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Título: Há "uma organização de trabalho que adoece os professores" e nada acontece.
Texto:
Os estudos mais diversos repetem a conclusão: os professores desesperam pelo dia da reforma e os mais jovens equacionam mudar de profissão. Identifica-se repetidamente "uma organização de trabalho que os adoece". Mas apesar desta evidência ter quase duas décadas, não há um relatório dos serviços centrais do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) que o detecte e nem sequer os governantes o identificam tal o grau de insensibilidade e de ineficiência.
De facto, "reformam-se este ano mais 3600 professores, o segundo valor mais alto da última década," diz o Público, e percebe-se que, em regra, a minoria privilegiada que prolonga o exercício não fez parte da maioria que foi, há muito, identificada pelos estudos do cansaço e da exaustão (números acima dos 70%). Desde 2021, e pelo menos até 2030, que o número de professores que se reforma se situa entre os 3500 e os 4000 por ano.
Acima de tudo, a burocracia não pára de crescer e é um dos flagelos identificados. Uma das componentes críticas descreve-se assim: todas as escolas e agrupamentos pagam licenças a empresas privadas para a gestão de diversas áreas (e o mais triste e caricato, é que o MECI começou em 1998 o seu portal - o E360 - e abandonou-o recentemente por incompetência), onde se incluem os dados dos alunos, da gestão pedagógica e da avaliação interna das organizações. Seria moderno e sensato que o MECI, que licencia o software e sempre que cria nova legislação que exige esses dados, indicasse às empresas a "nova" informação a obter, e a relacionar e automatizar, nas plataformas digitais. Como não o faz, as escolas e agrupamentos entram, com mais ou menos "criatividade", numa infernal circulação de ficheiros excel e word por email. Origina o doentio lançamento de dados inúteis e a realização de reuniões de agenda repetida. Os registos são ainda inúmeras vezes impressos e arquivados, a maioria sem qualquer descrição identificável, em quilómetros (literalmente) de prateleiras.
Agravou-se porque os serviços centrais do MECI impuseram, há mais de uma década, mega-agrupamentos de escolas, num modelo testado e veementemente desaconselhado já no século passado. Apesar de mal-desenhado para uma escola, os serviços centrais generalizaram-no (agrupando a eito dez, vinte ou trinta escolas das mais variadas tipologias) ampliando o fenómeno da má burocracia que sustenta a ilusão do controlo. Mas, repita-se, quem ler os relatórios dos avaliadores externos, convence-se que tudo funciona na perfeição e a tragédia parece não ter fim.
Muito obrigada, Paulo Prudêncio.
ResponderEliminarAbraço, Joana.
ResponderEliminarSem dúvida. Sei disso. Obrigado.
ResponderEliminarExcelente texto, como todos os que escreve. Muito obrigado colega Paulo Prudêncio. Cristina Gonçalves
ResponderEliminarMuito obrigado, Cristina.
ResponderEliminarPermite-me este desabafo, eu tinha muitos, mas vou ser poupado. Não são só os relatórios das inspeções que mencionam as maravilhas das escolas, muitos, muitos diretores também.
ResponderEliminarFalaste dos malditos mega agrupamentos e muito bem. Poucos falam disso e são uma das grandes causas do miserável funcionamento das escolas. Penso que provoca mais danos do que a burocracia, inagina só.
Depois, eu sou um professor tão exigente, mas tão exigente e refilao que só peço uma coisa simples que já tinha em minha casa em 1990: um computador que funcionasse bem nas salas de aula. Reduzo a minha felicidade profissional a um simples computador que funcione.
Obrigado, Prudêncio.
Com os diabos, ninguém no Ministério lê os teus textos?
Obrigado, Agostinho. Concordo, claro. Força aí. Como se compreende, não se pode meter tudo em cada texto.
ResponderEliminarA organização do trabalho, de natureza esclavagista, adoece os individuos há muito tempo (reveja-se o saudoso filme "Tempos modernos" protagonizado pelo sublime Charlie Chaplin...). Claro que essa organização não adoece quem a idealizou porque não se sujeita a ela...
ResponderEliminarPonto.
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