segunda-feira, 25 de abril de 2011

A revolução dos cravos

 


 


Uma revolução original: “A Revolução dos Cravos”


 


 


“De 23 de Março a 10 de Abril, fomos a Portugal, onde ocorrera um ano antes, a 25 de Abril de 74, aquilo a que se chamou “A Revolução dos Cravos. ”Depois de cinquenta anos de fascismo, alguns oficiais – indignados entre outras coisas com a guerra de Angola – tinham-se revoltado. Mas não se tratava apenas de um golpe de Estado militar: era um povo que despertava e apoiava o M.F.A. (…) Sartre tinha vontade de conhecer mais de perto este acontecimento singular.


Estávamos alojados num hotel central, muito barulhento, perto de um mercado ao ar livre. (…) Andávamos pelas ruas onde deambulava uma multidão alegre, sentávamo-nos nas esplanadas do Rossio. Para Sartre tratava-se sobretudo de uma viagem de informação. (…)Tomou parte em reuniões e fez conferências.


Fez uma conferência perante estudantes que o desiludiram pela falta de reacção às suas perguntas. Eles sofriam mais a revolução do que a faziam, pareceu-lhe.


No regresso, fez na rádio uma boa emissão sobre Portugal e, no Libération, surgiram de 22 a 26 de Abril, uma série de conversas, redigidas por Serge July, entre Sartre, Pierre Victor, Gavi e eu.”


 


Simone de Beauvoir, A Cerimónia do Adeus


 


____________________________________


 


 


“Penso que o que é essencial é o poder popular que está a formar-se. Esta assembleia não me inspira confiança: os partidos não colam a um movimento popular que pediria qualquer coisa. Os partidos em Portugal representam uma espécie de ligação estranha que não corresponde a nada.”


 


 


Jornal Libération


Sartre (Abril de 1975)


 


____________________________________



 


“…na crónica dos anos de cinzas, esta revolução abortada tomou um lugar cronológico entre o Chile e o Vietname. […] Com o detalhe de que esta revolução não tinha nada de exótico, que ela se produzia sob o nosso olhar, na orla ocidental da Europa, a um dia de comboio de Paris, de Milão e pouco mais de Frankfurt.


A Europa esquerdista e contestatária, mas também a Europa centrista e liberal, a Europa comunista, a Europa socialista e a Europa fascista desfilaram em Lisboa, intrigando e pesando sobre os eventos, buscando os seus respectivos militares e partidos na tormenta de um processo revolucionário do qual precisamente a Europa se pensava protegida.


 


Uma multiplicidade de estratégias europeias cruzou-se e enfrentou-se nas margens do Tejo, nem sempre, longe disso, no benefício dos portugueses que herdaram, além das dificuldades deles, dos fantasmas europeus, das teorias de uns e de outros.”


 


Jornal Libération


Serge July


(cinco anos após o 25 de Abril de 1974)


 




____________________________________




 


 “Hoje, tudo é diferente, numa democracia representativa que assume teoricamente a defesa das liberdades e assegura de facto algumas na prática, mas segue o modelo económico do capitalismo neo-liberal, que gera desigualdade, miséria, corrupção, crime e adormece as consciências. O oportunismo, por um lado, e, por outro, o egoísmo da competição frenética e a ânsia de dinheiro estão a degradar o próprio estilo de vida português, à semelhança do que se passa em quase toda a Europa, com a agravante do abismo que há em Portugal entre os rendimentos do capital e os do trabalho.


 


Urbano Tavares Rodrigues


 


 


Cortesia da Manuela Silveira.

Sem comentários:

Enviar um comentário