quarta-feira, 9 de setembro de 2009

do medo

 


 



Foi daqui. 


 


 


Um leitor identificado escreveu-me assim: "Quando a Sophia e o Alexandre O´Neill escreveram estes poemas, em Portugal vivia-se com medo. Medo da ditadura. Medo da PIDE. Medo do Salazar. Medo de falar aquilo que se pensava. Medo de ser preso, de ser torturado. Medo de ser assassinado. Mesmo assim havia quem arriscasse e dissesse o que pensava (...)."


 


E depois enviou-me dois poemas (o primeiro já o publiquei há uns tempos) dos escritores referidos.

 




Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros usam a virtude 

Para comprar o que não tem perdão. 

Porque os outros têm medo mas tu não. 

Porque os outros são os túmulos caiados

Onde germina calada a podridão.

Porque os outros se calam mas tu não.

 

Porque os outros se compram e se vendem

E os seus gestos dão sempre dividendo.

Porque os outros são hábeis mas tu não. 

 

Porque os outros vão à sombra dos abrigos

E tu vais de mãos dadas com os perigos. 

Porque os outros calculam mas tu não.


 


Sophia de Mello Breyner Andresen.




 


PERFILADOS DE MEDO


 


Perfilados de medo, agradecemos

o medo que nos salva da loucura.

Decisão e coragem valem menos

a vida sem viver é mais segura. 



Aventureiros já sem aventura,

perfilados de medo combatemos

irónicos fantasmas à procura

do que não fomos, do que não seremos. 



Perfilados de medo, sem mais voz,

o coração nos dentes oprimido,

os loucos, os fantasmas somos nós. 



Rebanho pelo medo perseguido,

já vivemos tão juntos e tão sós

que da vida perdemos o sentido



 ALEXANDRE O‚NEILL

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