sábado, 3 de julho de 2010

queixa das almas jovens censuradas

 



 


 


 


 



 




Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola


 


Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade


 


Dão-nos a honra de manequim


Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência


 


Dão-nos um barco e um chapéu


Para tirarmos o retrato


Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro


 


Penteiam-nos os crâneos ermos


Com as cabeleiras das avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós


 


Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa historia sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra que o medo


 


Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Somos vazios despovoados
De personagens de assombro


 


Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco
Dão-nos um pente e um espelho
Pra pentearmos um macaco


 


Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura


 


Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante


 


Dão-nos um nome e um jornal
Um avião e um violino
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino


 


Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida, nem é a morte


 


 


Natália Correia



(Album "Mudam-se os tempos


mudam-se as vontades"


(1971 - J.M.Branco)

8 comentários:


  1. Obrigada. bela maneira de começar o dia. E viva ABRIL SEMPRE!

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  2. Magnífico!
    Incontornável também na voz de Zé Mário Branco.

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  3. Bonito. As mulheres de Abril.

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  4. Obrigada por ter escolhido uma mulher para comemorar o 25 Abril. LINDO.

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  5. CompanheiroSobre as águas calmas Um vulc25 de abril de 2010 às 22:56

    Eu vi este povo a lutar
    Para a sua exploração acabar...

    Sobre as águas calmas
    Um vulcão de fogo
    Toda a terra treme
    Nas vozes deste povo...

    J M Branco

    Falta cumprir "a revolução de mentalidades".
    As gerações de Abril já iniciaram esse percurso.



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  6. Notável este poema pela força que emana.
    Hoje, recordei Abril ouvindo, exactamente, este poema na voz de José Mário Branco. Foi bom lembrar gente de foça, de luta pela transformação.

    É sempre saudável relê-lo.....obrigada!

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  7. Belíssimo poema!

    Uma sugestão ao Paulo: era giro que estivesse acompanhado da música cantada pelo José Mário Branco, de cujo album retirou o poema de Natália Correia.

    - Isabel X -

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  8. paulo guilherme trilho prudêncio4 de julho de 2010 às 16:54

    Viva Isabel X.

    Obrigado pela sugestão. Vou pensar nisso.


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