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É muito desigual a luta da democracia europeia contra os algoritmos que as gigantes tecnológicas optimizam para viciarem os utilizadores de todas as idades. É desigual porque os algoritmos - que não identificam uma notícia falsa - viciam através do medo, do ódio e da irritação, que é exactamente o conjunto de conteúdos que historicamente interessa à extrema-direita. Aliás, há algoritmos das redes sociais concebidos para promover constantemente ideias de extrema-direita. Seleccionam para a visualização conteúdos racistas, anti-semitas e ofensivos e promovem a necessidade do líder único e "eterno" que trará a acalmia perante tanto ruído e acrimónia.
E como a extrema-direita consegue anexar a direita democrática e os grandes investidores - veja-se o exemplo, onde tudo começa, da administração americana, e do movimento MAGA, que anexou os republicanos e as gigantes tecnológicas -, coloca-se como um bloco contra todos os democratas.
De facto, os algoritmos ajudam a deslocar o centro de gravidade da política em direcção à extrema-direita, e o seu aparelho comunicacional vai-se alargando nos média. Descredibilizam qualquer acção opositora de esquerda. Em regra, classificam-na como ideológica e radical - até políticas que há pouco tempo eram de centro-esquerda ou sociais-democratas. Ou seja, a extrema-direita acicata o ódio e insulta, a direita democrática faz o jogo da densidade discursiva e os restantes democratas nada mais conseguem do que se justificar.
Agrava-se com a interferência digital das autocracias. Iniciou-se na Rússia e foi imitada em diversas latitudes por regimes chefiados por autocratas ricos que desviam fundos dos seus países para paraísos fiscais (e provavelmente para Portugal também, com incidência no imobiliário e nas infra-estruturas de turismo). É também assim que contornam as famigeradas sanções, gerando estruturas alternativas e ilegais para efectivar negócios.
A luta das democracias pela sobrevivência começou tarde, e se é que se iniciou verdadeiramente, porque mesmo os democratas informados estiveram demasiado tempo tecnologicamente inebriados por um intelectualismo vintage e pelas cedências ilimitadas aos mais ricos.
E o pior é que não seria a primeira vez que a democracia se apagava, e foi espantoso como, durante mais de uma década, houve quem o ignorou ou interesseiramente relativizou. Em 2020, e como exemplo, só em 2% das democracias é que 75% dos cidadãos estavam satisfeitos com o regime (leia-se Martin Wolf). E em simultâneo com esse crepúsculo, aumentou o número de territórios subjugados por autocracias e acentuou-se o risco de o poder cair, paulatinamente, em despotismos e delinquências. Veremos se foi fatal.
Há alguma esperança quando os eleitores, como se viu agora nos Países Baixos, começam a perceber que o discurso de ódio serve principalmente para esconder os negócios que avassaladoramente fazem dos ricos ainda mais ricos, e dos pobres ainda mais pobres, e com desinvestimento nas políticas públicas de saúde e educação.
Duas notas:
1. Numa das primeiras vezes que usei o chatgpt, em 07.02.2023, pedi-lhe um texto com 200 caracteres sobre a situação dos professores em Portugal. Mas pedi duas vezes: uma em tom moderado e outra em tom radical. E o algoritmo concretizou-o de imediato e com mestria. Para quem tivesse dúvidas, era o que se sabia há muito: os algoritmos das redes sociais identificavam o tom dos conteúdos e usavam os mais violentos, racistas, misóginos e xenófobos para adictar os utilizadores.
2. O partido da extrema-direita alemã é liderado por Alice Weidel. Alice é uma mulher loira, lésbica e casada com uma senegalesa negra. Os algoritmos tornaram-na popular entre os eleitores jovens no TikTok, principalmente homens. Ora sabe-se o que acontece a uma mulher com estas circunstâncias que seja de um qualquer partido europeu de esquerda.