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segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Há "uma organização de trabalho que adoece os professores" e nada acontece

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Título: Há "uma organização de trabalho que adoece os professores" e nada acontece.


Texto:


Os estudos mais diversos repetem a conclusão: os professores desesperam pelo dia da reforma e os mais jovens equacionam mudar de profissão. Identifica-se repetidamente "uma organização de trabalho que os adoece". Mas apesar desta evidência ter quase duas décadas, não há um relatório dos serviços centrais do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) que o detecte e nem sequer os governantes o identificam tal o grau de insensibilidade e de ineficiência.


De facto, "reformam-se este ano mais 3600 professores, o segundo valor mais alto da última década," diz o Público, e percebe-se que, em regra, a minoria privilegiada que prolonga o exercício não fez parte da maioria que foi, há muito, identificada pelos estudos do cansaço e da exaustão (números acima dos 70%). Desde 2021, e pelo menos até 2030, que o número de professores que se reforma se situa entre os 3500 e os 4000 por ano.



Acima de tudo, a burocracia não pára de crescer e é um dos flagelos identificados. Uma das componentes críticas descreve-se assim: todas as escolas e agrupamentos pagam licenças a empresas privadas para a gestão de diversas áreas (e o mais triste e caricato, é que o MECI começou em 1998 o seu portal - o E360 - e abandonou-o recentemente por incompetência), onde se incluem os dados dos alunos, da gestão pedagógica e da avaliação interna das organizações. Seria moderno e sensato que o MECI, que licencia o software e sempre que cria nova legislação que exige esses dados, indicasse às empresas a "nova" informação a obter, e a relacionar e automatizar, nas plataformas digitais. Como não o faz, as escolas e agrupamentos entram, com mais ou menos "criatividade", numa infernal circulação de ficheiros excel e word por email. Origina o doentio lançamento de dados inúteis e a realização de reuniões de agenda repetida. Os registos são ainda inúmeras vezes impressos e arquivados, a maioria sem qualquer descrição identificável, em quilómetros (literalmente) de prateleiras.


Agravou-se porque os serviços centrais do MECI impuseram, há mais de uma década, mega-agrupamentos de escolas, num modelo testado e veementemente desaconselhado já no século passado. Apesar de mal-desenhado para uma escola, os serviços centrais generalizaram-no (agrupando a eito dez, vinte ou trinta escolas das mais variadas tipologias) ampliando o fenómeno da má burocracia que sustenta a ilusão do controlo. Mas, repita-se, quem ler os relatórios dos avaliadores externos, convence-se que tudo funciona na perfeição e a tragédia parece não ter fim.


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

A energia psicológica esgota-se? (3)

 


A especialização desportiva percebeu o esgotamento das capacidades volitivas. A energia psicológica esgota-se. É por isso que se contraria a precocidade. Os modelos de formação historicamente bem sucedidos graduam a exposição aos quadros competitivos e exigem que a competição escolar (não só a desportiva) destinada às crianças se diferencie da aplicada a jovens e adultos. Em regra, quem começa cedo a competir como se de um adulto se tratasse, atinge a saturação volitiva quando se esperava o contrário. Os difíceis estudos empíricos neste domínio dão passos e comprovam os efeitos da saturação da vontade. O psicólogo Roy Baumeister tem importantes contributos que podem levar ao reconhecimento da OMS. Criou o conceito "depleção do ego". É como se a vontade fosse um músculo que deixa de ser irrigado; acelera a queda de açúcar e cria um efeito geral de fadiga. Isso explica o burnout dos professores que tomam dezenas de decisões diárias debaixo de forte ansiedade (os últimos anos entre nós são um bom exemplo dos efeitos da sobrecarga; competitiva e de outra ordem). Daí ao esgotamento é um passo acelerado. A degradação das carreiras influencia os indicadores de saúde. Ou seja, abandonámos o tempo das incertezas em relação ao esgotamento da força de vontade e é interessante que um estudo com adultos acima dos quarenta explique os efeitos da sobrecarga competitiva em crianças e jovens; como há muito se intuía.

quarta-feira, 12 de julho de 2023

Simplesmente brutal; post de 2010

Uma entrevista a Christophe Dejours, no antigo P2 do Público, foi ao osso do Taylorismo e deixou a comunidade que se interessava pela gestão das organizações em estado de choque (bem sei que talvez Frederick Taylor tenha as costas largas, que deveria ser avaliado com o pensamento do seu tempo e por aquilo que defendeu e não pelo que fizeram com as suas teorias; embora a lógica empresarial em que "uns quantos, poucos, apenas pensam, e uns tantos, muitos, apenas fazem" tenha provocado inúmeras dilacerações relacionais).


A blogosfera também reagiu e, como pode ler aqui, o acento tónico foi óbvio: a entrevista apenas constatou o que há muito se sabia. E o mais grave, é que esse "modus operandi" empresarial foi incutido à força nos outros espíritos planetários.


É uma entrevista imperdível. Apresento-a reduzida de acordo com os meus critérios.



Psiquiatra, psicanalista e professor no Conservatoire National des Arts et Métiers, em Paris, Christophe Dejours dirige ali o Laboratório de Psicologia do Trabalho e da Acção – uma das raras equipas no mundo que estuda a relação entre trabalho e doença mental. Esteve há dias em Lisboa... (...) ...falou do sofrimento no trabalho. Não apenas do sofrimento enquanto gerador de patologias mentais ou de esgotamentos, mas sobretudo enquanto base para a realização pessoal.(...)

O suicídio ligado ao trabalho é um fenómeno novo? 
O que é muito novo é a emergência de suicídios e de tentativas de suicídio no próprio local de trabalho. Apareceu em França há apenas 12, 13 anos. E não só em França – as primeiras investigações foram feitas na Bélgica, nas linhas de montagem de automóveis alemães. É um fenómeno que atinge todos os países ocidentais. O facto de as pessoas irem suicidar-se no local de trabalho tem obviamente um significado. É uma mensagem extremamente brutal, a pior do que se possa imaginar – mas não é uma chantagem, porque essas pessoas não ganham nada com o seu suicídio. É dirigida à comunidade de trabalho, aos colegas, ao chefe, aos subalternos, à empresa. Toda a questão reside em descodificar essa mensagem. 

Afecta certas categorias de trabalhadores mais do que outras? 
Na minha experiência, há suicídios em todas as categorias – nas linhas de montagem, entre os quadros superiores das telecomunicações, entre os bancários, nos trabalhadores dos serviços, nas actividades industriais, na agricultura.(...) 

O que é que mudou nas empresas? 
A organização do trabalho. Para nós, clínicos, o que mudou foram principalmente três coisas: a introdução de novos métodos de avaliação do trabalho, em particular a avaliação individual do desempenho; a introdução de técnicas ligadas à chamada “qualidade total”; e o outsourcing, que tornou o trabalho mais precário. 

A avaliação individual é uma técnica extremamente poderosa que modificou totalmente o mundo do trabalho, porque pôs em concorrência os serviços, as empresas, as sucursais – e também os indivíduos. E se estiver associada quer a prémios ou promoções, quer a ameaças em relação à manutenção do emprego, isso gera o medo. E como as pessoas estão agora a competir entre elas, o êxito dos colegas constitui uma ameaça, altera profundamente as relações no trabalho: “O que quero é que os outros não consigam fazer bem o seu trabalho.” 

Muito rapidamente, as pessoas aprendem a sonegar informação, a fazer circular boatos e, aos poucos, todos os elos que existiam até aí – a atenção aos outros, a consideração, a ajuda mútua – acabam por ser destruídos. As pessoas já não se falam, já não olham umas para as outras. E quando uma delas é vítima de uma injustiça, quando é escolhida como alvo de um assédio, ninguém se mexe…

Mas o assédio no trabalho é novo? 
Não, mas a diferença é que, antes, as pessoas não adoeciam. O que mudou não foi o assédio, o que mudou é que as solidariedades desapareceram. Quando alguém era assediado, beneficiava do olhar dos outros, da ajuda dos outros, ou simplesmente do testemunho dos outros. Agora estão sós perante o assediador – é isso que é particularmente difícil de suportar. O mais difícil em tudo isto não é o facto de ser assediado, mas o facto de viver uma traição – a traição dos outros. Descobrimos de repente que as pessoas com quem trabalhamos há anos são cobardes, que se recusam a testemunhar, que nos evitam, que não querem falar connosco.(...) 

Uma formação para o assédio? 
Exactamente. Há estágios para aprenderem essas técnicas. Posso contar, por exemplo, o caso de um estágio de formação em França em que, no início, cada um dos 15 participantes, todos eles quadros superiores, recebeu um gatinho. O estágio durou uma semana e, durante essa semana, cada participante tinha de tomar conta do seu gatinho. Como é óbvio, as pessoas afeiçoaram-se ao seu gato, cada um falava do seu gato durante as reuniões, etc.. E, no fim do estágio, o director do estágio deu a todos a ordem de… matar o seu gato. 

Está a descrever um cenário totalmente nazi... 
Só que aqui ninguém estava a apontar uma espingarda à cabeça de ninguém para o obrigar a matar o gato. Seja como for, um dos participantes, uma mulher, adoeceu. Teve uma descompensação aguda e eu tive de tratá-la – foi assim que soube do caso. Mas os outros 14 mataram os seus gatos. O estágio era para aprender a ser impiedoso, uma aprendizagem do assédio.(...) 

E os sindicatos? 
Penso que os sindicatos foram em parte destruídos pela evolução da organização do trabalho. Não se opuseram à introdução dos novos métodos de avaliação. Mesmo os trabalhadores sindicalizados viram-se presos numa dinâmica em que aceitaram compromissos com a direcção. Em França, a sindicalização diminuiu imenso – as pessoas já não acreditam nos sindicatos porque conhecem as suas práticas desleais.(...)

Falou de “qualidade total”. O que é exactamente?
É uma segunda medida que foi introduzida na sequência da avaliação individual. Acontece que, quando se faz a avaliação individual do desempenho, está-se a querer avaliar algo, o trabalho, que não é possível avaliar de forma quantitativa, objectiva, através de medições. Portanto, o que está a ser medido na avaliação não é o trabalho. No melhor dos casos, está-se a medir o resultado do trabalho. Mas isso não é a mesma coisa. Não existe uma relação de proporcionalidade entre o trabalho e o resultado do trabalho. 

É como se em vez de olhar para o conteúdo dos artigos de um jornalista, apenas se contasse o número de artigos que esse jornalista escreveu.(...).

Os médicos sempre foram considerados uma classe muito solidária… 
Foram. Já não são. Eu trabalhei anos nos hospitais, e adorava trabalhar lá, porque existia um espírito de equipa fantástico. Éramos felizes no nosso trabalho. Hoje, as pessoas não querem trabalhar nos hospitais, não querem fazer bancos, tentam safar-se. São todos contra todos. Bastaram uns anos para destruir a solidariedade no hospital. O que aconteceu é aterrador.

O que é importante perceber é que a destruição dos elos sociais no trabalho pelos gestores nos fragiliza a todos perante a doença mental. E é por isso que as pessoas se suicidam. Não quer dizer que o sofrimento seja maior do que no passado; são as nossas defesas que deixaram de funcionar.

Portanto, as ferramentas de gestão são na realidade ferramentas de repressão, de dominação pelo medo. 
Sim, o termo exacto é dominação; são técnicas de dominação.

Então, é preciso acabar com essas práticas? 
Eu não diria que é preciso acabar com tudo. Acho que não devemos renunciar à avaliação, incluindo a individual. Mas é preciso renunciar a certas técnicas. Em particular, tudo o que é quantitativo e objectivo é falso e é preciso acabar com isso. Mas há avaliações que não são quantitativas e objectivas – a avaliação dos pares, da colectividade, a avaliação da beleza, da elegância de um trabalho, do facto de ser conforme às regras profissionais. Trata-se de avaliações assentes na qualidade e no desempenho do ofício. Mesmo a entrevista de avaliação pode ser interessante e as pessoas não são contra. 

Mas sobretudo, a avaliação não deve ser apenas individual. É extremamente importante começar a concentrar os esforços na avaliação do trabalho colectivo e nomeadamente da cooperação, do contributo de cada um. Mas como não sabemos analisar a cooperação, analisa-se somente o desempenho individual.(...)

Não haverá por detrás desta nova organização do trabalho objectivos de controlo das pessoas, de redução da liberdade individual, que extravasam o âmbito empresarial? 
É uma questão difícil. Acho que qualquer método de organização do trabalho é ao mesmo tempo um método de dominação. Não é possível dissociar as duas coisas. Há 40 anos que os sociólogos trabalham nisto. Todos os métodos de organização do trabalho visam uma divisão das tarefas, por razões técnicas, de racionalidade, de gestão. Mas não há nenhuma divisão técnica do trabalho que não venha acompanhada de um sistema de controlo, em virtude do qual as pessoas vão cumprir as ordens.

Há tecnologias da dominação. O sistema de Taylor, ou taylorismo, é essencialmente um método de dominação e não um método de trabalho. O método de Ford é um método de trabalho.

Contudo, não penso que a intenção do patronato (francês, em particular), nem dos homens de Estado seja instaurar o totalitarismo. Mas é indubitável que introduzem métodos de dominação, através da organização do trabalho que, de facto, destroem o mundo social.

Qual é a diferença entre taylorismo e fordismo? 
Taylor inventou a divisão das tarefas entre as pessoas e a interposição, entre cada tarefa, de uma intervenção da direcção, através de um capataz. Há constantemente alguém a vigiar e a exigir obediência ao trabalhador. A palavra-chave é obediência. “Quando eu disser para parar de trabalhar e ir comer qualquer coisa, você vai obedecer. Se concordar, será pago mais 50 cêntimos pela sua obediência.” A única coisa que importa é a obediência. O objectivo é acabar com o ócio, os tempos mortos.

Só muito mais tarde é que Ford introduziu uma nova técnica, a linha de montagem, que é uma aplicação do taylorismo. Na realidade, não é o progresso tecnológico que determina a transformação das relações sociais, mas a transformação das relações de dominação que abre o caminho a novas tecnologias. 

O toyotismo [ou Sistema Toyota de Produção] utiliza um outro método de dominação, o ohnismo [inventado por Taiichi Ohno (1912-1990)], diferente do taylorismo. É um método particular que extrai a inteligência das pessoas de uma forma muito mais subtil que o taylorismo, que apenas estipula que há pessoas que têm de obedecer e outras que mandam.(...)

O que fizeram? 
Abandonaram a avaliação individual – aliás, esses patrões estavam totalmente fartos dela. Durante um encontro que tive com o presidente de uma das empresas, ele confessou-me, após um longo momento de reflexão, que o que mais odiava no seu trabalho era ter de fazer a avaliação dos seus subordinados e que essa era a altura mais infernal do ano. Surpreendente, não? E a razão que me deu foi que a avaliação individual não ajuda a resolver os problemas da empresa. Pelo contrário, agrava as coisas.(...).



(Utilizei este texto num post em 21 de Fevereiro de 2010)

domingo, 9 de julho de 2023

Universo Escolar e Plataformas Digitais

Não é surpreendente que se apontem as "empresas externas" (o outsourcing e as plataformas digitais) como uma das componentes mais desfavoráveis nas organizações modernas. A opção facilitou o aumento da escala, mas desprezou a gestão de proximidade como valor precioso e inalienável. A "gestão do exterior" satisfez os investidores porque permitiu a subida dos lucros com a redução de profissionais. Essa supressão cerebral (na maioria dos casos, e incluindo o escolar, sem qualquer relação com a 4ª indústria ou com a robotização) deslocou para o exterior a definição da informação a obter.


As instituições deixaram de agir livremente sobre os sistemas de informação e perdeu-se a ideia de cooperação em que "todos" ajudavam na programação do software. E foi também uma dupla perda: se antes o poder era exercido por quem decidia sobre o financeiro, a partir daí surgiu um pólo paralelo: a informação. A "gestão do exterior" apoderou-se dos dois domínios e pode sempre argumentar: "é uma boa ideia, realmente, mas impossível de concretizar".


A dependência externa generalizou-se. Como disse Niklas Luhman, o homem perdeu "a posição de centralidade no organismo social e foi remetido para o exterior, passando a fazer parte do meio ambiente do sistema. Tornou-se uma causa para o aparecimento de problemas constantes e de complexidades crescentes" (com mais visibilidade, no caso escolar, para professores e restantes profissionais, mas com consequências para os alunos).


Já usei parte desta argumentação noutros textos.

quarta-feira, 12 de abril de 2023

"Só 1% dos alunos admite vir a ser professor" post de 08.07.2018


"Só 1% dos alunos admite vir a ser professor"


08.07.18




 


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Esta notícia da 1ª página do Expresso é do PISA 2015. É desenvolvida na página 22 e refere os primeiros resultados do estudo da Universidade Nova sobre o burnout dos professores. Espera-se o desenvolvimento do tema numa das próximas edições.



domingo, 15 de maio de 2022

Revoluções e Evaporações

Sociólogos da educação desenharam, na primeira década do milénio, uma revolução nas escolas portuguesas inspirada na estrutura vertical da organização militar. A aplicação dessas teses noutras organizações do mundo do trabalho provocou convulsões inimagináveis que resultaram em precariedade e burnout e noutros fenómenos sociais, e até psiquiátricos, graves. Está documentado. Mas os revolucionários escolares teimam em não assumir o desaire. É estranho; e é pena porque se evitavam tantos problemas de saúde pública. Aliás, é também surpreendente a teimosia revolucionária porque é frequente a literatura da sociologia citar Franz Kafka: “Cada revolução evapora-se deixando atrás de si apenas o depósito de uma nova burocracia.”


3ª edição.

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Da Falta de Professores

Esta publicação é de 27 de Setembro de 2017 e podia ir muito mais atrás.


Ficaram professores por colocar? Sim; em poucos grupos de recrutamento (uma modernice vocabular recente e evitável) é um facto. Mas uma passagem pelas listas dos professores não colocados ou de reservas de recrutamento, regista um número reduzido (ou ausência) de candidatos para várias disciplinas. É uma tendência que se agrava e que abrirá telejornais. Com a "eterna" precarização dos professores contratados (há quase duas décadas nos vínculos e salários) associada ao estatuto de cobaia na avaliação kafkiana (e de moeda de troca entre governos e sindicatos) e passando por um processo de desconsideração profissional, é natural que os jovens desistam de "ser professor" e que os menos jovens optem por outra actividade no país ou no estrangeiro.


 


PS: se nada se fizer no estatuto dos professores do quadro, as condições de aposentação associadas ao burnout provocarão uma avalanche de insubstituíveis. Aliás, basta que o inverno se imponha.


 


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Imagem obtida na internet


sem referência ao autor

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Revoluções

Sociólogos da educação desenharam, na primeira década do milénio, uma revolução nas escolas portuguesas inspirada na estrutura vertical da organização militar. A aplicação dessas teses noutras organizações do mundo do trabalho provocou convulsões inimagináveis que resultaram em precariedade e burnout e noutros fenómenos sociais, e até psiquiátricos, graves. Está documentado. Mas os revolucionários escolares teimam em não assumir o desaire. É estranho; e é pena porque se evitavam tantos problemas de saúde pública. Aliás, é também surpreendente a teimosia revolucionária porque é frequente a literatura da sociologia citar Franz Kafka: “Cada revolução evapora-se deixando atrás de si apenas o depósito de uma nova burocracia.”


2ª edição.

domingo, 28 de julho de 2019

Das Revoluções (das escolares também)

 


Sociólogos da educação desenharam, na primeira década do milénio, uma revolução nas escolas portuguesas inspirada numa estrutura vertical ao jeito da organização militar. A aplicação dessas teses noutras organizações do mundo do trabalho provocou convulsões inimagináveis que resultaram em precariedade e burnout e noutros fenómenos sociais, e até psiquiátricos, graves. Está documentado. Mas os revolucionários escolares teimam em não assumir o desaire. É estranho; e é pena porque se evitavam tantos problemas de saúde pública. Aliás, é também surpreendente a teimosia revolucionária porque é frequente a literatura da sociologia citar Franz Kafka: “Cada revolução evapora-se deixando atrás de si apenas o depósito de uma nova burocracia.”

sábado, 27 de julho de 2019

Os Imutáveis

 


Nem os estudos associados ao confronto com a realidade demovem a terceira via que chefiou a educação nos governos de Sócrates. Essa Nova Política de Gestão Pública datou-se com um péssimo lastro histórico. Os seus efeitos ainda geram uma eclosão enevoada porque os destinatários estão exauridos de tanta canseira ("(...)Apenas a fachada está intacta e já não há estrutura. É esta a imagem usada para explicar alguém que se encontra em 'burnout'. Alguém que está para além de exausto, que já deu mais do que podia dar, embora por fora se mostre intocável. “Tal como o nome indica, burnout é estar todo queimado por dentro”, explica em entrevista ao Expresso Nídia Zózimo, médica e coordenadora do Gabinete Nacional de Apoio ao Médico(...)") e anestesiados com a disciplina orçamental (como se não houvesse vida para além disso). A próxima legislatura, e até o que sobra desta, será efervescente se a lógica que suportou a actual maioria não se impuser corporizando os princípios da democracia. Aplicada em geral, a terceira via desgasta o centro político e “empurra” os votantes para os extremos. Se o imutáveis prevalecerem, os extremos alargar-se-ão no fim de uma próxima legislatura ou na presença de uma crise semelhante à de 2008. Aliás, e como exemplo, o além da troica de Passos e Portas foi um primeiro exercício que explicou a possibilidade iliberal entre nós (e que, e afinal, já tinha começado antes com outros contornos).

domingo, 21 de julho de 2019

É isso e a Pobreza!

 


 


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É inútil discutir a oscilação anual de décimas nos resultados dos alunos. E é pena que as entidades institucionais não dêem o exemplo e que os Governos não invistam num exercício que qualifique o debate. Têm o antigo SPSS, da IBM, que faz (o "Stepwise Regression" é amigável e intuitivo) regressões lineares múltiplas a partir da escolha de variáveis independentes e dependentes. Para além de permitir conclusões sustentadas, o programa torna insustentáveis "reformas circulares". Por exemplo, a distribuição geográfica da residência da maioria dos alunos das áreas metropolitanas, e das cidades com dimensão significativa, é uma variável independente que influencia a variável dependente "resultado em qualquer prova ou exame". E isso leva décadas a mudar; e altera-se se houver vontade política continuada. É isso e a pobreza!


Duas notas:


O processo "palavras cruzadas" é mais um sinal do grau zero da mediatização, que se situou ao nível da revisão do estatuto da carreira dos professores sem sequer se enunciar princípios (ou começar pelo princípio).


Aliás, uns graus abaixo de zero esteve a mediatização à volta da morte de três professores. Para além de tudo, há estudos, e conhecimento do real, mais do que suficientes para a prevenção do burnout. Mas isso passa pela democracia escolar em três dimensões: confiança nos professores, ambiente organizacional desburocratizado e atmosfera profissional civilizada com a sala de aula no centro da profissionalidade. E não é de agora. Há mais de uma década que a descida não tem travões e os resultados estão aí; até na falta de professores. E se nada se fizer, a crise vigente agudizar-se-á e prolongar-se-á.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

À volta da Morte de 3 Professores

 


É muito triste este processo mediático à volta da morte de três professores. Para além de tudo, e sem necessidade de qualquer especulação ou manipulação, há estudos, e conhecimento do real, mais do que suficientes para que a prevenção do burnout obedeça à decência mínima. Mas isso passa pela democracia escolar em três dimensões: confiança nos professores, ambiente organizacional desburocratizado e atmosfera profissional civilizada. E não é de agora. Há mais de uma década que a descida não tem travões e os resultados estão aí; até na falta de professores. E se nada se fizer, a crise vigente agudizar-se-á e prolongar-se-á.

domingo, 23 de junho de 2019

Começar Cedo

 


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Quadros de mérito ou de valor aos 10 anos?!


Começar cedo, como se de um adulto em miniatura se tratasse, a competir desportivamente ou a ser alvo de honrarias e louvores no ambiente escolar, eram políticas "inócuas" nos anos 50 e 60 do século passado. Era uma espécie de "inocente" preparação para a "selva dos adultos", associada, de forma consciente ou não, a uma carga ideológica classista e exclusiva. Actualmente, são decisões inaceitáveis no domínio das políticas de prevenção da saúde pública. Como alguém disse, já são inúmeros os estudos e as recomendações da OMS: desde Michael Sandel, sobre a invasão dos valores do mercado em todas as esferas da vida, até ao psicólogo Roy Baumeister (conceito "depleção do ego"), com contributos para o reconhecimento recente do burnout pela OMS, e passando pelo fundamental "Nenhuma Medalha Vale a Saúde de uma Criança" de Jacques Personne ou pelo recente "Range" de David Epstein, (com um estudo comparado que tem, para além de outros dados, uma contraposição do percurso saudável, por especialização "tardia e generalista", do tenista Roger Federer ao dramático esgotamento emocional, por especialização precoce, do golfista Tiger Woods ou das irmãs Polgar - xadrezistas vítimas de uma "MãeTigre"; aliás, fenómeno que exigiu mudanças recentes e drásticas nas políticas de Singapura relacionadas com os resultados escolares -).


Não é defensável usar a "aceitação" das crianças e jovens na aplicação de quadros de mérito ou de valor antes dos 14 anos. Os estudos indicam que os quadros destinam-se (em regra, obviamente, porque há muitos que desconhecem a história) a satisfazer o ego dos progenitores ou a vaidade institucional dos decisores. Será, portanto, um gesto de saúde pública usar um alfinete no ego dos crescidos (como na imagem), antes que a depleção do ego dos futuros adultos comece em idades cada vez menos avançadas.


 



Nota: esta segunda publicação deve-se à partilha para o facebook. A primeira versão não assumia a imagem.


quinta-feira, 20 de junho de 2019

Começar Cedo (1ª Versão)

 


Quadros de mérito ou de valor aos 10 anos?!


Começar cedo, como se de um adulto em miniatura se tratasse, a competir desportivamente ou a ser alvo de honrarias e louvores no ambiente escolar, eram políticas "inócuas" nos anos 50 e 60 do século passado. Era uma espécie de "inocente" preparação para a "selva dos adultos", associada, de forma consciente ou não, a uma carga ideológica classista e exclusiva. Actualmente, são decisões inaceitáveis no domínio das políticas de prevenção da saúde pública. Como alguém disse, já são inúmeros os estudos e as recomendações da OMS: desde Michael Sandel, sobre a invasão dos valores do mercado em todas as esferas da vida, até ao psicólogo Roy Baumeister (conceito "depleção do ego"), com contributos para o reconhecimento recente do burnout pela OMS, e passando pelo fundamental "Nenhuma Medalha Vale a Saúde de uma Criança" de Jacques Personne ou pelo recente "Range" de David Epstein, (com um estudo comparado que tem, para além de outros dados, uma contraposição do percurso saudável, por especialização "tardia e generalista", do tenista Roger Federer ao dramático esgotamento emocional, por especialização precoce, do golfista Tiger Woods ou das irmãs Polgar - xadrezistas vítimas de uma "MãeTigre"; aliás, fenómeno que exigiu mudanças recentes e drásticas nas políticas de Singapura relacionadas com os resultados escolares -).


Não é defensável usar a "aceitação" das crianças e jovens na aplicação de quadros de mérito ou de valor antes dos 14 anos. Os estudos indicam que os quadros destinam-se (em regra, obviamente, porque há muitos que desconhecem a história) a satisfazer o ego dos progenitores ou a vaidade institucional dos decisores. Será, portanto, um gesto de saúde pública usar um alfinete no ego dos crescidos (como na imagem), antes que a depleção do ego dos futuros adultos comece em idades cada vez menos avançadas.


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domingo, 16 de junho de 2019

Entropia e Avaliação por Semestres

 


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Basta acompanhar a discussão sobre a possibilidade de mudar a avaliação dos alunos de três períodos para dois semestres, para se concluir do estado entrópico do sistema escolar. É uma espécie de buraco negro que absorve qualquer ideia pedagógica (sucesso, interdisciplinaridade, provas finais ou de aferição, currículos, inclusão, constituição de turmas e de horários e por aí fora). A entropia na gestão e administração do sistema, por excessos originados na desflorestação ou no uso de byte´s e gigabyte´s e associados à desorganização da rede escolar (não é aceitável tanta competição, e exclusão, numa sociedade com 500 mil crianças pobres) e nos mega-agrupamentos de escolas, adoeceu a massa crítica com sala de aula. As decisões caíram longe desse espaço, numa época de escola a tempo inteiro que acentuou uma das características mais nefastas bem identificada por António Sampaio da Nóvoa: uma sociedade ausente que exige tudo a uma escola transbordante.


É interessante, e a propósito do título, ler o pequeno livro da imagem:



"(...)para Byung-Chul Han, uma das mais inovadoras vozes filosóficas surgidas na Alemanha, o Ocidente está a tornar-se uma sociedade do cansaço.(...)qualquer época tem as suas doenças características. A época bacteriana, que terminou com a descoberta dos antibióticos, foi ultrapassada através das técnicas imunológicas.(...)O início do século XXI, do ponto de vista patológico, seria sobretudo neuronal. A depressão, as perturbações de atenção devidas à hiperactividade e a síndroma do desgaste profissional definem o panorama atual."


terça-feira, 28 de maio de 2019

Burnout na lista da OMS

 


 


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"O burnout – síndrome do esgotamento profissional – já entrou oficialmente na Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS).(...)"


Há muito que se percebeu que existe um esgotamento das capacidades volitivas. O corpo reage. A energia psicológica não é inesgotável. Os muito difíceis estudos empíricos neste domínio deram passos e foram fundamentais para comprovarem os efeitos da saturação da vontade. O psicólogo Roy Baumeister é citado com importantes contributos. Criou o conceito "depleção do ego". É como se a vontade fosse um músculo que deixa de ser irrigado; acelera a queda de açúcar e cria um efeito geral de fadiga. Estes estudos foram usados para explicar o burnout dos professores que tomam dezenas de decisões diárias debaixo de forte ansiedade. Daí ao esgotamento é um passo frequente com o prolongamento das carreiras associado a um indicador fundamental: o número de horas de sono. Ou seja, abandonámos o tempo das incertezas em relação ao burnout, com os professores, o tal caso da nação, como um dos principais casos de estudo por terem sido alvo, na última década e meia, de uma acentuada degradação da carreira (e não apenas em Portugal; obviamente).


Uma curta nota sobre a manifestação do burnout em idades cada vez menos avançadas: É também por isso que se contraria a precocidade na especialização desportiva. Os modelos de formação bem sucedidos são graduais na exposição aos quadros competitivos e "exigem" que as políticas de competição escolar (as mais diversas e não apenas as desportivas) destinadas às crianças e jovens sejam diferentes das aplicadas aos adultos. Em geral, quem começa muito cedo a competir como se de um adulto se tratasse atinge a saturação volitiva quando era esperado um rendimento que maximizasse as potencialidades. 

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

da blogosfera - "Porque os Juízes se suicidam mais? E os estivadores se revoltam?(...)"

 


 



 


"Porque os Juízes se suicidam mais? E os estivadores se revoltam? Portugal, retrato da depressão laboral."


 


"(...)Dejours esteve recentemente em Portugal.(...)o fundador do Laboratório de Psicopatologia do Trabalho em França – que provou a relação entre os suicídios da France Telecom e a gestão do trabalho da empresa – disse a uma audiência de centenas de professores em Lisboa: “Têm que reagir e resistir às condições de trabalho…e não se deixarem apanhar”.(...)"


terça-feira, 20 de novembro de 2018

a desconfiança nos professores dois anos depois (e o que é feito do CNE?)

 


 


Ora leia este post de Junho de 2016 e compare com o que se passa:



"(...)Entre as tarefas que desviam os professores da sua “missão essencial”, figuram “a sobrecarga de reuniões e de múltiplas tarefas de natureza burocrática”, como por exemplo o preenchimento de aplicações instaladas em plataformas electrónicas, que “poderiam ser desenvolvidas por assistentes técnicos”, destaca o CNE num parecer sobre a condição docente.(...)". Digamos que a hiperburocracia está há muito identificada e que a passagem para o digital torna ainda mais ridícula a ausência de estratégia informacional. Aos sucessivos discursos governamentais com promessas de eliminação da praga, corresponde sempre mais burocracia. Conclui o CNE, que acorda tardíssimo, mas acorda, que “nos últimos anos, as condições de trabalho dos docentes nas escolas têm vindo a tornar-se mais difíceis”, o que contribui para que se registem “processos de stress e burnout [exaustão]".



Estamos, objectivamente, pior e ponto final. (e o que é feito do CNE?)


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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

De vento em popa

 


 


 


As infernais grelhas são um modo de vida no tratamento da informação escolar. A coisa já não se intensifica apenas nos finais de período. Começa nas tais intercalares com um registo info-excluído traduzido em ficheiros excel e word. A escola actual é, realmente e em modo crescente, uma organização que adoece os professores.