Sabemos que cinco minutos a mais ou a menos, principalmente nos somatórios do universo lusitano, podem satisfazer objectivos da austeridade sem visão. Quando em 1998, e no âmbito da reorganização curricular, se achou que as aulas deviam passar de cinquenta minutos para quarenta e cinco (ou noventa), ficaram cinco minutos em transe que geraram acesas polémicas, reuniões acaloradas e telefonemas sem fim. Era mais um sinal do estado a que havíamos de chegar. Confesso que sempre tive alguma dificuldade em explicar o fenómeno a quem não dominasse o sistema escolar sem que corasse ou nos desatássemos a rir.
O que não esperava é que, 14 anos depois, ainda andaríamos à volta dos 300 segundos e que nem um especialista em matemática ilimitada conseguisse encontrar o algoritmo em forma de remédio. Não foi ainda desta vez. Apesar da nova estrutura curricular ter algumas potencialidades em matéria de tempo, comprova-se que o que existe eliminou a possibilidade de pensar. Desconfio que a nova formulação garantirá mais uns empregos na OCDE.
Há tempos, comecei um post, reformas e remédios (1), que ainda não contemplava o imbróglio que nos retrata na perfeição e que começou assim:
A versão 2, confesso que saiu mais a pedido e uns anos depois, incluiu, todavia, o tal desmiolo que se tornou um clássico e que promete mais uns anos investigativos até que a solução nos coloque fora das ameaças externas.
5 minutos.
Composição: 5 minutos de redução por cada hora escolar. Como cada hora escolar era de 50 minutos, (decisão que, ao que se julga saber, foi tomada pela escriturária do Ministro da Educação do Governo de 1963 - José Hermano Saraiva - que, definitivamente, não tinha queda para as operações matemáticas com cálculos das unidades de tempo mas... uma vez decretado, para sempre decretado) a sua inovadora redução para 45 minutos está já a ser considerado um problema só comparável à eternamente inacabada Igreja da Sagrada Família, em Barcelona.
Indicações terapêuticas: garante-se o sucesso escolar, pleno.
Contra-indicações: considerando a sua estonteante capacidade de absorção, aconselha-se a sua administração depois da elaboração de um cuidado plano de generalização - tem passado de Ministro em Ministro e ainda nenhum conseguiu encontrar a sua simbiose associativa a um inibidor ou a um retardador -.
Precauções especiais de utilização: não pode ser utilizado em períodos de 4 minutos e 36 segundos.
Prazo de validade: 30000000000000 exactos segundos.
Divinal o remédios 1 e adorei o minutos.
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