quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

do supremo, dos sabotadores e dos ovos

 


 


Portugal multado por causa de gaiolas de galinhas poedeiras 


 


 


Esta notícia recordou-me este post, que fiz há pouco tempo, e que diz assim:


 


 



Sabotadores.


 


- O proletariado tem o dever do movimento - informou o activista -, e tudo aquilo que ele encontra pelo caminho é seu: seja a verdade, seja uma peça roubada a uma kulak, tudo vai para o caldeirão organizativo; não reconhecerás nada. E as galinhas apalpaste-as?


- Passei toda a noite a apapá-las, nenhuma delas tem ovo.


O actvista concentrou-se; os seus assistentes também ficaram identicamente pensativos: poderia uma ave ser cúmplice dos kulaks?


- É preciso preparar todas as galinhas, matá-las e comê-las - declarou um dos membros do corpo de activistas depois de ter reflectido.


- E reparaste nos galos? - perguntou o activista.


- Não há galos - disse Voschev. - Um homem que estava deitado no pátio disse-me que tu comeste o último galo numa ocasião em que percorrias o kolkhoze e de repente sentiste fome.


- Importa-nos esclarecer quem comeu o primeiro galo, e não o último - declarou o activista.


- Como é que ele morria por si mesmo? - surpreendeu-se o activista- - Achas que é um sabotador consciente para morrer num momento destes? Vamos fazer um interrogatório abrangente: a base aqui deve ser outra.


Todos se levantaram e foram procurar o pérfido sabotador que, para sua própria alimentação, exterminou o primeiro galo. Voschev e Tchíklin também seguiram atrás do activista.


- O caso é sério - dizia Tchíkilin. - Sem ovos as crianças definham e não chegam a adultos!


- É claro - conformou Voschev, mas ele próprio se atormentava, porque aceitaria viver até à morte sem um ovo de galinha, em troca de conhecer o mecanismo essencial ao mundo.


 


 


Andrei Platónov (2011:93), 


"A escavação" Antígona




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