto exequível e realista?...


Presumindo que fica na lista 4 anos (cenário otimista) e que não fica na lista negra no 6º escalão, só pode almejar terminar a carreira no 8º escalão; presumindo que também fique retida no 6º escalão, então terminará no 7º escalão.


Tendo noção realista que o poder governamental será sempre ocupado pela dupla PS/PSD (eventualmente com a muleta BE/PCP ou CDS), os 3 anos de serviço que faltam jamais serão recuperados, pelo que é evidente que estes docentes sabem que a sua carreira está definitivamente destruída. Qual será a motivação profissional destes milhares de docentes, sabendo que mesmo que façam tudo muito bom, estará vedado o acesso ao 8º, 9º e 10º escalões?


Que prejuízo grave irá acontecer, pedagógico e pessoal, para docentes e estudantes, por causa deste modelo de gestão governamental apenas obcecado com o valor orçamental?


Se o objetivo seria destruir o sistema educativo, as vidas dos docentes e dos estudantes, então idealizaram um procedimento eficaz para isso...


Mário Silva"


 


6 comentários:

  1. Nem mais! Estou na mesma situação. Efetivamente, não é só a carreira que fica pelo caminho. Também a autoestima, a motivação e a esperança em contribuir para um sistema educativo mais humano, pedagógico e construtivo, quer para os professores, quer para os alunos, justamente estes que a sociedade, e o sistema educativo em particular, deve apoiar na sua formação pessoal e académica, criando todas as condições para que venham a ser bons cidadãos e profissionais. Ninguém se deve admirar por haver cada vez mais professores doentes, em acompanhamento psiquiátrico, em estado de burnout pelo stress e esgotamento acumulados (e não se pense que é só por causa da idade avançada), pela angustia de ver quase tudo pelo qual estudaram e trabalharam ir pelo cano abaixo, pela ansiedade e pelo medo de não conseguirem cumprir a carreira e obter aquilo a que têm direito, pela pressão da exigência de uma avaliação feita mais na base das simpatias e do "ouvido", pouco clara e transparente e pela falta de respeito pelo seu trabalho e de dignificação do seu papel na construção de valores e recursos humanos que contribuem para o progresso social, económico, cientifico, artístico e cultural da sociedade.

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  2. A força está transformada em resignação total, numa espécie de capitulação incondicional. É uma perspetiva macabra aquela que se vislumbra quando se projeta o futuro de 75% da classe docente na faixa etária dos 40-55 anos.

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  3. A não ser que se tenha tido um treino especifico e intenso de preparação para a adversidade frequente, é perfeitamente natural a instalação do desânimo e desmotivação. Paradoxalmente, um professor jovem (25-30 anos) tem maior probabilidade de chegar ao topo da carreira do que um com 40 a 55 anos, baseando nos seguintes pressupostos: entra no quadro com 25 anos, não fica retido no 4º nem no 6º escalão, entra no 10º escalão com 63 anos. Entrando no quadro com 25 anos e ficando retido no 4º e 6º escalão num total de 8 anos, entra no 10º escalão com 67 anos.
    Como a carreira docente sempre esteve mal estruturada, pertencendo a uma profissão em que não se aplica o principio "trabalho igual, salário igual", ocorre a perversão de 2 docentes a realizarem rigorosamente a mesma função, terem salários com diferenças de centenas de euros liquidos...!
    Esta situação vai minando o ambiente de trabalho, instalando-se uma 'paz podre' dentro de cada escola, tudo isto planeado intencionalmente pelos governos do bloco central (PS/PSD).

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