Mostrar mensagens com a etiqueta francesco alberoni. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta francesco alberoni. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

a história, os símbolos e as proibições

 



 


Foi daqui.


 


"O pluralismo sempre foi negado por aqueles que querem destruir o passado e construir utopias. Não devemos permitir que isso aconteça na Europa





Os juízes de Estrasburgo proibiram a exposição de crucifixos nas escolas. Na Turquia proibiriam a meia-lua e em Israel a estrela de David. Há já quem peça a supressão do Natal e, segundo a mesma lógica, do Yom Kippur e do Ramadão. Tudo em nome da laicidade do Estado. 



O que se passa é que, no mundo, o Estado não significa apenas Estado central. Também são "Estado" as regiões, os concelhos, as comunidades autónomas, as associações religiosas e culturais em que são delegadas funções públicas de acordo com o princípio da subsidiariedade.



Numa Europa multiétnica e multirreligiosa continuam a ser importantíssimas as velhas nações e as formações que têm por base valores, normas e símbolos tradicionais. Proibi-los por irritarem, perturbarem e incomodarem alguém significa impedir que comunidades inteiras continuem a ser elas mesmas; é negar o pluralismo.



A história mostra-nos que o pluralismo sempre foi negado por aqueles que querem destruir o passado e construir utopias. Os espanhóis anularam as civilizações pré-colombinas, a Revolução Francesa até mudou o nome dos anos e dos meses. Os comunistas soviéticos impuseram o ateísmo. Nos estados islâmicos totalitários, quem mostrar uma Bíblia vai preso. A utopia leva ao totalitarismo.



Significará isto que os filósofos e os juristas dos direitos humanos têm uma mentalidade totalitária? Se quiserem realizar a utopia de impedir que qualquer indivíduo possa ser perturbado pelo comportamento real ou simbólico de outro indivíduo, sim.



Para conseguirem contentar toda a gente têm de proibir tudo: usos e costumes, valores, até mesmo as línguas de outros povos. Enquanto os grandes impérios persa, romano e britânico deixavam viver os cultos, as tradições e as línguas, os nossos visionários são impiedosos. E não apenas em relação às dimensões das ervilhas e das laranjas, mas também aos símbolos religiosos e até à linguagem. Em determinados países não se pode dizer "sexo"; tem de se dizer "género", para não ofender ninguém.



Após os totalitarismos jacobino, marxista, nazi e muçulmano, pode vir a nascer um totalitarismo eurocrático. Acena com promessas utópicas, destrói as instituições do passado e impõe o seu poder. Ensinados pela história, tentamos impedir que isso aconteça, estamos atentos e somos desconfiados. É certo que somos europeus, mas, por favor, conservemos as nossas tradições, as nossas línguas, e até mesmo as nossas fraquezas e os nossos preconceitos. E, se tentarem impor-nos alguma coisa à força, devemos dizer que não."




por Francesco Alberoni,


Sociólogo, escritor e jornalista

terça-feira, 17 de novembro de 2009

estudar as datas na escola ajuda a compreender a identidade do país

 


 


 


 



Foi daqui.



 


 


 


No início da década de noventa li uma série de livros de Francesco Alberoni. Achei-os interessantes e guardo de alguns dos seus estudos aprendizagens importantes. Depois, quase que lhe perdi o rasto. Recebi por email um texto seu que resolvi publicar. Diz assim:


 


 


 


 


"Estudar as datas na escola ajuda a compreender a identidade do país.


 


por Francesco Alberoni,


Publicado em 10 de Novembro de 2009


 


 


Nos últimos 40 anos, os pedagogos quase destruíram as bases do pensamento racional e os fundamentos da nossa civilização. E fizeram-no com a ajuda de uma única decisão: eliminando as datas, acabando com a obrigatoriedade de apresentar os factos por ordem cronológica. Agora é normal ouvir dizer que Manzoni viveu no século xvi. Não há razões para espanto porque na escola já não se ensinam os acontecimentos pela respectiva ordem temporal, dizendo, por exemplo, que Alexandre Magno viveu antes de César, que, por sua vez, viveu antes de Carlos Magno, e só depois vem Dante e, em seguida, Cristóvão Colombo.



Esta pedagogia foi importada dos Estados Unidos, um país sem história que tenta anular as raízes históricas dos seus habitantes para que se tornem cidadãos norte-americanos. Aplicá-la a Itália, produto de uma estratificação histórica com 3 mil anos, e ao resto da Europa, que tem raízes culturais gregas, romano e judaico-cristãs, é equivalente a destruir-lhes a identidade. Ao contrário de nós, as civilizações islâmica e chinesa estudam obstinadamente a sua história, para se conhecerem melhor e se reforçarem.



Perder a capacidade de ordenar cronologicamente os acontecimentos significa igualmente perder a identidade pessoal. Quando perguntamos a alguém "Quem és?", essa pessoa conta-nos o que fez e o que faz nesse momento. Quando procuramos trabalho, apresentamos o nosso currículo. Quando nos apaixonamos, contamos a nossa vida à pessoa que amamos. Hoje vemos muita gente que já não sabe ordenar aquilo que viveu e vê o passado apenas como uma sucessão caótica de acontecimentos.



A desordem no pensamento reflecte-se na língua. A escola já não ensina gramática, análise cronológica ou consecutio temporum. Há quem não distinga o passado próximo do passado remoto, quem não perceba a lógica do conjuntivo e do condicional e alguns confundem até o presente com o futuro. É a desagregação mental, a demência.



Cara ministra Gelmini, peço--lhe que me dê ouvidos e afaste todos os pedagogos desta corrente nefasta. E depois, por favor, obrigue todos os professores a fazerem um curso de História com datas e um curso de Gramática. Finalmente, mande instalar em todas as salas de aula um grande cartaz horizontal onde estão assinalados, por ordem cronológica, todos os episódios significativos da história, para que os nossos jovens possam habituar-se à sucessão temporal. Uma muleta para o cérebro."


 




Sociólogo, escritor e jornalista.