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"Tenho dificuldade em ter opinião sobre o conflito israelo-palestiniano por causa do excesso de memória que parece impedir a paz", ouvi num podcast esta explicação interessante. É que, realmente, a interminável contenda tem milénios. E nos argumentos, acrescentou-se mais ou menos assim: "conversando com os beligerantes, percebe-se que factos passados há dois mil anos são relatados como se tivessem acontecido ontem; e depois, há milhares de factos, e que factos, e de razões".
E lembrei-me disto, e sem sequer estar a comentar o conflito israelo-palestiniano, quando estava a escrever um texto sobre a lutas dos professores. De repente, pareceu-me que já tinha abordado aquele assunto. São tantos anos a desconstruir as mesmas políticas, que há um excesso de memória que agrava o conflito. Torna-o interminável, com sérios prejuízos para o exercício de professor como valor inalienável da democracia e da elevação da escola pública; e se os governos mantêm a inércia, em associação com a plataforma de sindicatos e com os fingimentos negociais, o avolumar da memória dificulta tudo.
“Excesso de memória” ou desejo ancestral de justiça? Seja como fôr, a expressão é interessante e inspiradora mesmo virando-a do avesso. Excesso? Quando começa um excesso? Quem o define? Por falar em “excesso de memória”, será que pensar em profundidade também perturba? Invocar o “excesso de memória” não será uma tosca artimanha para defender o status quo?
ResponderEliminarO que é “memória”? São lendas e mitologias parte dela? Aqui entra a História (de propósito com maiúscula). No conflito israelo-árabe há um terceiro protagonista que tem todo o interesse em mantê-lo, agravá-lo, expandi-lo. De resto é o mesmo protagonista que anda há mais de um século a semear discórdias entre os povos do mundo.
Nenhum povo e nenhuma classe explorada sofre de “excesso de memória”. Na luta pela liberdade e justiça toda a memória é pouca. A luta dos professores e muito especial a luta dos professores da escola pública é justa. Ouvir “Cuidado Com as Imitações” de Sérgio Godinho continua a ser estimulante.
Muito bom esse ângulo de análise. Obrigado.
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