Noam Chomsky e Barack Hussein Obama são mais do que dois nomes. Têm um carga simbólica que registo com muito agrado.
Tropecei com o primeiro há muito tempo, mais precisamente nos finais da década de oitenta. Na altura estudava tudo o que me aparecia relacionado com especialização precoce de crianças, nomeadamente o que comprovasse os efeitos negativos do treino desportivo intensivo. Nesse sentido, também me interessavam os conhecimentos que nos ajudassem a perceber a propensão genética para aprender. Foi assim que cheguei à faceta linguística e de investigador de Noam Chomsky e aos seus inatismos na capacidade humana para comunicar de modo verbal. Mais tarde percebi a sua posição radical de esquerda em termos políticos e lembro-me da sua importante ajuda a Timor-Leste. Mas o que mais me ficou foi o registo inicial.
Foi com Barack Obama que li com interessada curiosidade uma biografia. E mesmo assim foi uma obra oferecida como prenda de aniversário ou coisa do género. E não me perguntem o motivo que me leva a separar com veemência, e desde cedo, o homem da sua obra ou dos seus escritos. Obama representa uma viragem histórica na luta pelos direitos cívicos e na defesa da igualdade de oportunidades. Não me é indiferente o facto de Obama pensar à esquerda - no sentido norte-americano - e de associar a utopia ao pragmatismo.
Vem tudo isto a propósito de um contraditório. Um leitor do blogue, que é também meu amigo e que me conhece bem, enviou-me uma entrevista em que Noam Chomsky é muito crítico em relação a Barack Obama. Tem um registo parecido com o que advoga que a reforma da saúde é uma descarada transferência de recursos financeiros da classe média para a baixa deixando a alta de bolsos livres e não convocada para o esforço de solidariedade. A entrevista é longa e escolhi a parte que se relaciona com a importante questão financeira. Quer parecer-me que num ano, e tendo em consideração o estado em que o mundo financeiro se encontrava, a crítica de Chomsky é injusta. Mas leia e tire as suas conclusões.
"(...)Noam Chomsky - A principal realização tem sido a de pagar uma fiança colossal para salvar os bancos. Os grandes bancos agora têm lucros maiores do que tiveram no passado e pagam bônus enormes a seus gestores. Basicamente, eles tinham destruído o sistema financeiro; aquela medida os livrou com dinheiro e os reconstituiu, de modo que agora são maiores do que antes. A não ser que haja alguma significativa regulamentação, o que parece bastante improvável, está se estabelecendo a base para a próxima crise financeira, até pior que a que acaba de ocorrer. O governo anunciou a sua política de seguros, chamada de “Grande demais para falir”, o que significa: se você for um banco realmente grande, como a Goldmann & Sachs, não vamos deixar você falir. Então, o contribuinte pagará a sua fiança salvadora, você pode assumir grandes riscos ao emprestar e investir, fazer muito lucro, sem se preocupar se tudo for mal. Isto continua igual. Esta é a principal realização do governo federal. É uma das razões para a considerável indignação prevalente no país. Os bancos estão sendo salvos com dinheiro público, estão enriquecendo, e se tornando os responsáveis pela crise econômica. Bem, pelo menos para a população a crise econômica está crescendo.(...)"
A critica de Chomsky não me parece injusta. O que se fez para salvar os bancos foi uma trapalhada. Foi salvar quem não mereceu ser salvo com dinheiro ao qual, os bancos, nunca teriam direito.
ResponderEliminarContudo, o que foi feito foi feito na medida do possível. O caminho que Chomsky parece apontar é, do meu ponto de vista, utópico. O mundo é governado pela economia e pelo poder económico. Critique-se o que se quiser mas esta é a realidade das coisas. Por isso, fazer seja o que for que vá mexer nos interesses instalados é mexer num ninho de vespas que depressa matarão qualquer opositor mais agressivo.
O que foi feito foi aquilo que era possível fazer em tempo útil de modo a não piorar as coisas. No entanto, isto não impede que a critica que Chomsky faz no que se passou depois esteja cheia de razão. Depois do que era possível fazer devia ter-se seguido o que era necessário: uma grande reforma do modelo económico.
Não quero dizer que se tivesse passado para outro sistema económico mas o que vivemos precisava e precisa de uma grande reforma. Isto não foi feito pois, quem manda, não quer. Os interesses moveram-se e tudo ficou nada mesma.
Por isto penso que a critica de Chomsky não é de todo injusta se bem que pode cair um bocado na utopia.